3º dia – SALAS à TINEO

3º dia – SALAS à TINEO – 21 quilômetros

"É bom ser importante, mas o importante é ser bom." (Indira Gandhi)

 

A jornada afigurava-se tranquila em termos de extensão, muito embora ela fosse integralmente em ascenso, já que eu estava a 250 metros de altura e encerraria o percurso próximo dos 800 metros de altitude.

Como de praxe, levantei às 5 h, tranquilamente me preparei para a lide do dia, depois tomei o café que a proprietária deixara preparado dentro de uma garrafa térmica, acompanhado de frutas e um apetitoso pão sovado.

Pontualmente, às 6 h eu deixei o local de pernoite, seguindo em direção ao Palácio de los Valdés, caminhando por ruas silenciosas, onde um vento frio e cortante era a tônica.

Mais à frente, eu derivei à direita, subi por uma rua empedrada e logo acessei uma larga estrada de terra, situada em meio a frondoso bosque.

Ainda estava escuro, no entanto, eu portava minha lanterna palito que clareava a trilha bastante larga, de forma que não tive problemas para encontrar meu rumo.

Sempre em perene ascensão, aproximadamente uns 500 metros depois, eu passei pela “Fuente de Pain”, restaurada em 2.004, e que se encontra debaixo de enormes pés de castanheiras.

Lentamente o dia principiou a clarear, e logo eu avistei, pelo meu lado direito, as ruínas de uma casa com um grande buraco próximo de sua lateral, possivelmente uma escavação feita por mineiros, em tempos idos.

Ali também havia um pequeno arroio e uma ponte de madeira, que seguia em direção à mata sem fim.

Notei que talvez existisse alguma trilha vicinal.



Prossegui, obedecendo as flechas, por larga vereda e dois quilômetros depois passei pela “Puente de Borra”, uma construção do século XVII, integralmente preservada.

Mais um quilômetro percorrido e cheguei à “Puente del Cartabón”, também do século XVII, quando meu relógio marcava 6 h 45 min.



Iniciou-se, então, uma íngreme subida até que, já no plano, desemboquei na Autovia N-634, na altura de seu quilômetro nº 458.

Neste local, segui com muito cuidado, pois naquele trecho não existe acostamento, embora fosse ainda muito cedo e o tráfego de veículos praticamente inexistente.

Logo à frente, depois de uma grande curva, e obedecendo a sinalização, eu adentrei numa trilha bastante suja, à esquerda, e prossegui subindo, enquanto observava as obras da Autovia Nacional existente nesse trecho, o que obriga os caminhantes a fazer uma longa volta.

Nesse percurso não avistei flechas sinalizadoras, o que me deixou um tanto inseguro, porém fiquei aliviado, quando no alto do espigão, eu vi um “mojón”, remetendo-me à direita, em direção à aldeia de Perciles, distante 4 quilômetros de Salas.

Ali não observei nenhum tipo de serviços, apenas senti um vento frio e cortante que varria a campina à minha volta.

Prossegui bordejando a rodovia N-634 por quase uma hora, tendo a linha férrea paralela ao meu lado direito, até que, mais adiante, passei defronte ao cruzeiro de Bodenaya, uma obra do século XX.

Dez minutos depois, se tanto, eu adentrei ao albergue de Bodenaya, talvez o mais famoso dentre os existentes nesse roteiro, pelo excelente e diferenciado tratamento que dispensa aos peregrinos.




Ali pude conhecer o Alejandro, proprietário e hospitaleiro daquele refúgio, bem como fazer uma foto em sua companhia.


Interior do albergue Bodenaya


Ele e um ajudante estavam iniciando a limpeza do local, pois todos que ali haviam pernoitado já haviam partido, de maneira que para não atrapalhá-lo ainda mais, apus um “sello” em minha credencial, e depois me despedi fraternalmente daquela magnífica pessoa.

Não sem antes ser presenteado por ele, com um broche, constituído por uma flecha amarela, símbolo daquele decantado local e que prontamente afixei em meu boné, como sinônimo de boa sorte.

Quinze minutos depois, 9 quilômetros vencidos, eu adentrei em La Espinha, uma povoação basicamente de serviços, graças aos caminhos que nela se entrecruzam, tanto para ir ao noroeste e subir em direção a costa, como também para o sudoeste.

Fruto dessa importância, a localidade manteve em tempos de outrora dois hospitais de peregrinos, um fundado pelo Arcepisto Valdés-Salas e outro pertencente a igreja de Compostela.

O termômetro de uma farmácia à beira da rodovia N-634, que corta toda a cidade, marcava 8 graus naquele momento, bastante frio para aquele horário.

Também avistei dois bares abertos, onde eu poderia complementar meu desjejum, porém eu estava bem alimentado e resolvi seguir adiante.

O trajeto bem sinalizado me levou a passar pelo povoado de Pereda e, mais abaixo, até a ermida de “Cristo de los Afligidos”, do século XV, onde eu girei à direita, e adentrei numa trilha matosa, em forte ascenso.

