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11ª etapa – SANTA CRUZ DE LOS SERÓS a ARTIEDA - 35 quilômetros


11ª etapa – SANTA CRUZ DE LOS SERÓS a ARTIEDA - 35 quilômetros


A vida começa onde termina a sua zona de conforto.




Seria outra jornada de grande extensão, mas, praticamente toda plana, mormente, a partir da cidade de Santa Cília de Jaca.

Porém, havia um complicador: estávamos num domingo e havia promessa de chuva depois das 12 horas.

Assim, como forma de agilizar meu trânsito nesse dia, levantei às 4 h 30 min e às 6 h, sob um frio terrível, dei início a minha jornada.


Pronto para partir...

Para tanto, utilizei a rodovia que descende em direção à Santa Cília e, 500 metros abaixo, observando atentamente a sinalização, adentrei à esquerda, numa estrada de terra nominada “Caminho de Santa Cruz”.

Tudo ainda estava escuro, porém segui com a lanterna de mão ligada e não encontrei problemas quanto ao rumo a seguir.

Face à chuva da noite anterior, em muitos trechos encontrei barro e poças de lama no caminho.

No início, eu ascendi de forma gradual, depois, passei a descender ininterruptamente.

E sem maiores problemas, 4 quilômetros percorridos, passei pela pequena vila de Binácua, onde residem 40 habitantes.


Igrejinha de Binácua.

Na parte baixa do núcleo urbano, pude fotografar a bonita igreja dos Santos Anjos, cuja origem é românica (século XII), porém seu aspecto atual provém de uma importante reforma realizada no século XVI.

Na sequência, utilizando uma rodovia vicinal asfaltada, prossegui em forte descenso até confluir, já no plano, com o Caminho de Santiago Aragonês, que tem seu início no Puerto de Somport, localizado na fronteira com a França, distante dali, aproximadamente, 47 quilômetros.

Segui por mais 500 metros, se tanto, e logo estava diante do acesso para Santa Cília de Jaca.


Fim do Caminho Catalão. Início do Caminho Aragonês.

A cidade, atualmente, com 210 habitantes, foi construída na ampla planície, que bordeja o Canal de Berdun, ao lado do rio Aragón, e oferece boas mostras da arquitetura popular dessa zona, em seu casco antigo.

Ela conta com “tiendas”, padarias e bares, bem como possui um excelente albergue municipal, com 20 camas.

Um diferencial interessante é que nele homens e mulheres dormem em ambientes separados.

Além disso, se permite a permanência de duas noites aos peregrinos que forem visitar o Monastério de San Juan de la Peña.


Entrada para Santa Cília de Jaca.

Eu adentraria à povoação se estivesse com a intenção de ali pernoitar, contudo, mesmo que quisesse apenas visitar esse minúsculo enclave, face ao horário matutino, 7 h 30 min, de um domingo, inferi que encontraria tudo fechado e vazio.

Dessa forma, preferi seguir adiante pelo acostamento da rodovia N-240 e quinhentos metros à frente me enlacei com o roteiro do Caminho de Santiago, que segue por um caminho de terra, paralelo à “carretera”.


O Caminho segue à beira da "carretera".

O dia permanecia sombrio, promessa de chuvas a qualquer momento, por isso, levava minha mochila protegida com sua capa impermeável.

E a minha eu levava às mãos, mas só a vestiria em último caso, pois com ela sobre o corpo, eu transpiro muito.


Trecho plano e belo.

Prossegui tranquilo e solitário, pois desconhecia se existiam outros peregrinos à minha frente ou, quiçá, à minha retaguarda.

No entanto, em todo esse percurso inicial, não avistei ninguém e segui integralmente sozinho, como de praxe ocorrera nas etapas anteriores.


"Torres de pedras", obras de peregrinos..

Num local inóspito, passei por um sítio diferente onde, curiosamente, pude fotografar pequenas torres feitas de pedras, com certeza, obra dos peregrinos que por ali transitaram.

Sem titubear, também empilhei as minhas e deixei ali registrado meu legado a este mágico lugar.


Ponte sobre o rio Aragón.

E depois de percorridos mais 6 quilômetros em bom ritmo, sempre com o rio Aragón fluindo do meu lado direito, cheguei junto à ponte que dá acesso à cidade de Puente de La Reina de Jaca.

