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9ª etapa – HUESCA a LOARRE - 35 quilômetros


9ª etapa – HUESCA a LOARRE - 35 quilômetros


Tudo o que você quer está do outro lado do medo.




Seria outra jornada de grande extensão e resolvi sair novamente bem cedo, como forma de agilizar minha jornada.

Assim, deixei o hostal às 6 h, sob intensa cerração, e me dirigi à Catedral de Santa Maria, por onde transcorre o roteiro do Caminho Catalão em zona urbana.


Transitando diante da Catedral de Huesca. Era 6 h da manhã!

A temperatura exterior era de 1ºC e no início senti bastante frio, por conta de uma brisa gelada, que soprava dos Pireneus.

Embora estivesse atento a sinalização, tive alguns momentos de hesitação, porque não encontrava a direção correta a seguir, por conta da fraca iluminação em algumas ruas, em face da neblina que envolvia a cidade.

Por sorte, tinha o traçado do Caminho gravado em meu aparelho celular e foi através dele que consegui fugir da civilização.

Huesca é bastante extensa em seu traçado urbano, por conta das praças, viadutos, avenidas e grandes bairros residenciais.

Trinta minutos mais tarde, com o dia clareando, passei a caminhar sobre uma ciclovia, depois ultrapassei a Autovia Nacional por um túnel e, mais mil metros percorridos, adentrei em uma estrada de terra, situada entre pinheirais e por ela segui confiante.

A sinalização voltou a aparecer com intensidade e não tive mais dúvidas sobre o rumo a tomar.


Junção de várias canais de irrigação.

Logo passei a caminhar junto a vários canais de água corrente que fazem parte da “La Alberca de Cortés”, uma secular cadeia de riachos, que são utilizados para irrigar os campos na região e faziam girar o célebre “Moinho de Cortés”.

As matas que abrigam essa rede aquosa são parte indissociável de uma reserva natural e foi por seu interior que caminhei por bastante tempo, enquanto ouvia o canto de inúmeras espécies de aves.


Percurso plano e hidratado.

Seis quilômetros percorridos em bom ritmo, passei pela cidade de Chimillas, onde habitam 304 pessoas.

A origem documentada dessa população se remonta à época do domínio muçulmano, dado que seu topônimo, de origem árabe, significa “pequena mesquita”.

A povoação ainda dormia quando por ali transitei.


Transitando por Chimillas.

Parei apenas numa praça para fotografar sua igreja matriz, cujo patrono é São Pedro.

O sol já aparecera e a temperatura estava em franca elevação.


De volta ao campo...

Caminhei, depois, num planalto, com ampla visão do horizonte, sempre em meio a extensos trigais.


Trigais a perder de vista.

À minha frente podia ver uma grande serra que faz parte da cadeia dos prepirineus.

Um quilômetro adiante, passei a caminhar dentro de um agradável e fresco bosque de encinas e carrascas, árvores típicas da região.


Adentrando em formoso bosque, uma raridade neste Caminho.

Foi um percurso agradável, hidratado e que está muito bem sinalizado.

Tudo era silêncio no entorno, apenas os pássaros ditavam o som ambiental.


Trilha pedregosa.

Em determinados locais havia bifurcações ou até trifurcações que, por alguns momentos, me deixavam em dúvida.


Sinalização no solo, de extrema criatividade.

Mas, logo adiante, eu me reencontrava com as benfazejas setas amarelas.


Trecho belíssimo!

Foram só 30 minutos de trajeto, porém, um dos mais interessantes em toda a extensão do caminho.

Finalmente, emergi da mata e voltei a caminhar por locais abertos, com total visão do entorno.


De volta ao descampado.

Caminhei mais um quilômetro e passei diante do “Castillo de Castejón”, que não possui nenhuma conotação militar.

Nessa zona, são chamados de “castillos” as vilas romanas, que estão ligadas a massiva exploração agrária e pecuária, exercidas por famílias tradicionais nesse tipo de atividade agrícola.


O famoso "Castillo de Castrejón".

Mais adiante, próximo de uma extensa construção, utilizada para criação de porcos, me encontrei com um senhor que vinha dirigindo um potente trator.

Foi essa, a única presença humana com quem cruzei nessa etapa.

A uns 1.500 metros de distância, numa baixada, pude visualizar uma grande máquina, equipada com uma pá carregadeira, trabalhando na abertura de um canal.

E o silêncio do entorno era tão grande, que o som por ela difundido reverberava em meus ouvidos, como se o “brutamontes” estivesse ao meu lado.


