2º dia - GRADO à SALAS

2º dia - GRADO à SALAS – 22 quilômetros

"Com cada uma das amizades verdadeiras, construímos as fundações onde repousa a paz do mundo inteiro, com mais firmeza." (Mahtma Gandhi)


O percurso não seria tão longo, no entanto, eu estava preocupado com o clima, pois o sol estava crestando a todo vapor após as 10 h, visto que a primavera europeia estava mais para o verão brasileiro.

Dessa forma, levantei-me às 5 h e, exatamente, às 6 h eu deixei o local de pernoite, seguindo à esquerda, em direção ao bairro de la Cruz.

Fato curioso, digno de nota, é que quando saí do hotel reinava um absoluto silêncio no vestíbulo, onde tranquilamente cochilava o porteiro da noite.

Depois de atravessar diante de um posto de gasolina, obedecendo à sinalização do caminho, eu adentrei à esquerda, numa rodovia vicinal asfaltada, e principiei a subir.

O dia ainda estava escuro, porém pude visualizar casas de construção recente e inúmeros terrenos utilizados como hortas, com o cultivo de inúmeras hortaliças, principalmente, couve e aspargo.

Ali também pude observar as obras de construção da Autovia Nacional, o que obriga o peregrino a fazer pequeno rodeio nesse trecho.

Três quilômetros depois, quase no topo da colina, eu encontrei uma bifucarção: o caminho segue em frente, porém se eu virasse à direita, iria para a pequena vila de San Juan de Villapañada, onde se encontra instalado o albergue.

Sua localização é bastante tradicional, e conta a história conta que nesse local, até o século XIX, a Ordem de Malta manteve um hospital de peregrinos nessa aldeia.

A partir desse marco, iniciou-se um aclive fortíssimo que, em alguns “tramos”, me fez recordar a subida dos Pinineus, desde San Jean a Roncesvalles, ainda que, afortunadamente, este seja bem mais curto.

No pico da colina eu parei para descansar, e pude perceber que meu pulso estava acelerado, e eu arfasse, tamanho o esforço dispendido na escalada.

Ali eu estava diante de um grande cruzeiro de pedra, fincado na frente do cemitério da ermida “La Virgem del Fresno”, uma construção em estilo barroco, do século XVII.



Até o ano de 1.839, esse local, conhecido como Alto del Fresno, era ponto de vigilância dos Cavaleiros de Jerusalém, e na guerra napoleônica, serviu de fortaleza, com a edificação de uma grande barricada.


Esse lugar marca também o ponto divisório entre os vales e as bacias dos rios Narcéa e Nalón.

Ali, uma placa me mandava desviar da rota original que se dirige até o povoado de San Marcelo, porque o caminho nesse trecho se encontra interrompido pelas obras da Autovia.

Assim, precisei dar uma grande volta, que no final me fez percorrer mais quilômetros do que os indicados no guia que eu portava.

Iniciou-se, então, uma grande descida, e no final dela eu passei defronte à “Fuente de la Meredal”, uma construção do século XVIII, que ainda funciona normalmente.

Na sequência, eu ultrapassei a rodovia N-634 por uma ponte metálica e, ainda descendo, logo depois passei por Cabruñana, onde avistei belos arranjos florais nos balcões e nas entradas das casas.

Porém, em suas ruas não vi alma viva, tudo estava deserto e silencioso, apenas o ladrar de alguns cães quebrava a tormentosa quietude.

Mais à frente, ainda em descenso, passei por Moratín e depois fiz outro grande giro para fugir de obras rodoviárias.



Depois transitei por San Marcelo, e na sequência, após fazer outra imensa volta pelo asfalto, adentrei em um trilho matoso que me levou, mais abaixo, a passar por La Reaz e seguir até La Doriga.

Ali passei defronte à igreja romântica de Santa Juliana, situada defronte ao bar “Cá Pacita”, que infelizmente, em face do horário, se encontrava fechado.

Na sequência, segui por uma “carretera” secundária até uma grande baixada.



