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05º dia: SANTA MATA DE PENAGUIÃO à VILA REAL – 19.770 metros


05º dia: SANTA MATA DE PENAGUIÃO à VILA REAL – 19.770 metros



“As dificuldades preparam as pessoas comuns para destinos extraordinários”. (Clive Staples Lewis)

A etapa não seria longa e pelo perfil altimétrico publicado no site do CPI, a primeira parte da jornada seria praticamente plana, o que resulta equivocado, pois ela possui violentas variações de altitude.

Aliás, observando as perfis de altimetria que estão apostos no site desse Caminho, diria que eles são totalmente irreais, se comparados com aqueles que captei em meu GPS.


A primeira flecha desse dia..

Bem, mas voltando àquele dia, deixei o local de pernoite às 7 h, localizei a primeira flecha do roteiro, e logo me internava na zona rural, em forte aclive.


Caminho rural, em ascenso.

Como praxe na região, transitei o tempo todo entre vinhedos e, nessa primeira parte, a sinalização estava perfeita.


Desse ponto, é possível ver a rodovia N2, que transcorre pelo lado oposto.

Em alguns locais encontrei a terra revolvida, sinal de que em breve novos pés de uva seriam ali plantados.


Caminho em descenso, mas bem sinalizado.

Depois de percorrer uns dois quilômetros, passei a descender.

Quinhentos metros depois, já no plano, o caminho girou 90 graus à direita, e me encaminhou para um brusco descenso, onde uma placa me avisava que estava no Caminho dos Torneiros, por onde segui com cuidado.


Nesse ponte, em descenso, as flechas desapareceram.

A estrada prosseguiu a meia altura no morro, e logo adiante se bifurcou, mas não encontrei nenhuma marcação informando para onde me dirigir.

Resolvi seguir em frente, mas encontrei, logo adiante, outra bifurcação à esquerda se dirigindo a uma plantação de uvas, abaixo.

Confuso, sem encontrar as benfazejas flechas amarelas, ainda desci por uns 500 metros até uma construção rural, edificada para a guarda de ferramentas e materiais utilizados nos parreirais.


Foto feita da rodovia N2. É possível ver a casa de ferramentas, onde também não encontrei as flechas. Depois o caminho se interna num bosque.

Sua parte traseira, toda pintada de branco e fronteiriça ao caminho, seria um bom local para eu encontrar uma seta, mas nada vi.

Pior, logo à frente, o caminho internava-se num espesso bosque e não tinha visão para onde ele seguiria.

Confuso, retroagi até a primeira bifurcação que encontrara, observando cuidadosamente o entorno, mas não vi nenhuma indicação que o roteiro seguiria naquela direção.

Oras, para quem reside na região, talvez seja lógico a direção a tomar, em frente e para baixo, por exemplo.

Mas, não era o meu caso, um peregrino solitário, que jamais havia estado naquele lugar, e que não encontrou vivalma para tomar informações.

Na verdade, quando se passa tanto tempo na expectativa de uma caminhada tranquila, a mente imagina tantas situações possíveis que, ao iniciá-la de fato, a gente fica convencido de que o roteiro não oferecerá surpresas.

Mas elas sempre ocorrem.


A cidade de Banduje, no pé do morro. O Caminho passa por lá, depois segue à esquerda, por rodovia.

Bem, desde que iniciara o CPI, havia sido alertado pelo meu amigo Aurélio de que, caso me perdesse, deveria acessar a N2 e prosseguir em seu leito, pois ela transcorre por todas as localidades onde eu pernoitaria em minhas jornadas.

Abaixo de mim havia um vale, pleno de vinhas, e a rodovia passava do outro lado, sobre um outeiro.

Sem alternativa, descendi, atravessei o parreiral, e ascendi pelo lado oposto, acabando por sair diante de uma casa, onde havia um portão.

Ultrapassado este, acessei a rodovia N2, e prossegui adiante pelo seu acostamento, agora em franco descenso.


Reencontro com as flechas, numa rodovia vicinal que nascia na N2.

Depois de aproximadamente uns quatro quilômetros, numa curva, onde nascia uma rodovia vicinal à esquerda, que se dirigia a localidade de Veiga Concieiro, surpreendentemente, me reencontrei com as setas amarelas.

Ou seja, o roteiro descende integralmente por aquele caminho onde eu me encontrava no morro, atravessa o rio mais abaixo, e retorna do outro lado, em sentido contrário, pela rodovia N2, onde eu me encontrava.

Porquanto, no momento em que escrevo essas reminiscências, acessando o site do CPI, percebo que deixei de conhecer locais interessantes e agrestes, por culpa da má sinalização nesse trecho.

