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12ª etapa – ARTIEDA a SANGUESA - 33 quilômetros


12ª etapa – ARTIEDA a SANGUESA - 33 quilômetros


Acreditar que algo pode acontecer é o primeiro passo para algo ser realizado.




A noite foi terrificante, pois quase não consegui “pregar o olho”.

Meus parceiros de quarto chegaram mais tarde e encheram o ambiente de roncos ensurdecedores.

Eu acordei à meia-noite, coloquei tampões nos ouvidos, porém, debalde toda a concentração, foi impossível conciliar o sono novamente, tamanho o fragor do som ambiente.

Desesperado, fui até a sala de recepção, onde havia um sofá, mas nele não consegui me ajeitar.

Além do mais, havia uma grande fresta na parte inferior da porta do albergue, por onde adentrava um ar frigíssimo, por conta da baixíssima temperatura exterior, algo em torno de zero graus.

Voltei para a minha cama, me cobri, coloquei fones nos ouvidos, liguei meu radinho de pilhas, e ainda assim vivi uma madrugada de vigília.

Dessa forma, as horas passaram lentamente e, ainda insone, me pus em pé, novamente, às 4 horas.

Decidido a partir o quanto antes, fiz alongamentos, ingeri uma barra de chocolate e chequei detalhadamente meus pertences, pois a luz interior era sofrível e o risco de esquecer algo era grande.


Deixando o albergue às 6 h, sob baixíssima temperatura.

Tudo resolvido, sob as bençãos divinas, deixei o alberque às 6 horas, temperatura exterior 1ºC, sob intensa névoa.

Com a lanterna ligada, porque tudo persistia extremamente escuro, descendi por uma rodovia deserta até que, próximo de um galpão de telhado verde, obedecendo a sinalização, segui à esquerda, e me enlacei novamente com o Caminho que provinha de Arrés.

Quinhentos metros adiante, acessei uma rodovia vicinal asfaltada e segui por ela um bom tempo, enquanto, lentamente, o dia clareava.


Início de uma trilha pedregosa e em ascenso.

Uma hora depois, cinco quilômetros percorridos, eu acessei uma trilha pedregosa em ascenso, e depois de ultrapassar outra rodovia vicinal, me internei num bosque mágico.

Eu já conhecia o trajeto, pois transitara nele em 2004, mas, àquela época, o percurso não tão estava tão bem sinalizado como agora.

Por conta das chuvas recentes, encontrei bastante umidade e barro em alguns trechos.


Travessia de um bosque fantástico e muito bem sinalizado.

Afora isto, foi um caminho tranquilo, relaxante e pleno de bons momentos.

Integralmente solitário na trilha, tive tempo para orar, curtir o entorno e respirar o ar puríssimo que a mata me oferecia, gratuitamente.

O local é tão ermo e místico, que se um cavaleiro medieval, com armadura e cavalo, surgisse à minha frente, eu não me surpreenderia.

Aliás, em determinados locais, mais parecia que eu estava dentro do túnel do tempo, de volta ao passado, tamanha a solidão que vivenciei nesse mágico intermeio.


O Embalse, à minha direita.

Tudo isto era pura suposição onírica, porque em alguns locais, onde a mata era mais aberta, podia avistar a estrada asfaltada que seguia paralela, do meu lado esquerdo, distante uns 100 metros, se tanto.

Mais à frente, também caminhei muito próximo do Embalse de Yesa.

Quase no final da jornada, passei ao lado da secular Ermita de San Juan Bautista, depois fleti, bruscamente, à esquerda.


Chegando em Ruesta.

Quinhentos metros depois, acessei uma rodovia asfaltada e, foi por ela que adentrei em Ruesta.

A minúscula povoação ainda dormitava, vez que não encontrei vivalma em toda a extensão da vila.

Passei diante do imenso e confortável albergue ali existente, que disponibiliza 62 camas aos peregrinos, e também não ouvi som algum. 


Placa explicativa.

No bar ao lado, tudo silencioso também, muito estranho.

Na antiguidade, os peregrinos subiam até essa povoação-fortaleza, de grande importância no reino de Aragón, em busca do cobiçado “Priorato de Santiago de Ruesta”.

No entanto, nada resta das mais de 100 casas habitadas e dos dois castelos que existiam na localidade, no século XIX, vez que em 1959, a construção do Embalse de Yesa obrigou os moradores a abandonar esse povoado, porque suas plantações foram submergidas pelas águas da represa.


Antiga igreja matriz da cidade; hoje em ruínas.

Atualmente, dentro de um programa de recuperação de povoados abandonados, envidado pelo governo espanhol, vivem ali algumas famílias que, juntas, não somam 12 pessoas.

