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10ª etapa - LOARRE a SANTA CRUZ DE LA SERÓS - 26 quilômetros


10ª etapa - LOARRE a SANTA CRUZ DE LA SERÓS - 46 quilômetros


Não deixe seus medos decidirem por você.




A quilometragem acima quantificada não expressa o que efetivamente caminhei naquele dia, porque seria demasiada, sob todos os aspectos, para uma jornada só.

Na verdade, eu pretendia percorrer naquela data apenas 20 quilômetros, perfazendo o trajeto de Loarre até a Estación de Santa Maria y la Peña, onde não há local para pernoite, apenas um bar e uma padaria.

Porém, distante 4 quilômetros do caminho e situado junto ao Embalse de la Penã, havia o Hostal Casa Galán que, além de turistas, também abrigava peregrinos, onde eu pretendia dormir naquele dia.

Contudo, para minha decepção, quando liguei para fazer reserva, soube que o mesmo estava fechado há mais de um ano.

Uma alternativa a ser considerada seria caminhar mais 10 quilômetros serra acima, e pernoitar na pequena vila de Ena, onde há um albergue de peregrinos.

Fiz contato várias vezes com o hospitaleiro desse refúgio, visando saber se o estabelecimento tinha mantas ou possuía calefação, pois eu não estava preparado para dormir nesse tipo de alojamento, visto que não levara saco de dormir e nem toalha para banho.

E as temperaturas prosseguiam invernais, mormente nas geladas madrugadas, quando ficavam negativas nas montanhas, e eu não pretendia morrer congelado.

Porém, debalde várias ligações telefônicas, não logrei êxito em conversar com o Sr. Ramón Aso, o responsável pela gerência daquele estabelecimento, pois a telefônica sempre me dizia que seu telefone se encontrava fora de área naquele momento.

Bem, o peregrino necessita estar preparado para resolver problemas que afetem sua “viagem”, mormente se estiver sozinho, como no meu caso.

Dessa forma, optei por “pular” o trecho desse dia e percorrer diretamente a etapa seguinte.

Nesse aspecto, conversei com o gerente do local onde eu estava hospedado.

Graciosamente, ele fez contato com um taxista que, pontualmente, me apanhou às 6 h da manhã na porta da Hospedaria e, 40 minutos mais tarde, me deixou diante da Estación de Santa Maria y la Peña, onde encontrei tudo fechado e deserto, face ao horário extemporâneo.

Depois dos competentes acertos monetários, Rafael, o motorista, se despediu gentilmente e partiu.

Compenetrado, fiz orações, alongamentos e, pasmo, verifiquei em um termômetro afixado numa das portas da estação, que a temperatura ali medida, marcava zero graus, com sensação térmica de -3ºC.

Imediatamente, para espantar o frio cortante, me pus a caminho apressadamente.

E o fiz seguindo numa rodovia asfaltada e sem tráfego, por 1.600 metros.


Início de pedregosa e solitária trilha.

Naquele local, no lusco fusco de uma manhã neblinosa e gelada, as flechas me direcionaram para uma trilha pedregosa e ascendente, em direção ao topo de íngreme elevação.

Eu estava diante da serra do Triste, numa senda que sobe uma colina, por um terreno escarpado e liso.


Trecho deserto e silencioso.

Foram momentos tensos, porque escorreguei várias vezes por conta das pedras soltas, alocadas no leito da traiçoeira vereda.

Quanto atingi o topo do morro, eu já estava aquecido e sentia o suor porejar abundantemente pelas minhas costas e axilas.

A partir dali, iniciou-se uma senda empedrada, que seguiu labiríntica pelas faldas da montanha.


Trilha extremamente silvestre.

Do meu lado esquerdo descortinava-se um grande precipício e, no fundo dele, corria um largo e rumorejante riacho.

Segui com extremo cuidado e atenção redobrada, pois uma queda ali seria fatal.

O caminho muito bem sinalizado, diga-se de passagem, seguiu sempre dentro de um místico bosque de pinheiros, onde apenas o canto de pássaros quebrava o silêncio avassalador ali existente.

Em determinados locais vi pequenas construções em ruínas, que inferi fossem abrigos de caçadores.