Porque lá está assim descrito (sic):

FLORESTA DE SARNADELO A BANDUGE - “Ao percorrermos os caminhos de Santiago no Concelho de Santa Marta de Penaguião, deparamo-nos com paisagens deslumbrantes e diversificadas. Como é exemplo o Caminho dos Torneiros, no sentido Sarnadelo – Banduje, na Freguesia de Sever, o qual nos permite desfrutar de um belíssimo trilho de floresta, com predominância de folhosas. Um percurso idílico, propício à introspeção e à reflexão, sob um cenário originalmente belo e natural, onde a vegetação esconde o mundo urbanizado e nos transporta para tempos remotos. Ao longo deste caminho temos também a oportunidade de admirar os belos socalcos de vinhas, que vão ao encontro do leito do Rio Aguilhão. Este caminho é uma mostra clara das belíssimas paisagens que o Concelho de Santa Marta de Penaguião dispõe.”

Bem, eu não poderia adivinhar que deveria seguir em frente no momento que resolvi retroagir, afinal, entendo que o único e o mais importante conforto que o peregrino necessita é, sem dúvida, uma boa sinalização.

Que, por sinal, estava perfeita até aquele fatídico local.


Caminho em duríssimo ascenso em direção à Veiga.

Prosseguindo, adentrei à esquerda e enfrentei um duríssimo ascenso, sempre por piso asfáltico.


Forte descenso em direção ao rio Corgo.

Finalmente, depois de muito esforço e suor, consegui aportar ao alto do morro, mas não adentrei na povoação, pois as flechas me encaminharam para uma estrada em terra, situada entre muros de arrimo e cercas, em forte descenso.


Desse ponto em diante a sinalização se mostrou deficiente.

E logo a sinalização cessou, mas o roteiro é algo lógico e segui adiante.

Quando cheguei ao fim do morro, junto a um riacho, encontrei uma ponte e já do outro lado, encontrei uma tímida marcação, me informando que eu deveria prosseguir à esquerda, retornando por um trilho estreito e matoso, localizado nas faldas da montanha.


Ultrapassando o rio Corgo por uma ponte.

Por ele segui com muito cuidado, pois um ofídio ou simples escorregão poderiam interromper em definitivo minha peregrinação.

O uso do cajado de forma mais ostensiva, também se fez necessário, para evitar alguma flexão exagerada, de forma que eu era obrigado a olhar quase fixamente para o solo a cada passada.

E, a todo instante, precisava ver onde eu colocaria meus pés, pois o ato de levantar a cabeça para vislumbrar as distâncias, não me permitia dar um suspiro mais profundo, ou tomar um simples gole de água, e nem sequer fazer uma parada para descanso.


Caminho em terreno matoso e em ascenso.

A trilha seguiu em forte ascenso e, mais acima, passei a caminhar entre parreirais novamente.

Por sorte, uma seta indicava que eu deveria seguir em forte aclive, em direção ao topo do morro.


Caminho em franco ascenso em direção à Bertelo

Quando ali cheguei, extremamente extenuado, também não encontrei sinalização, mas a lógica insinuava que eu seguisse à esquerda, em direção à povoação de Bertelo, como eu fiz.

Sobre esse trecho específico, assim se expressa o site do CPI:

TROÇO ENVOLVENTE DO RIO AGUILHÃO - “Num percurso caracterizado pelo relevo montanhoso, as recorrentes subidas e descidas não permitem ao caminheiro entregar-se à monotonia do seu passo. A descida e subida entre muros de xisto que envolvem e dão vida aos socalcos do Douro, e que nos guiam à passagem sobre o Rio Aguilhão, é um cenário que nos adorna o espírito com mensagens de paz e tranquilidade. O trilho de Concieiro – Covelo, caracterizado pela descida, passagem do Rio e subida muito íngreme, é a prova viva do esplendor e dos desafios orográficos desta Região Demarcada, que nos torna pequenos perante tal enormidade natural, servida a todos os caminheiros que se aventurem a percorrer os Caminhos de Santiago no Município de Santa Marta de Penaguião”.


Transitando por Bertelo, onde também não vi flecha nenhuma.

Atravessei a pequena aldeia de Bertelo sem avistar nenhuma pessoa ou comércio, embora o site do CPI informe que neste local existe um albergue de peregrinos.


Placa explicativa.

Também não vi nenhuma flecha amarela nesse trecho, mas prossegui em ascensão por uma rodovia vicinal, porque sabia que mais acima, encontraria a N2.


A placa diz que há um albergue em Bertelo, mas não o avistei.