Eu segui as flechas, descendi por locais lisos e embarrados, passei próximo de um camping e, mais adiante, defronte à solitária igreja de Santiago, no momento, praticamente em ruínas.

Ainda ascendendo, mais acima, adentrei em larga e silenciosa estrada de terra, que seguiu plana, em meio a mata nativa, por um bom tempo.


Dois peregrinos marcham a minha frente...

Porém, mais tarde, avistei 2 peregrinos caminhando à minha frente, num ritmo bastante comedido e logo os ultrapassei.

Ao responderem a minha saudação de “Bom Caminho”, inferi, pelo sotaque, que eram alemães.


Caminhando em direção à frondente bosque de pinheiros.

O caminho seguiu levemente ascendente por um bom tempo, mas em determinado local, meu rumo fletiu, bruscamente, para a esquerda, em direção a um bosque de pinheiros.

A partir de certo patamar principiei a subir com força, sempre em meio a estupendos pinheiros, uma constante nessa etapa.

Na verdade, eu estava escalando a serra de Peña Musera que, em seu ponto de maior altimetria, chega a quase 1.000 metros de altitude.

O ascenso, embora não seja brusco, é infinito, porquanto, quando se imagina que a ascendência encerrou, ela recomeça, interminável.


O Embalse de Yesa à minha direita.

Para consolar esse caminhante, do lado direito, eu detinha uma maravilhosa visão das águas do Embalse e, quanto mais eu ascendia, mais bonita a paisagem se mostrava, com ar puro e fresco a me envolver na caminhada.

Foram 5 quilômetros em ascensão ininterrupta, mas só parei para descansar quando atingi o topo da montanha.


Ascenso sem fim...

Nesse percurso todo não avistei ninguém e também nenhum som me perturbou, apenas o perpétuo gorjeio dos pássaros fez eco em meus ouvidos.

No cume da montanha, enquanto me hidratava e ingeria uma banana, podia sentir a brisa forte e constante a varrer todo o ambiente.

O trajeto sequente se mostrou plano e arejado, com amplas vistas do imenso horizonte que se descortinava ao meu redor.


Finalmente, no topo do morro.

Foram dois quilômetros percorridos pelo cimo da montanha, depois, bruscamente, principiei a descender.

Muito longe e abaixo, já podia vislumbrar povoações por onde passaria em sequência.


Descendendo, com amplas vistas do horizonte.

Porém, tudo estava distante e eu demoraria muito tempo para ali aportar.

Em determinado patamar, fiz uma pausa e, calmamente, prescrutei a estrada sequente e serpeante, abaixo e, constatei, decepcionado, que nela nada se movimentava.


Ao longe e abaixo, a cidade de Undués de Lerda.

Qual seja, nenhum peregrino caminhava à minha frente, e eu prosseguiria escoteiro, como de hábito.

O descenso foi brusco e perigoso em determinados trechos, mas minhas pernas estavam fortes e eu hábil em contornar as armadinhas da trilha.


Um trecho da "calzada romana".

Dessa forma, mais abaixo, ultrapassei uma rodovia e prossegui pela famosa “calzada romana” que, como já afirmou um experiente peregrino, ela apresenta pedras tão desalinhadas e disformes que dá vontade de mandar encarcerar o engenheiro que gerenciou tão malfadada obra.

Após brusco descenso, por uma ponte, ultrapassei um riacho e, na sequência, enfrentei íngreme e difícil ascenso, até aportar a Undués de Lerda, outro minúsculo povoado, onde residem 58 pessoas.

As casas de pedra dão tom ao povoado onde, aparentemente, faz muito frio no inverno.


Transitando pela pequena vila de Undués de Lerda.

Coisa rara, vi 5 pessoas reunidas numa praça, todas muito bem agasalhadas e acompanhadas por 3 cães de caça.

Segundo o guia que eu portava, ali existe um excelente albergue, que disponibiliza 28 camas aos peregrinos.

O único bar existente na povoação, no entanto, face ao horário matutino, estava fechado.

Dessa forma, fiz algumas fotos do local, cumprimentei dois senhores que conversavam no portão, depois segui meu caminho.


Descendendo por uma acidentada trilha.

Então, por uma trilha pedregosa e irregular, passei a descender bruscamente.


Já no plano, caminho arejado.

Quando o caminho ficou plano, junto a uma grande pedra, fiz outra pausa para hidratação e reposição do protetor solar, porque o sol já agredia com vigor, num céu azul e praticamente sem nuvens.


De volta aos trigais.

Prosseguindo, logo adentrei em asfalto e por ele segui uns quinhentos metros, sempre em meio a extensos trigais.

Então, cheguei a um painel indicativo de trilhas, onde há uma bifurcação.

Se eu fosse à direita, em direção a um castelo, o percurso aumentaria em 2 quilômetros.


Início de trecho em asfalto.

