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2º dia: PONTEDEUME à BETANZOS – 21 quilômetros


2º dia: PONTEDEUME à BETANZOS – 21 quilômetros


 É esse o charme do mapa: ele representa o outro lado do horizonte onde tudo é possível”. (Rosita Forbes)


Fonte: gronze.com

Embora a tarde anterior tivesse sido bastante aproveitável, tendo, inclusive, sol, a chuva voltou forte durante a noite e se prolongou madrugada afora.

Eu pretendia sair às 7 horas, mas caía muita água nesse horário, de forma que posterguei minha partida.

Finalmente, às 7 h 30 min, a intempérie amainou, então, eu deixei o local de pernoite devidamente paramentado, com capa de chuva e demais acessórios.

A saída da cidade se faz, primeiramente, pela rua Real, sempre em íngreme ascenso.


Tudo escuro, chuva chegando..

Mais acima, acessei a praça de las Angustias, prosseguindo ainda em brusca ascensão pela rua del Empedrado.

No topo do morro, situado a 180 metros de altitude, pelo que havia lido sobre o assunto no site do Gronze, eu teria uma ampla e inesquecível vista da baía de Pontedeume.

Porém, o clima se mostrava enfarruscado e neblinoso, não permitindo visualizar nada desse magnífico local.

Eu já transpirava bastante, porém uma fina garoa não permitia que eu me livrasse da capa de chuva, que me aquecia demais o corpo.


Local de descanso para os peregrinos.

E logo voltei a caminhar em meio a zona rural, num entorno onde o verde, em suas várias tonalidades, era o tom dominante.

Em uma curva da trilha, topei com um cervo que caminhava em sentido contrário, a uns 30 metros de distância.

Como eu, ele me estacou surpreso, depois tranquilamente embrenhou-se no bosque existente à minha esquerda.


Nesse trecho solitário eu encontrei o cervo.

O encontro foi tão inesperado, que nem me lembrei de fotografar, mas creio que não haveria tempo para tal.

Na sequência, passei por O Barco, Cermuzo, lugares pertencentes a paróquia de São Miguel de Breamo, depois prossegui por Buíña, até o campo de golf de Martinsa-Fadesa.


Caminho agreste, mas já sob garoa.

Eu estava preocupado, pois o céu escurecera ao sudoeste, para onde eu caminhava, e nuvens de chuva apareceram repentinamente no horizonte.

A tempestade se aproximava aos poucos, impelida por curtas rajadas de vento que anunciava um sistema de baixa pressão vindo em espirais em minha direção.


Uma grande rotatória a minha frente...

E repentinamente, a chuva voltou a cair com forte intensidade e, ao ultrapassar, uma rodovia vicinal, situada no rumo de uma grande rotatória, avistei um abrigo de ônibus e, prontamente, para lá me encaminhei.

Enquanto ali estava aguardando a borrasca amainar, vi passar pelo caminho 3 peregrinos portugueses e, logo depois, a Catarina.


Nesse trecho, 4 peregrinos portugueses seguem a minha frente.

Assim, acompanhado à minha frente, segui adiante porém, 200 metros depois de ultrapassarmos a autovia nacional por um extenso pontilhão metálico, a chuva voltou em forma de pancadas, obrigando-me a envolver em capa plástica e guardar a câmera fotográfica.

E, por conta do mau tempo perdi boas lembranças, pois o caminho nesse trecho é maravilhoso.


O caminho é lindo nesse trecho, mas sob garoa nesse  dia.

Assim, a ritmo lento, com muita atenção no piso molhado e liso, passei por Viadeiro e Outeiro, lugares da paróquia de Santa Maria de Castro.

Depois de percorrer aproximadamente 8 quilômetros, ultrapassei o rio Baxoi, por uma ponte do século XIV, que foi restaurada por ordem de Fernán Pérez de Andrade, O Bom.

Próximo dali existe uma área de descanso para os peregrinos.


Muito barro no caminho.

Um lugar para repousar alguns minutos, contemplando o esplêndido ambiente.

Mas, como fazer isso debaixo da chuva que abatia sem clemência?

Por sinal, nesse místico lugar, existe um “mojón” informando que restam 80.563 metros até Santiago.