Quando nela desaguei, finalmente, encontrei um banco e nele fiz uma pausa para hidratação.


No topo do moro, reencontro com o rodovia N2.

Aproveitando a ocasião, reli as instruções recebidas do amigo Aurélio, a serem observadas quando aportasse nesse local:

Atenção ao cruzamento com a EN2, após Bertelo, porque se tem de efetuar um desvio à direita (descendo a EN2, poucos metros e que não estava bem sinalizado; a seta encontra-se no muro no cruzamento). Para a esquerda e a subir pela EN2, vai-se ter a Vila Real (foi o que eu fiz, é bem mais suave do que o caminho marcado), não passando por Relvas, dizem que tem das paisagens mais bonitas do Douro (só que tem de subir e descer).

Eu que não vi a seta e segui pela EN2, caminho muito mais fácil sem descidas e subidas íngremes, mas dizem que a passagem por Relvas é muito bela. Conforme a coragem siga pelas setas ou vá pela EN2”.


O caminho prossegue do outro lado da rodovia, em franco ascenso, em direção à Relvas.

Na verdade, depois de vencer as quatro primeiras jornadas sem ter problemas com sinalização, eu estava me sentindo um tanto vulnerável e decepcionado nessa.

Ademais, enfrentara um descenso escorregadio e perigoso, bem como percorrera um trecho matoso do outro lado do rio, que me deixara bastante preocupado com a segurança.

Afinal, eu caminhava sozinho e se algo me ocorresse, a quem eu pediria ajuda?


Paisagem que se descortinava desde a rodovia.

Pelo que observei, meu celular estava sem sinal, então, em caso de emergência, como faria para me comunicar com alguém?

Acresça-se que eu não tinha como saber se o outro trecho estava ou não bem sinalizado.

E se me perdesse, como faria para me localizar?

Teria que novamente correr em direção à N2?

Então, porque não seguir por ela em definitivo?


Um vale profundo. Foto feita desde a N2.

Eu ainda tinha muito chão pela frente até aportar a Santiago e deveria, pensei, primordialmente zelar por meu bem-estar físico.

Porque uma simples queda ou torção, poderia comprometer em definitivo minha aventura.

Diante dessa constatação, inferi que não deveria me arriscar, assim, muito a contragosto, resolvi percorrer o trajeto final pelo acostamento da rodovia.


Foto desde a N2. Os morros aqui são uma constante.

Isto decidido, mochila novamente afivelada, reiniciei minha jornada.

Por sorte, a estrada apresentava inexpressivo trânsito, e pude prosseguir tranquilamente pelo acostamento da rodovia, em sentido inverso ao fluxo de veículos.

Segui sem pressa, observando e fotografando o entorno e os vales que se descortinavam à minha esquerda.



Ainda ascendendo, passei pela vila de Cumeeira, onde vi bares, igreja e comércio.


Paisagem que se descortinava de meu lado direito.

Ultrapassado esse patamar, a estrada seguiu plana e serpeante, revelando belas paisagens pelo meu lado direito, onde avistava um imenso vale.


Quase chegando em Vila Real, as setas amarelas retornaram.

Mais adiante, eu passei sob a Autovia Nacional e, para minha surpresa, duzentos metros depois, as setas amarelas reaparecem, sinal de que o caminho original, que passa pela vila de Relvas, conflui com a rodovia naquele local.

Então, sem maiores intercorrências, segui a sinalização e logo adentrava em zona urbana.


Adentrando em Vila Real, e passando por "colorida" rotatória.

Seguindo as flechas e, quando necessário, indagando aos transeuntes, logo aportei ao hotel Miraneve, onde havia feito reserva.

Ali, por 20 euros, desfrutei de um excelente quarto individual.


Hotel Miraneve, onde me hospedei nesse dia.

Depois do banho e demais providências, fui almoçar no restaurante Lopes, um local bastante concorrido, onde ingeri um supimpa “menú del dia”, por 10 euros.


Praça principal de Via Real.

Vila Real engloba 20 freguesias e, apesar da natureza urbana da sua sede principal, mantém muitas das características rurais.

O território é caracterizado por dois tipos de paisagem: a zona montanhosa, com as serras do Marão e do Alvão, separadas pelo vale da Campeã, e a zona a sul, junto ao Douro, onde as montanhas são marcadas com vinhas tradicionais.

Existem muitos cursos de água pelo território, mas o Rio Corgo é aquele que mais vale a pena salientar; atravessa Vila Real num vale pequeno e estreito, criando um cenário pitoresco único.