Caminhando em direção a uma serra.

O caminho plano e praticamente retilíneo me encaminhava diretamente para uma grande serra situada na cordilheira prepirenáica.

Nela se sobressaia um espigão rochoso de grande estatura.

Trata-se do Pico Gratal que, com seus 1.567 m de altitude, se destaca entre as montanhas que fazem parte dessa cadeia montanhosa.


Ao fundo, destaque na cordilheira, o Pico Gratal.

O caminho seguiu sempre ermo, arejado e sem sombras.


Imensas culturas, a perder de vista.

Depois de ultrapassar um pequeno riacho por uma ponte, pude fotografar do meu lado esquerdo o famoso “Catillo de Anzano” que, infelizmente, se encontra em estado de ruína e abandono.


O "Castillo de Anzano", em ruínas.

Seguindo em frente, em determinado local, passei diante de uma propriedade onde um grande rebanho de reses pastava mansamente.

Era a primeira vez que me encontrava com esse tipo de animal desde a minha partida do Monastério de Montserrat, nove dias atrás.


Primeiro encontro com gado bovino no Caminho.

Daquele lugar, já podia visualizar ao longe, no cume de um serro, a igreja matriz de Bolea se destacando no horizonte.


Ao longe, a cidade de Bolea.

Lentamente fui ascendendo e depois de percorrer 22 quilômetros, passei a caminhar em zona urbana.


Escultura e fonte existente na entrada da cidade de Bolea.

Pertencente ao município de La Sotonera, Bolea é a principal povoação e sede do Ayntamiento.

De origem pré-romana, foi o último bastião muçulmano na zona durante a reconquista, até cair nas mãos de Pedro I, de Aragón, em 1101.


Ao fundo, a igreja matriz de Bolea.

Sua principal joia é a Colegiata de Santa Maria Maior, século XVI, de estilo gótico e declarada monumento nacional.

A cidade é famosa pela grande produção e qualidade de suas cerejas.

População atual: 600 habitantes.

Eu transitei calmamente pela pequena vila, fiz algumas fotos e, numa “tienda” adquiri água e uma barra de chocolate.


Em frente, a Prefeitura de Bolea.

Na praça principal da urbe, defronte ao prédio onde está instalado o Ayntamiento, fiz uma pausa para descanso e hidratação.

Pouquíssimas pessoas circulavam pelas ruas, apesar do meu relógio marcar 10 h 30 min.


Igreja de São Tomás e Nossa Senhora da Saudade.

Em seguida, já refeito, passei diante da igreja de São Tomás e Nossa Senhora da Saudade.

Então, observando as flechas amarelas, dobrei à direita e por uma ruazinha descendente, logo deixava a civilização e me internava na natureza novamente, o que muito me agradou.

Segui sempre paralelo a serra que me escoltava pelo lado direito e no início encontrei extensa plantação de pessegueiros.


Nesse trecho, retornaram os pessegueiros.

Depois, caminhei um bom tempo cercado por centenas de pés de oliveiras.


Dia limpo, céu azul.

A estrada, inicialmente plana, pouco a pouco foi se encrespando e seu piso passou a ser empedrado.


Nesse trecho, encontro com as oliveiras.

Uma dor estranha surgira no meu pé esquerdo e parei algumas vezes para tentar entender o que acontecia.


Mais pessegueiros...

Para encerrar o assunto, ingeri um analgésico que carregava no bolso da calça, e prossegui adiante.

Depois de mais 6 quilômetros percorridos, no topo de uma elevação, passei por Aniés, uma pequena vila, onde residem 140 almas.

Essa minúscula povoação está situada aos pés da serra Cabalera, a 763 m de altitude.

Ao nordeste, em uma colina próxima, se encontra o Santuário de Nossa Senhora da Penha.

Eu fiz uma pausa para observar sua igreja matriz, de estilo românico, cuja origem data o século XII.

Porém ela foi profundamente reformada no século XVIII, e o resultado final foi aquilo que fotografei.


Igreja matriz de Aniés.

Prosseguindo, passei a caminhar sobre pedras, numa estrada plena de altos e baixos.


Seguindo para Loarre.

As culturas de pessegueiros retornaram em grande escala, algumas recém-plantadas, com os pés ainda em crescimento.


Caminho pedregoso e sem sombras.

Em determinado local, pude fotografar, ainda que à distância, edificado sobre um rochedo, o famoso Castelo de Loarre.


O famoso Castelo de Loarre, ao longe.