Caminho solitário e silencioso, ainda sob garoa.

Nas proximidades de A Prata, trilhei um aprazível caminho, localizado próximo de rumoroso riacho, com uma cobertura natural feita de ervas e fetos.

Até que, descendendo, por um viaduto, ultrapassei a Autovia AP-9.

E, ao deixar o túnel, adentrei à cidade de Miño, localizada defronte ao mar, na Ría de Betanzos.

A chuva não dava trégua, mas resolvi não parar em nenhum bar, porque não tinha fome e nem sede, de forma que prossegui adiante, para não desaquecer meus músculos, pois por baixo da capa, eu estava integralmente molhado de suor.

Neste local eu me encontrava, precisamente, no meio da etapa desse dia.


A cidade de Miño. Créditos: Internet.

Miño é uma cidade costeira, situada na Ría de Betanzos, contando atualmente com 5.800 habitantes.

Seu município é cortado por três rios: Lambre, Baxoi e Xarío.

Tem um grande atrativo turístico devido a presença de 4 praias: Grande, Ribeira, Alamade e Perbes, que ostentam a Bandeira Azul, outorgada por uma organização privada, como reconhecimento pela qualidade de suas águas, equipamentos, acessos, etc..


Uma das praias de Miño. Créditos: internet.

A Praia Grande, com mais de um quilômetro de extensão, é um dos centros turísticos de verão mais importantes das Rías Altas.

Possuí, também, um excelente albergue, onde são disponibilizadas 20 camas aos peregrinos, além de outras comodidades.

Prosseguindo, mais adiante, após transpor a linha férrea por uma grande passarela, segui por uma estrada vicinal asfaltada.


Pausa debaixo do viaduto, sob a autovia nacional, aguardando a chuva passar.

Quase no final do núcleo urbano, passei sob a autovia nacional e, aproveitando o espaço seco existente, fiz uma pausa para me hidratar e ingerir uma banana, porque ali estava protegido da chuva que caía sem cessar.

O tempo estava escuro à minha frente, e nuvens carregadas prometiam muita água para breve.

A tempestade se formavam ao sul, onde relâmpagos mostravam seus clarões e trovões ribombavam, enquanto o vento aumentava.

Tenso e preocupado, permaneci no local por mais de 15 minutos aguardando o desenlace, mas o frio começou a me incomodar e resolvi prosseguir adiante.

Uns 1.000 metros percorridos, desabou um violento temporal e, apavorado, sem ter onde me esconder, pois estava no meio de um local deserto, avistei um enorme espaço verde, com um parque infantil em seu centro.

Apavorado, corri para lá e me agachei debaixo do escorregador, ficando numa posição desconfortável, até ridícula, mas que me salvou de me encharcar integralmente.


Piso molhado, fruto da chuva recente.

Dez minutos depois a tormenta cessou e, com as pernas quase dormentes, pude prosseguir adiante.

O tramo final foi feito quase sempre por asfalto, alternando zona rural com pequenas aldeias.

Assim, em sequência, passei por O Paço, onde visualizei a igreja de São Pantaleão das Viñas, que possui a fachada em estilo românico.


Muita umidade no entorno, mas a chuva já havia passado.

Na sequência, transitei bom tempo por caminhos de terra e bosques de eucaliptos onde existia muita umidade no piso.

Depois segui para Trasmil e Os Barreiros, minúsculas vilas que fazem divisa com os lugares de Porto de Abaixo e A Penoubiña, pertencentes às paróquias de Santa Maria do Souto e Chantada.


Chegando à aldeia de Gas.

A partir daí começou um carrossel de sobe e desce pelas aldeias de Vila de Meus e Gas.

Depois, A Rua e Sn an Paio, esses últimos já pertencentes ao Concelho de Betanzos.


Abaixo e ao longe, o rio Mondeo.

Daquele local, pude avistar a imensa planura do rio Mondeo, situado à direita do caminho, que verte suas águas na Ría de Ares.

Logo acima, no topo de um morro, passei diante da famosa igreja de São Martinho de Tiobre, um raro exemplar de edificação românica, consagrado, no século XII, pelo célebre arcebispo Diego Gelmírez (ou Xelmírez, em galego).