Duvidei que alguém pudesse residir naquele local ermo e de difícil acesso, porque não visualizei cultura agrícola de nenhuma espécie no entorno.

Eu seguia apreensivo, meio aos trancos e barrancos, tropeçando de quando em vez nas pedras, mas, depois de 3 quilômetros num autêntico ziguezague pela floresta, acabei por desaguar numa larga estrada de terra, por onde segui mais tranquilo e confiante.


Finalmente, uma estrada. Mas pessoas, nem pensar...

Em determinados locais, por pontes de cimento, eu atravessei o remansoso riacho que descia paralelo a estrada, ora de um lado, ora de outro.


Nesse local se cruzam 3 rotas diferentes.

Mais acima, depois de ultrapassar o rio Ena, por uma ponte, encontrei uma trifurcação de caminhos, porque por ali passam 3 rotas que cortam o parque florestal e se cruzando.

Mas, a sinalização estava excelente, de forma que segui à direta e, pouco acima, já encontrei vastas culturas de trigo.


A pequena vila de Ena surge à frente.

O sol finalmente deu o ar da graça e depois de caminhar 10 quilômetros, sempre ascendentes, adentrei em Ena, pequeníssima aldeia, onde residem 50 pessoas.

Trata-se da última localidade da Comarca de Hoya de Huesca.


A igreja de Ena.

Segundo o guia que eu portava, ali existe um excelente albergue, que disponibiliza 8 camas aos peregrinos.

Porém, não pude avaliar seu interior, pois a porta de entrada se encontrava fechada e não avistei vivalma transitando pela minúscula aldeia.


O albergue de Ena. Fechado, quando ali passei.

Suas casas são todos calafetadas externamente com pedras, sinal de que o inverno ali deve ser rigoroso, inclusive, com nevascas, pois ela está situada a quase 900 metros de altitude.

Prosseguindo, logo voltei a caminhar em terra, por estradas largas e bem delineadas.


De volta a trilha...

Em alguns enclaves retornaram os trigais, mas o que predomina nesse trecho são os bosques de montanha, composto por árvores de pequena estatura.


Um solitário bosque de pinheiros.

Segui sempre em ascendência e em determinados locais, caminhei por bosques de pinheiros.


Um caminho integralmente solitário.

Apesar do sol, o caminho seguiu agradável e fresco, temperatura na casa dos 10°C, ideal para uma excelente e produtiva caminhada.

Na parte final do trajeto, voltaram as grandes plantações de trigo, e foi caminhando entre elas que aportei a Botaya, outra minúscula aldeia, localizada na vertente meridional da Serra de San Juan de la Peña, a quase mil metros de altitude.

Ela pertence ao município de Jaca, que é a capital da Comarca de Jacetânia.


O povoado de Botaya.

Como de praxe, as casas ali também são de pedra, denotando as baixas temperaturas que devem imperar nesse lugar no período invernal.

Transitando pela povoação não avistei vivalma, embora meu guia afirmasse que ali residem 27 pessoas, sendo que em 1857 essa vila chegou a albergar 230 habitantes.

Dizia também que o lugar abriga um albergue juvenil, porém ele só funciona nas altas temporadas, o que não era o caso.


A igreja de Botaya.

Parei mais acima, apenas para fotografar a igreja de Santo Estevão, datada do século XVIII.

Depois, deixei o povoado por uma rodovia que segue em direção ao Monastério de San Juan, porém, um quilômetro acima, as flechas me direcionaram para a esquerda, em direção a uma senda ascendente, em cujo piso encontrei muitas pedras.


Entrada à esquerda, em direção a um morro.

A roteiro seguiu sempre em meio a bosques, mas foi empinando gradativamente.

O local é ermo e inóspito, com trechos íngremes e perigosos, que venci gradativamente, fazendo pequenas pausas para recompor minha respiração, quando necessário.

Por sorte, a ascendência, embora íngreme, tem pequena extensão.


Trilha pedregosa e deserta.

E para aqueles que um dia, como eu, já enfrentaram a Serra de Luminosa, no Caminho da Fé, a vitória aqui, ainda que árdua, é garantida.