O trajeto prosseguiu difícil, alternando aclives e declives, uma tortura para o cansado caminhante.

Ademais, o sol crestava forte num céu sem nuvens e eu me sentia um tanto exaurido.


O penúltimo ascenso, antes da chegada.

Por sorte, a jornada estava se findando.

E, após superar um derradeiro arroio, por uma rodovia vicinal, adentrei em zona urbana, seguindo até a Praça Maior da cidade.


Descendendo para Loarre.

Ali me hospedei na Hospedaria de Loarre, onde paguei o salgado preço de 45 Euros por um quarto individual.

Diga-se de passagem, nesta cidade não há albergue para peregrinos.

Para almoçar, utilizei os serviços do Restaurante e Asador Casa do Caminheiro, onde despedi 12 Euros por um excelente “menú del dia”, regado a muito vinho.

Por sinal, o proprietário do estabelecimento me tratou muito bem ao saber de minha nacionalidade, pois residira, em sua infância, por 6 anos no Rio de Janeiro.

Finda a lauta refeição, deitei para descansar.


A Hospedaria de Loarre, um antigo palacete em estilo renascentista.

Loarre é uma cidade localizada na vertente sul da serra de Loarre, a 775 m de altitude, e tem edificada em sua área central a volumosa igreja de Santo Estevão, construída no início do século XVI.

Na sua praça Maior, destaca-se uma peculiar fonte de 3 canos, também do século XVI.

A Hospedaria de Loarre, antiga sede da Prefeitura, é um palacete de estilo renascentista aragonês, do século XVII, recentemente restaurado.


A igreja matriz de Loarre. Com destaque para as flores.

Em 1016 teve início a construção do castelo de Loarre, que prosseguiu, em suas várias fases, até o século XI.

Ele se assenta sobre um promontório de rocha e está em bom estado de conservação, sendo considerado a fortaleza românica melhor conservada da Europa.

População atual da urbe: 593 habitantes.


A igreja matriz de Loarre, vista desde a praça central.

Mais tarde, já retemperado, dei um breve giro pela simpática cidadezinha, que trata muito bem os peregrinos.

Pude visitar e fotografar sua igreja matriz que, para uma cidade onde habitam menos que 600 pessoas, possui espaço interior em demasia.

Isto explica-se, porque no início do século XX, ela possuía quase 2 mil habitantes, cifra que vem decaindo década após década.


A igreja matriz de Loarre.

Dei um giro pela praça central da cidade, conversei com dois senhores e fiz mais algumas fotos para registrar aquele momento único que eu vivia.

Em seguida, fui até uma “tienda”, localizada próxima dali, com o fito de adquirir víveres para o lanche noturno.

Para minha surpresa e alegria, no local encontrei o Tony acompanhado de outro peregrino, o Antônio.

Contou-me que haviam se perdido, por pura distração, e acabaram por seguir na direção de outra localidade vizinha.

Percebido o erro, retornaram ao caminho mais adiante, porém isto tinha lhes custado caminhar 4 quilômetros mais do que eu.

E como em Loarre não havia albergue, eles ainda marchariam mais 5 quilômetros, para pernoitar no refúgio de Sarsamarcuello, a próxima povoação por onde discorre o Caminho Catalão.


Loarre, cidade pequena, mas belíssima.

Como eles ainda não haviam almoçado, acompanhei-os até um bar, para ingerirem alguns petiscos.

Ali dividi uma garrafa de vinho com ambos, depois me despedi e voltei às minhas atividades rotineiras de peregrino.

Combinamos, no entanto, de manter contato, algo que não mais ocorreu, pois nunca mais vi o Tony.

De retorno ao Brasil, escrevi duas mensagens para o seu correio eletrônico, porém, até o momento não obtive respostas.

Espero, sinceramente, que ele tenha tido sucesso em sua peregrinação, pois esse valente amigo espanhol mostrou ser um companheiro de ótima índole e qualidade, de quem jamais esquecerei.


A Hospedaria de Loarre, onde pernoitei nesse dia.

CONCLUSÃO PESSOAL: Uma etapa de grande extensão, que reserva dificuldades altimétricas para o final da jornada, quando o peregrino já se encontra extenuado pela longa distância vencida. Todavia, um trajeto de incomum beleza, mormente, quando se caminha em direção a cordilheira prepirineica. No geral, um percurso de razoável dificuldade, com trânsito por locais arejados, ermos e silenciosos, e até por um bosque, algo inédito para mim até aquele momento.