Esse templo, segundo reza a história, foi erigido no ponto mais alto do antigo castro de Tiobre e, segundo parece, o primitivo núcleo de Betanzos teria sido neste local.


Primeira visão da cidade de Betanzos, desde o topo do morro.

Prosseguindo, desci para O Barral e, na sequência, pela inclinadíssima encosta do Sabugueiro, que fiz com muito cuidado, sob pena de levar um violento tombo.


O belíssimo rio Mondeo, que banha a cidade.

Logo entrava na zona urbana onde, mais abaixo, passei pela Ponte Vella, localizada sobre o rio Mondeo, um dos cursos d'água que banha este antigo e histórico núcleo urbano.


Ponte Vella sobre o rio Mondeo.

E, mais adiante, pela famosa Porta da Ponte Vella, adentrei no núcleo do Centro Histórico de Betanzos, uma belíssima cidade que, inclusive, em tempos de antanho, foi capital da Galícia.

Depois de ascender pela rua de Prateiros, aportei à emblemática praça dos Irmãos Garcia Naveira.


Chegando à praça do Campo.

Ali tomei informações com um simpático senhor e logo encontrei o Hotel Garelos, de excelente qualidade, mas onde despendi o maior valor por um quarto individual, durante toda a minha peregrinação.

Na verdade, eu buscava a Pensão Cheino ou a Pensão Universal, contudo meu informante garantiu que ambas haviam fechado, de maneira que, como chovia e eu estava preocupado em não apanhar uma gripe, acreditei em sua palavra e não fui checar o assunto.


Ainda na imensa praça do Campo, o centro nevrálgico de Betanzos.

Posteriormente, caminhando pela urbe, verifiquei que, ao menos a Pensão Universal, prossegue ativa e funcionando normalmente.

Bem, eu estava integralmente molhado, fruto da intempérie vivenciada no caminho, mas pude lavar minhas roupas com a certeza de que estariam secas no dia seguinte, pois o atencioso porteiro do hotel logo ligou a calefação existente em meu quarto.

Assim, depois do reconfortante banho, fui almoçar no Mesón Ponte, onde degustei um “menú del dia” especial, por 10 euros.


Ainda a praça do Campo, de outro ângulo.

Ainda que existam indícios de assentamentos primitivos na zona, há que esperar até a época romana para documentar-se a existência da cidade de Betanzos, um assentamento castrejo com o nome de Castro de Untia.

No ano de 1219, após pedido ao Rei Afonso IX, a povoação de Betanzos mudou-se de Betanzos o Vello, localizado no falado local onde hoje se ergue a Igreja de São Martinho de Tiobre, para o castro de Unta, a sua localização atual, onde se situa hoje a praça da Constituição, com a Casa do Concello e a Igreja de Santiago, entre outros edifícios.


Uma das ruas do "casco viejo".

Começa então uma época de esplendor que alcança o seu auge com Fernán Pérez de Andrade, O Bom, em meados do século XIV.

Andrade foi o senhor feudal por excelência e a ele se atribuem a construção de sete igrejas, sete pontes, sete hospitais e sete conventos.

O comércio era a atividade principal da cidade, contando com um porto que concentrava todo o comércio marítimo da zona, sendo a prova disso a disputa que Betanzos manteve com Coruña pelo monopólio da descarga do sal, que se realizava em Betanzos.


Ainda a praça do Campo, e a igreja matriz de Betanzos.

Em 1465, Enrique IV concede a Betanzos o título de cidade e, em 1467, a realização de uma Feira Franca anual, de um mês de duração, em Novembro.

Pouco depois, os Reis Católicos reorganizam a divisão territorial e cria-se a província de Betanzos.

Os próprios reis visitam a cidade quando Betanzos é nomeada capital da província com o mesmo nome, ocupando toda a parte norte da Coruña.


Casa do Concello, ao lado da igreja de Santiago.

Betanzos, principalmente nos séculos XVI e XVII, foi a província galega mais agrícola, e nunca perdeu o caráter de vila “labrega”, produtora de magníficos frutos hortícolas e do seu popular vinho, que se cultiva desde a época dos romanos.