Nessa povoação existe hostais, restaurantes e bares, um excelente apoio logístico se eu estivesse desabastecido, o que não era o caso.


Ponte que dá acesso à cidade de Puente de la Reina de Jaca.

Por isso, após algumas fotos, prossegui em frente.

Na sequência caminhei sobre asfalto e, logo adiante, numa bifurcação, obedecendo a sinalização, prossegui à direita.

Na verdade, a estrada continua à esquerda, na direção de Huesca, e o caminho prossegue por uma estrada secundária, asfaltada, situada entre extensos trigais.


Início da trilha para Arrés.

Dois quilômetros percorridos, passei diante da entrada para uma trilha que segue em direção à cidade de Arrés, localizada a 1.500 m daquele local, onde há um excelente albergue de peregrinos.

Como pernoitaria em Artieda, eu prossegui em frente, ainda sobre uma rodovia vicinal asfalta, sem avistar ninguém e, confesso, me sentia feliz por estar solitário na trilha, embora soubesse que tal situação tinha prazo certo para terminar.

Assim, mais adiante, depois de mais 4 quilômetros percorridos em asfalto, finalmente, adentrei em terra e meus pés agradeceram.


Início da estrada de terra. Meus pés agradeceram.

Numa granja, mais adiante, utilizando um mourão fincado à frente, sob céu escuro e clima frio, acionei o temporizador e posei para fotos, como forma de eternizar o momento mágico que ali vivia.


Ainda solitário na trilha. Hora de comemorar!

Então, fiz uma curva à direita, depois outra à esquerda, e adentrei em outra estrada, integralmente retilínea.


Trajeto solitário e fresco.

Dali, pude avistar, ao longe, ao menos 8 peregrinos caminhando à minha frente que, certamente, haviam pernoitado em Arrés, como mais tarde confirmei.


Caminho retilíneo. Ao longe, alguns peregrinos marcham à minha frente.

Prosseguindo, mais adiante, uma bifurcação situada à esquerda segue para o povoado de Martes, mas o caminho prossegue à direita e está muito bem sinalizado.

Daquele local podia visualizar o povoado de Berdun, situado à direita do roteiro, no alto de um morro, e a bela paisagem que o circunda.

Mais adiante, duas senhoras fizeram uma pausa para desvestir o grosso casaco que usavam e ao cumprimentá-las, soube que eram espanholas.

O caminho é todo plano nesse intermeio e, lentamente, caminhando em ritmo uniforme, logo ultrapassei mais 4 peregrinos que haviam parado para lanchar.


Caminho plano, com amplas vistas...

Eram jovens, portavam mochilas pequenas e parei para conversar com todos.

Contaram-me que não iriam até Santiago, na verdade, como o dia seguinte, uma segunda-feira, era 1º de maio, feriado também na Espanha, na manhã sequente caminhariam somente até Sanguesa, depois tomariam um trem e retornariam para casa.


Alguns peregrinos marcham à minha dianteira, mas logo os alcancei.

Estavam apenas aproveitando o final de semana prolongado para espairecer e conhecer lugares diferentes.

Assim, no dia anterior haviam partido de Jaca e pernoitado em Arrés.

Naquele dia, seguiriam até Ruesta, onde existe outro excelente albergue de peregrinos.


Estrada deserta, tempo se fechando no horizonte.

Seguindo adiante, novamente solitário, pude rememorar meu périplo nesse roteiro, em 2004, quando por aqui passei, mas, àquela época, minhas preocupações eram diferentes.

Na verdade, eu ainda trabalhava, meus filhos cursavam o derradeiro ano de Faculdade, eram solteiros e minha inquietude devia-se ao fato de que em breve eles adentrariam no mercado de trabalho.

Teriam sucesso em suas carreiras, me perguntava.

Transcorridos 13 anos, meus filhos já se casaram há 10 anos, eu me aposentei e sou avô de 4 meninas.

Cada um está feliz na profissão que escolheu e segue trabalhando com afinco para criar seus rebentos.

Enfim, tudo deu certo e agradeço a Deus por tão felizes acontecimentos, que acabaram por me trazer aqui novamente.

A lamentar, apenas, que em 2004, meus pais eram vivos, contudo, já partiram para a eternidade: mamãe em 2009, e papai em 2015.