Monumento localizado no centro da cidade, em homenagem a Carvalho Araujo.

Esta região, onde Vila Real se eleva a 450 m, mostra vestígios de ter sido habitada desde a era do paleolítico.

Vestígios de povoamentos posteriores, como o Santuário Rupestre de Panoias, revelam a presença romana, porém com as invasões bárbaras e muçulmanas, verifica-se um despovoamento gradual.

O primeiro foral medieval foi concedido por D. Henrique em 1096, mas foi só em 1289, que D. Dinis fundou oficialmente a cidade de “Vila Real de Panoias”, que mais tarde se tornou a atual Vila Real.

É a cidade natal de Diogo Cão, o primeiro explorador a chegar ao rio Congo, e de Antônio da Silveira Pinto da Fonseca (conhecido como Conde de Amarante), membro influente do Exército português, que liderou várias revoluções contra os Liberais.


Uma das ruas centrais dessa simpática Vila.

Muitos aristocratas construíram grandes palácios na cidade durante os séculos XVI e XVII, que granjeou à cidade o seu nome “Vila Real”.

A sua importância nos séculos XVII e XVIII era tão vasta, que era vista como o centro real da província de Trás-os-Montes.

Hoje em dia, vários brasões antigos em muitas casas são testemunho desse período auspicioso em sua história.

Mais tarde a cidade obteve o título de capital da província e, na primeira metade do século XX, dois atos reforçaram o estatuto da cidade: a elevação de Vila Real a “Cidade”, em 1925, e a instituição diocesana, em 1922.

Conta atualmente com 52 mil habitantes.


Seta já indicando o percurso do dia seguinte.

Mais tarde, após necessário e merecido descanso, dei um grande giro pela povoação, além de observar atentamente por onde eu deixaria a cidade na manhã seguinte.

O clima estava frio, o sol tinha ido embora e o céu se mostrava plúmbeo, com ameaça de chuvas para aquela noite.


A igreja Sé de Vila Real.

Primeiramente, visitei a igreja de São Domingos, a Sé de Vila Real, que foi erigida no século XV, a mando dos religiosos de São Domingos, de Guimarães.


Imagens de São Francisco e São Domingos.

Na sua fachada podem ver-se imagens de São Domingos, e São Francisco de Assis.


Igreja dos Clérigos.

Depois, segui até a Capela Nova ou Igreja dos Clérigos, situada em pleno coração da cidade.

Edificada pela Irmandade de São Paulo, em 1639, a sua traça é atribuída a Nicolau Nasoni, e revela marcas típicas do barroco: exteriormente, frontaria trabalhada, com majestosas colunas de cada lado do pórtico, frontão contra curvado com elementos dinâmicos, encimado pela estátua de São Pedro segurando a cruz papal, ladeado por dois anjos.


Igreja de São Pedro.

Posteriormente, fui visitar a igreja de São Pedro, um dos melhores exemplos religiosos do estilo barroco em Vila Real.

Ao edifício original, construído em 1528, foram sendo introduzidas alterações de vária ordem ao longo do tempo, até apresentar a forma que hoje assume.

De entre essas alterações, a maior parte delas feitas no séc. XVIII (daí se assumir de estilo barroco) são de destacar o azulejamento da capela – mor, a introdução de painéis no teto e a construção da fachada.


Belíssimas flores nessa rotatória, localizada próximo a Oficina de Turismo da cidade..

Na sequência, fui até a Oficina de Turismo carimbar minha credencial.


Marco do CPI em Vila Real.

Próximo dali, pude visualizar e fotografar o marco do Caminho Interior de Vila Real, no qual está inserto que restavam 275 quilômetros até Santiago.

Depois, ainda sem pressa, dei um grande giro pelo centro histórico e por bem cuidadas praças, onde as floreiras dão um toque de beleza ímpar ao ambiente.


Difícil saber a melhor opção nesse "cardápio"..

Na sequência, passei num supermercado e, após frugal lanche, me recolhi, pois a jornada sequente, de razoável extensão, prometia muitas emoções.


Em Vila Real existe albergue de peregrinos, localizado na Casa Diocesana.

IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de pequena extensão, toda ela vivenciada em meio a imensos vinhedos, a primeira que me decepcionou em termos de sinalização, me deixando inseguro. Eu viera percorrer esse Caminho visando caminhar junto à natureza, ter contato com as plantações agrícolas, observar a paisagem circundante e fazer parte dela, mas nessa jornada isto não foi possível, o que lamentei profundamente. No geral, seria um trajeto breve em termos métricos, mas com inúmeras variações de altimetria, tornando-o bastante exigente em termos físicos.


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