Ela soube aproveitar as especiais condições microclimáticas para elaborar um vinho que se pode apreciar nas suas adegas, em muitas e ancestrais tascas, e que, na sua grande maioria, ainda podemos ver o tradicional ramo de loureiro à porta, indicador de que ali se vende a frutada bebida artesanal, de colheita própria.

Não podemos, contudo, esquecer o grande incêndio de 1569 que arrasou a cidade e destruiu perto de 600 casas.


Casa do Concello.

E, quanto à atividade portuária, Betanzos começou a enfrentar dificuldades na ancoragem de barcos de grande tonelagem, face ao assoreamento do seu canal.

Em 1834 desaparece a província e integra-se na de A Coruña.

Contudo, em princípios do século, uma série de circunstâncias fazem que Bentanzos volte a ser um importante núcleo.


Uma rua de Betanzos.

Foi a criação de importantes empresas por famílias como os Núñez ou os Echeverría, que fundaram em 1717, em Betanzos, o primeiro banco de Espanha.

Ainda, a chegada da linha férrea e as obras de beneficência dos “indianos”, como os irmãos García Naveira, levadas a cabo graças à fortuna que conseguiram na Argentina.

Fonte: culturaypaisaje.blogspot.pt e cronistadebetanzos.com


Albergue de Peregrinos.

Depois da necessária soneca, fui até o albergue carimbar minha credencial.

Ele está localizado numa esquina, na antiga Casa da Pescaderia, que foi adaptada para tal finalidade.

Trata-se, na verdade, de um edifício antigo que foi muito bem restaurado, possui uma bonita chaminé interior, instalações de primeira classe e, é, na opinião dos peregrinos que ali pernoitaram, um autêntico refúgio 5 estrelas, como pude comprovar “in loco”.

Finda minha visita ao local, voltei à praça do Campo que é, hoje em dia, o centro nevrálgico de Betanzos, um espaço buliçoso de convivência social, festivo e cultural.

Dela partem os típicos becos ou ruelas da vila onde, ao longo dos anos, foram construídas as populares casas com soleira.


Estátua que homenageia os Irmãos Garcia Naveira, heróis na cidade.

Ali visitei a igreja de Santo Domingos, bem como pude fotografar a estátua dedicada aos irmãos García Naveira.

Segundo conta a história, os irmãos Juan e Jesús Garcia Naveira, emigraram à América, como outros muitos compatriotas até o século XIX.

Todos buscavam fazer fortuna no continente americano, porém a grande maioria retornava igual ou mais pobre do que quando havia partido.

Não foi o caso dos Naveira, que conseguiram reunir uma considerável fortuna na Argentina.



Com o dinheiro arrecadado, decidiram regressar a Betanzos onde investiram parte dele em obras beneficentes e filantrópicas, como asilos, escolas, lavanderias públicas e, o que mais chama a atenção, o parque enciclopédico.

Um parque onde Juan Naveiros tentou mostrar os locais e maravilhas que ele encontrou em suas viagens.

Hoje em dia só se conserva 9% do original, onde se pode ver grutas, tanques, estátuas, relevos, seres mitológicos, cenas históricas, etc..

Ao passear pelo parque, todos tentam imaginar como seriam seus momentos de esplendor, e o que pensavam os habitantes de Betanzos ao ver todas aquelas maravilhas do mundo que, graças aos irmãos Naveira, podiam conhecer.


Ainda o belo rio Mondeo.

E, por derradeiro, pois estava ameaçando chover novamente, fui até a Ponte Vella rever o belíssimo rio Mondeo.

No caminho de volta para o local de pernoite, aproveitei para adquirir víveres para o lanche noturno e a jornada sequente.

Isso tudo, depois de verificar cuidadosamente por onde eu deixaria a cidade na manhã seguinte, pois nela eu enfrentaria a mais extensa e difícil etapa desse Caminho.


Um adeus à belíssima cidade de Betanzos.

IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de pequena extensão, bela e com entornos magníficos, na qual fui prejudicado pela chuva que não deu trégua em boa parte do percurso. De se ressaltar que a sinalização no trajeto todo está impecável. Por derradeiro, a cidade de Betanzos surpreende por sua beleza e história, além de oferecer um excelente e aconchegante albergue aos peregrinos.


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