Ponte sobre um riacho. Em 2004 ela ainda não existia.

Sem quase sentir o tempo passar, por duas pontes de madeiras, ultrapassei dois riachos e, mais à frente, encontrei uma bifurcação, porém, ambas se unem novamente mais adiante.


Descendendo em direção a um verde bosque.

A da esquerda passa pelo povoado de Mianos, assim, prossegui reto em frente.

Quase no final da jornada, caminhei algum tempo pelo interior de um verdejante bosque, numa paisagem cinematográfica.


Trecho surreal, pena que de pequena extensão.

Ao emergir das sombras, já no alto de um morro, pude avistar o pequeno povoado de Artieda, encarapitado no cimo de um outeiro, minha meta para aquele dia.

Então, pouco adiante, acessei uma rodovia asfaltada, depois segui à esquerda, em forte ascenso.


Ao longe, no cimo do morro, a cidade de Artieda.

E logo aportava ao albergue de peregrinos, onde paguei 10 Euros para dormir, num quarto onde havia 2 beliches.

Eu era o primeiro a chegar e pude tomar banho tranquilamente, escolher minha cama e distribuir meu pertences sobre a única cadeira ali existente.

Mais tarde chegaram 1 espanhol, o James, e um francês.

Assim, à noite acabamos dormindo em 3 homens naquele ambiente.

No quarto ao lado pernoitaram duas senhoras italianas, Augustina e Marta, mãe e filha.

Enquanto me preparava para lavar roupas, começou a chover e resolvi abortar tal operação, deixando-as para o pernoite sequente, em Sanguesa.

Mais tarde, após as 13 horas, desci para almoçar e foi a hospitaleira, a simpática Sra. Conchi, que me serviu uma excelente refeição, pela qual despendi 10 Euros.


Placa explicativa.

Artieda está situada no alto de uma colina, no vale do rio Aragón, na subcomarca do Canal de Berdún, junto ao embalse de Yesa, e dista 40 quilômetros de Jaca.

Fundada no meio do caminho entre a história romana e a medieval, ela se constituiu em vila em 1276, para converter-se em distrito de Jaca em 1387.


Uma rua de Artieda. Todas as casas são de pedras.

O clina na zona onde ela está situada é típico do mediterrâneo continental seco, com a particularidade das montanhas, onde as pessoas nascidas próximas das serras dos perineus suportam baixas temperaturas (até -30 °C em alguma ocasião), nos seus longos invernos.

População atual: 79 pessoas.

Depois de um bom descanso, fui dar um breve giro pela simpática cidadezinha, embora estivesse garoando.


Ao longe, o fantástico Embalse de Yesa.

De um mirante, pude avistar e fotografar, ao longe, o magnífico Embalse de Yesa, que é fruto de represamento do rio Aragón.

Aliás, uma das atrações desse povoado é ver o sol se por sobre esse Embalse à tardezinha, evento descartável nesse dia, em face do mau tempo reinante.

Pude, ainda, fotografar a igreja de San Martin, mas não visitá-la, posto que se encontrava fechada, embora estivéssemos num domingo.


Igreja matriz de Artieda.

À noite, os 5 peregrinos hospedados no albergue jantaram no bar, utilizando uma mesa comunitária preparada e servida por nossa hospitaleira Conchi.

Mas, encerrada a refeição, logo me recolhi, pois partiria cedo na manhã sequente.

Porém, o restante do pessoal permaneceu conversando e ingerindo copos de vinho, posto que caminhariam apenas 22 quilômetros e pernoitariam no povoado de Undués de Lerda. 


Um brinde à vida e ao Caminho!

CONCLUSÃO PESSOAL: Uma etapa de razoável extensão que, praticamente, não reserva dificuldades altimétricas em seu percurso ao peregrino extenuado pela longa jornada, a não ser no final, quando é necessário enfrentar um difícil ascenso, para chegar a Artieda. De se ressaltar que o caminho discorre por locais ermos e desabitados, sempre ladeado por imensas culturas agrícolas. Foi nesse tramo também, que reencontrei peregrinos à profusão. No geral, uma caminhada tranquila, sob céu nublado, temperatura média 12°C, plena de boas rememorações, a partir de Santa Cília de Jaca, já no Caminho Aragonês, por onde transitei em 2004, também escoteiro como agora.