Cem metros depois, eu topei a peregrina alemã com quem havia conversado na primeira jornada.



Ela estava sem mochila, se espreguiçando, sentada num muro de pedra, num local alto, de onde tinha uma vista privilegiada da paisagem em derredor.

Ao meu cumprimento, contou que havia pernoitado no albergue de Bodenaya e naquele dia ainda não sabia até onde seguiria, contudo, pensava dormir em Borres, 24 quilômetros à frente.

Cordialmente nos despedimos e logo depois, utilizando uma senda existente em meio a um pasto verdejante, eu encontrei uma fonte de água cristalina, num local onde também existe uma máquina para venda de refrigerantes.



Ali fiz uma pausa para matar a sede e conversar com outro peregrino jovem, que descansava no local.

Contou-me que se chamava Enrique, residia em Barcelona, e ao saber de minha nacionalidade, seguiu junto comigo, conversando alegremente, pois, por coincidência, era casado com uma brasileira.

Logo passamos pelas vilas de La Millariega e, quase grudada nesta, a aldeia de El Pedregal, onde pude fotografar a igreja de “Los Santos Justo e Pastor.

Já saindo do pequeno “pueblo”, as flechas me direcionaram para o campo, em forte ascenso, à direita.

Naquele lugar, o meu companheiro estacou para atender seu celular, sentou-se numa pedra e me acenou dizendo adeus.

Assim, eu prossegui adiante escoteiro, e nunca mais eu o encontrei.

Por uma estrada larga e levemente ascendente, localizada entre grandes pastagens, eu transitei pelas pequenas aldeias de Santa Eulália, El Zarracin e, no final de uma sofrida ladeira, passei defronte à igreja de San Roque, já próximo do final de minha jornada.

A ermida, conforme conta a tradição, foi fundada pelo próprio santo e erigida por peregrinos franceses ao final do século XII, sofrendo depois sucessivas reconstruções, embora ainda conserve detalhes de sua origem românica.

Fazia um grande calor no momento que ali passei, de maneira que fiz uma pausa naquele local para me hidratar, visto que o lugar possui frondosas árvores em seu redor.



Ermida de San Roque, século XII


Na sequência, eu passei a caminhar pelo alto da montanha, por uma via asfaltada que faz parte de uma “ruta verde”, onde existem bancos de madeira alocados a cada 100 metros, para descanso e desfrute do grande vale que se descortina abaixo.

Para descer ao povoado, segui pelo “Paseo de los Frailes”, ainda me deliciando com o belo panorama que dali se vê.

Nesse trecho, a única curiosidade a destacar:  uma escultura de ferro, que representa um peregrino, fincada junto a um relógio de sol.

Quinze minutos depois, eu acessei umas escadarias, e segui por uma avenida em franco descenso até aportar no centro de Tineo, quando meu relógio marcava 10 h 30 min.

A cidade, capital do conselho de mesmo nome, já era importante durante a época do Império Romano.

O seu momento de maior esplendor foi durante os séculos XII e XV, época de grande afluência de peregrinos que, em seu trânsito para Compostela, tinha o dever de passar pelo Monastério de Santa Maria la Real de Obona, situado próximo dali.

Seu relevo é extremamente montanhoso, porque a maior parte de seu município está localizado dentro da serra do Rañadoiro, com abundantes desníveis e pronunciados costados.

Os romanos, aproveitando as ruínas de um antigo povoado celta, levantaram muralhas com fortaleza e centro administrativo que, com o tempo, se converteu em uma vila medieval, a qual em 1.222 o rei Alfonso IX concederia a autorga de “povoação real”.

Na cidade fiquei hospedado na Pensão Tineo, cujo proprietário, o simpático Sr. José, me cobrou um preço bastante convidativo pela minha condição peregrina.

Após nutritivo almoço e uma boa sesta, pois fazia bastante calor, dei uma volta pelo simpático povoado e aproveitei para conhecer a igreja de San Pedro, cuja estrutura era de um antigo convento de franciscanos do século XIII.



Depois segui até o prédio del “Ayntamiento”, e pude observar ao lado dele o faustoso Palácio de Merás, uma edificação do século XVI, que constitui uma das poucas amostras do renascimento nas Asturias.

Em seguida, me dirigi ao albergue “Mater Christi”, localizado no bairro del Visa, para carimbar minha credencial.

Ele está situado na entrada do povoado, junto ao ambulatório municipal, num edifício que abriga em sua parte superior os Sindicatos de Trabalhadores que, por coincidência, naquela data, através de cartazes chamativos, instigavam a população a uma greve geral.


Com o Sr. José, proprietário da pensão e do restaurante Tineo


IMPRESSÃO PESSOALUma jornada curta, sem muitos percalços, porém mal sinalizada no trecho onde estão sendo realizadas as obras da Autovia Nacional. No geral, plena de muito verde e com passagem por alguns povoados que disponibilizam serviços essenciais, como bares e “tiendas” aos peregrinos.


A cidade de Tineo, vista do cimo do morro que a circunda

4º dia – TINEO à POLA DE ALLANDE