Como já passara por ali na vez anterior, resolvi prosseguir à esquerda e logo acessei um caminho asfaltado, plano e retilíneo.

Como forma de me distrair, coloquei os fones no ouvido, liguei meu radinho de pilhas e segui ouvindo música espanhola.


Estrada retilínea e deserta.

E logo adiante, ultrapassei a fronteira e deixei a Província de Aragón para adentrar na Navarra.

Uma grande serra me seguia paralela pelo meu lado direito, mas não consegui descobrir seu nome.


Céu azul, sol forte e silêncio no entorno.

Caminhei integralmente sozinho por locais amplos e arejados e não fui ultrapassado e nem avistei vivalma nesse trecho.

Sem grandes dificuldades, fui avançando num ritmo uniforme e quase não senti o tempo passar.


Seguindo em frente.. sempre!

Quando dei por mim, já estava adentrando em zona urbana.

Cruzei toda a cidade de Sanguesa e, mais abaixo, ultrapassei o rio Aragón por uma grande ponte.

Do outro lado, localizei o Hostal JF, onde me hospedei nesse dia.

Ali, por 25 Euros, foi-me disponibilizado um excelente quarto individual.


Início da área urbana de Sanguesa.

Depois do banho e a competente lavagem de minhas roupas, retornei ao centro histórico para almoçar no restaurante Sanguesa, onde paguei 15 Euros por um excelente “menú del dia”.

Mais tarde, depois de retornar ao local de pernoite, deitei para descansar.


Uma rua de Sanguesa.

Sanguesa está localizada numa planície, na margem esquerda do rio Aragón, próximo do local em que nele desemboca o rio Ousella.

Primeira povoação da Navarra é uma das mais grandes e plena de serviços no ramal Aragonês.

O município é composto pelos distritos de Rocaforte e Gabarderal, que contam com uma população de 176 habitantes.

Seu primitivo assentamento, conhecido como Sanguesa la Vieja, o rei Sancho Ramírez concedeu por volta do ano 1090 ao município de Jaca e o rei Alfonso, “El Batalhador, no ano de 1122, criou o denominado Burgo Novo, no qual está assentada a atual povoação.

No entanto, seu título de cidade foi concedido em 1665.

Seu nome tem sua origem em Sanctorum Ossa (ossos de santos), que deriva originalmente do latim: Sanctorum Ossa - Sancto Ossa - Sancosa - Sangüesa.

Numa documentação antiga pode se ver seu nome escrito das seguintes formas: Sancosa (siglo XI), Sangosa (1055), Sancuesa (1056) y Sangüesa (1020).

População total: 5.100 habitantes.


Transitando no "casco viejo" da cidade.

Depois de merecido descanso, voltei ao centro da vila para um giro rápido.

Estávamos em 1º de maio, um feriado, e o comércio e os monumentos mais importantes existentes na cidade estavam fechados.

Ainda assim, muita gente se movimentava pelas ruas, a maioria, composta de turistas.


A belíssima igreja matriz de Sanguesa.

Então, pude visitar e fotografar a igreja matriz da cidade, dedicada à Santa Maria la Real, de estilo românico.

Ela foi doada em 1131 pelo rei Alfonso, “El Batalhador, à ordem de São João de Jerusalém.

O que faz este templo famoso é sua grande porta românica, que constitui uma das obras mais interessantes e complexas da arte medieval navarrense.

Porquanto, afora as representações religiosas, há múltiplos relevos de rico simbolismo.


A grande porta românica.

Outros monumentos famosos na cidade são:

- O Convento de São Francisco de Assis, cuja fundação se atribui ao Santo, quando de sua passagem pela Navarra em 1212-1213, para ir a Santiago de Compostela;

- Igreja de Santiago “O Maior”, uma construção do ano 1144;

- Igreja de São Salvador, edifício gótico, edificada no século XIII;

- Convento de Nossa Senhora do Carmo, construído em 1378;

Por sorte, encontrei uma “tienda” aberta e nela pude comprar víveres para o jantar noturno, bem como frutas e chocolate para o café da manhã sequente.

Já no local de pernoite, ingeri singelo lanche, regado a bom vinho tinto riojano.

E logo me recolhi, pois fazia muito frio e eu, como de hábito, pretendia partir bem cedo no dia sequente.


O fabuloso rio Aragón, que banha a cidade.

CONCLUSÃO PESSOAL: Uma etapa de razoável extensão, com um importante ascenso a ser superado a partir do 13º quilômetro. O descenso para Undués de Lerda também é perigoso e precisa ser feito com muita concentração. O restante da etapa foi trilhado por locais ermos, planos e arejados, mas sem sombras. No geral, uma jornada bastante agradável e solitária, mas que exige um bom condicionamento físico do peregrino.