Então, obedecendo as setas amarelas que encontrei a muito custo, pintadas no chão, tomei uma senda plena de pedras, musgos e mato baixo, que, no final, acabou desaguando na rodovia vicinal As-15, e por ela segui até Las Casas el Puente.

A sinalização estava bastante deficiente nesse trecho, e por sorte, pude solicitar informações a um trabalhador que por ali trafegava, no volante de um trator.

Então, depois de uns duzentos metros, eu dobrei à esquerda, e segui pela rodovia N-634, perigosa nesse “tramo”, pois não tem acostamento e comporta um trânsito de veículos pesados bastante intenso.

Em seguida, eu transpus o rio Narcea, nesse lugar bastante largo e caudaloso, por uma grande ponte, próxima a aldeia de La Rodriga.

Vale lembrar que esse piscoso curso d’água, é um dos principais rios salmoneiros de toda a Espanha.

Logo à frente, eu acessei a rua principal da cidade de Cornellana.

Segundo a história, o nome dessa localidade deriva de uma vila romana, cujo proprietário chamava-se Cornelius.

Essa informação encontra-se citada em documentos datados do século IX.

Em seguida caminhei até o seu centro comercial, e ali, as flechas me direcionaram para a esquerda, e logo eu me vi defronte ao Monastério de San Salvador, onde está localizado o albergue de peregrinos desse município.




O citado monastério foi fundado em 1.024, a partir de uma igreja construída sob as ordens da Infanta Cristina, que depois do falecimento de seu esposo, o Infante Ordoño, decidiu consagrar-se a Deus.

No século XII ele foi cedido à ondem de Cluny, mas no século XVII foi anexado à Congregação de San Benito, sendo hoje habitado por monjes beneditinos.

Após bater algumas fotos, aproveitei o silêncio do local para fazer uma pausa para hidratação e ingerir uma banana.

O caminho seguiu então beirando o rio e bordejando os arrebaldes da cidade, até que após ultrapassar uma grande chácara, eu acessei outro desvio feito por conta de obras na Autovia.

A trilha, em forte ascendência, me levou mais acima até o Alto de Santa Eufêmia, uma pequena vila.

Ali, indeciso sobre qual rumo tomar, pois não avistei sinalização, indaguei a uma senhora que examinava um canteiro de verduras.

Ela me aconselhou seguir adiante, sempre subindo, contudo, revoltada, fez questão de me mostrar o local em que os javalis, abundantes naquela região, haviam chafurdado em sua bela horta.

Existiam também excrementos desse porco selvagem que ali, por não terem predadores, aumentam em população a cada ano.

Eu já havia lido sobre encontros de peregrinos com estes animais no caminho, causadores de grandes sustos.

Contudo, é sempre bom lembrar que os javardos possuem hábitos noturnos, portanto o risco de eu cruzar com algum deles em meu roteiro era bastante remoto.




Já no topo do morro eu acessei uma trilha boscosa, e mais adiante, adentrei em um frondoso bosque, por onde caminhei um bom tempo, apenas o vento e o trinar dos pássaros me faziam companhia.

Eu seguia em frente, com meus sentidos voltados para os sons da natureza, já que normalmente estão prejudicados, alertas para qualquer som ou cheiro e, fechando os olhos, consegui ouvir o zumbido dos insetos.


Mais adiante, passei a ouvir sons estridentes, que, pouco a pouco, foram se intensificando, turbando o maravilhoso silencio, do qual eu desfrutava.

Um bom tempo depois, eu passei diante de uma mineradora, onde uma enorme máquina, em rumoroso movimento, demolia blocos de rochas e era a responsável pelos desagradáveis ruídos que ouvira adrede.

E, logo em seguida, adentrei à pequena vila de Llamas, onde não existe comércio, apenas algumas casas disseminadas sobre uma curta planície

Prossegui, então, por uma estrada vicinal asfaltada e logo passava por dentro de Monteagudo, outro minúsculo povoado.

Numa baixada, eu acessei uma grande estrada de terra plana e reta, que discorre paralela à rodovia N-634, e depois de três quilômetros caminhados debaixo de sol forte, passei por Quintana, um povoado que tem uma parte de suas casas construídas sobre um morro.