No topo da elevação, que atingi quase rastejando, eu detinha uma soberba vista do vale por onde viera ascendendo, de incomensurável beleza.


A visão de onde eu viera caminhando, desde o alto do morro.

Esse foi, com certeza, o segundo maior obstáculo que enfrentei no Caminho Catalão.

E o primeiro, o mais extenso deles, estava por vir, ainda no final dessa jornada.

Eu caminhei pelo cimo do morro durante um bom tempo, utilizando trilhas bem demarcadas, localizadas entre bosques de pinheiros.

Um trajeto agradável e, quase sempre, plano e silencioso.

Mais um quilômetro percorrido, saí no belo parque que frondeia o Monastério Novo de San Juna de la Penã.


O Monastério Novo de San Juan de la Peña.

O Monastério Novo de San Juan de la Peña é um edifício de grandes dimensões, cuja construção teve início no final do século XVII, depois que um incêndio ocorrido em 1675, devastou o Real Monastério.

Se encontra edificado num local plano, próximo do monastério antigo, mas num patamar mais alto, a 1.210 metros de altitude.

Destaque para a fachada barroca de sua igreja, com uma profusa decoração e bonita simetria.

O Governo de Aragón o habilitou há alguns anos como centro turístico, e ele alberga, atualmente, dentre outros, um Centro de Interpretação do Reino de Aragón, bem como um hotel de luxo, bar, restaurante, spa, salões para conferências, etc.


O Monastério Novo de San Juan de la Peña. Agora, mais de perto.

No local, alguns turistas perambulavam pelas imediações, fotografando o conjunto e contornando o imenso prédio para visitas guiadas.

Eu já havia estado no interior dessa construção em 2004, quando provinha de Lourdes (França), portanto, fiz algumas fotos pelo lado externo, depois segui adiante, agora em descenso.

Para tanto, segui um caminho para pedestres que une os dois monastérios e está muito bem sinalizado.


Seguindo em direção ao Monastério Velho.

O descenso é íngreme e feito sobre pedras alocadas no leito da trilha.

Há que se tomar muito cuidado, porque um simples escorregão pode redundar em violenta queda.


Trilha pedregosa e perigosa.

Mais abaixo, acabei por sair na rodovia e, alguns metros depois, me vi diante do Monastério Velho de San Juna de la Penã.

O Monastério Velho de San Juan de la Peña, também chamado de Real Monastério de San Juan de la Peña, está escondido entre as agrestes paredes rochosas da serra homônima, em um lugar que parece o último rincão do mundo.

As construções estão debaixo de uma enorme rocha que oferece uma proteção inquietante. 


O Monastério Velho de San Juan de la Peña.

Sua origem documentada remonta ao século X, com a fundação de um pequeno centro monástico, sob o patronato de São João Batista.

Durante o século XI o centro se ampliou, convertendo-se em panteão dos reis de Aragon e de Navarra, e em um dos monastérios mais importantes do Reino de Aragón.

Das numerosas lendas que têm esse monastério como protagonista, cabe destacar uma que afirma ter ele custodiado durante séculos o Santo Graal.

Hoje em dia, do conjunto global, destaca-se um excepcional claustro românico, localizado sob a rocha.

Além dele também existe em diferentes estados de conservação a igreja pré-românica e a sala de concílios, o panteão de nobres e reis, a igreja superior (sec. XI), uma capela gótica e um museu.

Atualmente, esse Monastério visando a conservação de seu patrimônio histórico, só aceita a visita de no máximo 50 turistas por hora e, na fila à minha frente, existiam mais de 100 pessoas aguardando, visto que havia alguns ônibus ali estacionados. 


O Monastério Velho de San Juan de la Peña. Erigido sob uma grande rocha.

Eu não estava disposto de esperar tanto tempo, ademais, em 2004, eu visitara o local, amplamente, e sem pressa.

Dessa forma, fiz algumas fotos do lado exterior da emblemática construção, conversei com 2 jovens, depois segui em frente.


Trilha fantástica, em descenso.

E o fiz por sendas maravilhosas, cobertas por frondentes árvores, em leve descenso.


Uma senda maravilhosa!

