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08º dia – ALCAZARÉN a SIMANCAS - 31 quilômetros


08º dia – ALCAZARÉN a SIMANCAS - 31 quilômetros

A vida nos oferece muitas surpresas, e eu pretendo viajar através de caminhos intrincados, que me ensinem a viver.



A jornada seria de razoável extensão, assim, deixei o local de pernoite às 6 h 30 min e ainda no escuro, acessei uma rodovia vicinal asfaltada, por onde caminhei, aproximadamente, 2 quilômetros.

Então, atravessei a “carretera” N-601, caminhei mais duzentos metros e logo adentrei em terra, prosseguindo, para variar, entre infindáveis pinheirais, enquanto o dia lentamente amanhecia.

O clima se mantinha fresco, temperatura próxima de 10 °C, ótima para caminhar.

Depois de ultrapassar o rio Eresma por uma ponte metálica, eu caminhei mais uns 200 metros e logo as flechas me direcionaram para direita, onde acessei uma estrada de terra larga e situada entre trigais.

Mais tarde, passei a descender entre pinheiros, até alcançar uma “puente romana”, por onde eu deveria transpor o rio Adaja que, naquele local, tem aproximadamente 80 metros de extensão.

Ocorre que esse curso d'água, tímido em época de escassez, estava numa grande vazante e cobria os derradeiros 30 metros da ponte.

Após esgotar todos os recursos e não encontrar outra forma de seguir em frente, tenso e receoso, ultrapassei a parte final com água até os joelhos e sob forte correnteza.

Foi um tremendo susto, para o qual eu não estava preparado e, pior, prossegui em frente com os pés integralmente molhados, pois a bota ficou cheia de água, motivo pelo qual nem adiantaria trocar as meias, contudo, apesar do desconforto, afortunadamente, não ganhei bolhas.

Na sequência, caminhei mais 4 quilômetros por estradas planas e sem sombras, até chegar em Valdestillas, um povoado onde habitam quase 1.600 pessoas.

Então, segui 2 quilômetros em zona urbana, ao lado de uma via asfaltada, observando que a cidade cresceu no sentido longitudinal.

No trecho sequente eu caminhei bastante tempo pelo acostamento da rodovia, num trajeto duro e desanimador.

Depois, fui desviado para um caminho que margeia a “carretera”, onde encontrei um piso pedregoso e arenoso, e passei por enormes dificuldades na progressão.

Finalmente, 9 quilômetros adiante, transitei por Ponte Duero que, desde 1906, é um distrito de Valladolid, embora esteja distante 13 quilômetros de sua sede.

Ali existe um excelente albergue que está sob a regência de uma das Associações Jacobeias com maior presença no Caminho de Madri: A Associação Jacobeia Vallisoletana (AJOVA).

Por uma ponte medieval eu ultrapassei o rio Duero, depois ainda caminhei mais 6 quilômetros à beira de outra rodovia, ora utilizando uma trilha arenosa, pelo lado esquerdo, ora uma ciclovia, localizada no lado direito dessa “carretera”.

No final da jornada, eu ultrapassei o rio Pisuerga por uma imensa ponte medieval e logo, após transitar pelo centro de Simancas, uma cidade milenar, me hospedei no Hostal onde havia feito reserva.

Por sinal, esta foi a única das cidades grandes por onde transitei nesse roteiro, que não oferece Albergue aos Peregrinos.

Algumas fotos da jornada desse dia:


Estrada larga, plana e deserta.


Vencendo mais um grande estirão..


Trecho integralmente plano e reto.


Descendendo em direção ao rio Adaja.


Novamente, entre imensos trigais.


Igreja matriz e a Prefeitura de Valdestillas.


Trecho com piso arenoso..


O caminho, nesse trecho, segue ao lado da rodovia.


Ponte romana sobre o rio Duero, situada no distrito de Ponte Duero.


Trecho ruim de caminhar; extremamente arenoso e fofo.


Um monumento que homenageia os caminhantes.


Ponte romana sobre o rio Pisuerga, em Simancas.

Simancas, que já aparece citada nos itinerários romanos com o nome de Setimanca, encontra-se à beira do rio Pisuerga, local onde é possível se ver a Vega do rio Douro.

Foi por este motivo que ali se levantou um castelo na Idade Média, que foi uma das mais importantes fortalezas da linha defensiva do Douro.

Em meados do século XVI, Filipe II de Espanha ordenou a restauração do castelo medieval, que passou a ser utilizado como sede do Arquivo Geral de Castela.


A igreja matriz de Simancas.

Fundado em 1540 e instalado no Castelo de Simancas, desde sua fundação, ele foi o primeiro arquivo oficial da Coroa de Castela figura como uma das referências na Península Ibérica, no que se refere à conservação e armazenamento de documentos.

Durante as lutas da Reconquista cristã da Península Ibérica, os muçulmanos ali teriam erguido um primitivo castelo para defesa da raia do Douro. 


A praça central da cidade.

A estrutura atual, entretanto, é fruto de uma vasta campanha construtiva empreendida no século XV por Don Fadrique Enríquez, almirante de Castela.

À época, o castelo já havia perdido a sua função estratégica, razão pela qual as suas dependências foram transformadas em prisão.

O castelo apresenta planta no formato pentagonal irregular e suas muralhas são reforçadas por cubos, envolvidas externamente por um fosso.

Interiormente sofreu extensas transformações para se adaptar às suas funções atuais, sendo que o arquivo foi iniciado por Carlos V, finalizado por seu filho Felipe II, e guarda documentos dos séculos XV ao XIX.

População atual: 5 mil habitantes.


Ponte romana sobre o rio Pisuerga, vista desde o mirador da cidade.

Em Simancas eu pernoitei no Hostal Las Tércias, cêntrico e de excelente qualidade.

Para almoçar, eu utilizei os serviços do Restaurante Las Tércias, onde despendi 12 Euros por um apetitoso “menú del dia”.

IMPRESSÃO PESSOAL – Depois de outra jornada atravessando imensos bosques de pinheiros e campos de cereais, hoje finalizei minha caminhada junto ao rio Pisuerga que, logo abaixo da cidade de Simancas, se junta com o rio Douro e forma um grande caudal líquido. O guia que eu portava sugeria tomar um ônibus à tarde e ir conhecer a bela cidade de Valladolid, capital da província de Castilla e León, situada muito próxima de onde eu estava. Mas me encontrava cansado e também não tinha a mínima intenção de transitar por locais de tráfego intenso e multidões.

No global, foi outra jornada tranquila e praticamente toda plana, apesar do piso arenoso e pedregoso, em alguns trechos. A surpresa negativa e que me marcou bastante nesse dia, foi a necessidade de atravessar parte do rio Adaja, com água pelos joelhos e sob forte correnteza. De resto, transitei por locais ermos e silenciosos, e quando me sentia solitário ou enfadado, colocava os fones no ouvido, ligava meu radinho de pilha, e seguia ouvindo música ou notícias sobre a Espanha e o mundo, o que auxiliava a expandir o meu repertório de palavras em castelhano.