Sendo que, outra porção, a mais importante, pois lá se encontra o comércio da vila, está situada ao lado da “carretera” nacional.

Prosseguindo, logo adiante eu cheguei à Fuente Caliente, uma construção de 1.906, onde existem bancos e mesas para lanchar alocados debaixo de frondosas árvores.

A ocasião me convidava para um merecido descanso, mas o céu nublara repentinamente e, com medo de que houvesse chuva iminente, resolvi prosseguir adiante, não sem antes matar minha sede.

A partir dali eu acessei uma trilha rústica, situada em meio a um grande bosque e depois de dois quilômetros bastante agradáveis, passei por uma pequena e graciosa ponte medieval feita de pedra.

Trata-se de uma construção em estilo romano, do século XVI, através da qual eu transpus rumorejante riacho.

Das árvores vizinhas à trilha, vinha o canto dos pássaros incessante e em variados tons, uma agradável e refinada música para os meus ouvidos.

Acabei, por sair numa rodovia vicinal que corria paralela à “carretera” nacional.

Então, fleti à esquerda, e logo passava pela vila de Casazorrina.




Mais adiante, eu cruzei a Autovia Nacional e adentrei em outra trilha bastante fresca e matosa, onde atravessei o rio Nonaya, um belo curso d’água, utilizando a Passarela de “la  Debesa”.

Na sequência, caminhei ainda uns 1.000 metros por uma senda úmida e barrenta, até sair em zona urbana, e logo aportei no “casco viejo” de Salas.

Ali fiquei hospedado no Hotel Soto, localizado na praça principal dessa graciosa urbe.

A cidade, fundada em 1.270, é outra das vilas erigidas a mando de Alfonso X, “El Sábio.

A torre medieval, que hoje faz parte do Palácio de Valdés-Salas, sucedeu o antigo castelo, que em 1.120 foi doado pela rainha Urraca ao conde Suero Bermúdez, e que formou o primeiro núcleo ao redor da qual se desenvolveu a povoação.

Nesse passo, vê-se que, como nos casos das cidades de Grado e Cornellana, Salas foi favorecida por estar situada na rota comercial do Caminho de Santiago.

A citada torre e o Palácio de los Valdés se encontram no centro da vila, e foi ali que nasceu o famoso Don Fernando de Valdés-Salas (1.483-1.586), que foi arcebispo de Sevilha, Inquisidor Geral na Espanha e fundador de Universidade de Oviedo.

Esse conjunto monumental abriga hoje um hotel, a casa de cultura do município e um museu pré-romântico.

Depois de um ótimo almoço e uma necessária soneca, fui visitar a igreja romântica de San Martin, que corresponde à antiga Collegiata de Santa Maria, “a Maior”, uma construção deveras preciosa.



Toda edificada em estilo gótico, foi erigida no final do século XV.

Ela possui uma só nave quadrada, com cabeça pentagonal, coberta por uma abóboda em forma de estrela, conta com retábulos barrocos do século XVII, e um mausoléu em seu interior.



Na sequência, fui até o albergue carimbar minha credencial.



O refúgio ainda estava fechado, pois ainda não havia chegado nenhum peregrino, porém como as chaves ficam no Bar Pacita, acabei “sellando” meu documento ali mesmo.

Em seguida, eu fui ver o local por onde eu deixaria a cidade na manhã seguinte e, depois, passei num supermercado para me prover de víveres.

À noite eu ingeri um lanche num bar próximo e logo me recolhi.



IMPRESSÃO PESSOALUma jornada relativamente curta e sem grandes dificuldades altimétricas, sempre em meio a extensos bosques e pastagens. No geral, um dos percursos mais bonitos e tranquilos de todo o Caminho Primitivo. E Salas, no final do roteiro, é uma cidadezinha sensacional, que impressiona por sua limpeza e pelos monumentos que abriga, todos extremamente bem conservados.


3º dia – SALAS à TINEO