O dia prosseguia nublado, o piso era em terra socada, a sinalização ótima, e tudo seguia tranquilo em minha caminhada.

Porém, mais abaixo, eu passei a subir novamente até atingir o cume do Pico Quatro Caminhos.


Início das pedras...

A partir desse marco, de onde eu detinha belas visões da paisagem que se descortinava a minha frente, principiei a descender com violência.

Todo o trajeto foi feito sobre pedras soltas, por uma senda perigosíssima, localizada ao lado de um imenso precipício, que se desenhava pelo lado direito.


Já em franco descenso. Ao longe, os Pireneus...

Por sorte, eu estava sozinho no caminho e descendi com o máximo de atenção possível, pois uma queda era iminente a todo momento e custaria caro, com certeza.


Os pinos nevados dos Pireneus, bem à minha frente.

Foi, efetivamente, uma descendência tensa e superada no limite de meu condicionamento físico e resistência muscular.

Sem dúvida, foi este, de longe, o trecho de maior inquietude e perigo que sobrepujei em todo o Caminho Catalão.


O trecho mais perigoso do Caminho Catalão. Muitas pedras.

Tanto que para vencer, aproximadamente, 2.500 metros, em ríspida descensão, eu gastei mais de duas horas.

Em determinado patamar, finalmente, o caminho se aplainou e, utilizando uma rodovia vicinal, aportei em Santa Cruz de la Serós, minha meta para aquele inesquecível dia.


A cidade de Santa Cruz aparece no horizonte, abaixo.

Ali fiquei hospedado no Hostal Santa Cruz, onde gastei 35 Euros por um excelente e luxuoso quarto individual.

Para almoçar, utilizei os serviços do restaurante instalado no piso térreo do próprio estabelecimento, onde degustei um supimpa “menú del dia” por 14 Euros, regado a muito vinho tinto.

Depois, face ao violento esforço empregado na jornada recém-finda, deitei para um merecido descanso.



A igreja matriz de Santa Cruz de la Serós.

Santa Cruz de la Serós, que está situada entre o rio Aragón e a serra de San Juan, é um povoado precioso, que conserva as tradicionais casas de pedra desta parte dos Pireneus, com típicos telhados de ardósia e peculiares chaminés cônicas.

Sua joia arquitetônica e a monumental igreja de Santa Maria (séculos XI-XII), românica, que fazia parte de um monastério, do qual só restam alguns vestígios.

Na parte baixa do povoado há uma pequena igreja dedicada a São Cipriano, do século XI, em estilo românico lombardo, característico dos pireneus aragonês e catalão.

População atual: 151 habitantes


Casas típicas de Santa Cruz de la Serós. Todas em pedra.

Mais tarde, dei um breve giro pela frígida povoação, que além de estar situada a quase 800 m de altitude, dista parcos quilômetros dos Pireneus, que formam uma fronteira natural entre a França e a Espanha.

Na sequência, pude visitar e fotografar a igreja de Santa Maria, uma belíssima construção integralmente preservada.


Um famoso retábulo existente no interior da igreja matriz de Santa Cruz de la Serós.

Depois, fui até uma “tienda” me prover de víveres.

E logo retornei apressado ao local de pernoite, pois iniciou-se forte chuva, com vento e trovões, que seguiu noite adentro.

E, por conta desse atípico evento, a temperatura despencou novamente.


Trecho do Caminho situado entre Ena e Botaya, de grata lembrança!

CONCLUSÃO PESSOAL: Uma etapa de média extensão, que reserva dificuldades altimétricas de grandes proporções, para o início e o final da jornada. O trajeto inicial, feito por sendas ermas e pedregosas, mostrou-se um difícil desafio para qualquer caminhante. Tanto quanto o íngreme ascenso em direção ao Monastério Velho de San Jun. Porém, a parte mais preocupante foi, sem dúvida, o descenso em direção à cidade de Santa Cruz de la Serós, de dificuldade extrema. No global, foi a jornada mais difícil e tensa que venci em todo o Caminho Catalão. Contudo, percorrida sempre em meio a exuberante natureza, plena de excelsa beleza e monumentos históricos impressionantes e preservados.