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3º dia – OLVEIROA a MUXIA – 34 quilômetros


3º dia – OLVEIROA a MUXIA – 34 quilômetros

"Quanto mais pesado o nosso fardo, maior será a nossa força."



A jornada seria longa, por isso e, como de praxe, deixei muito cedo o local de pernoite.

O dia estava clareando ao redor das 7 h, assim, segui com minha lanterna na mão nesse primeiro trecho.

Eu segui por uma rua asfaltada e, duzentos metros adiante, observando à sinalização, girei à esquerda.

Então, por uma ponte, atravessei um riacho e acessei uma trilha que logo desembocou numa estrada larga de terra, e seguiu em direção ao Embalse de Castrelo.

Fazia frio e ventava bastante quando prossegui em ascensão na direção de um parque eólico, onde ouvia as pás dos geradores rodarem em alta velocidade. 


Mais um dia amanhecendo. Desta feita, eu estava junto a um parque eólico.

Com o dia clareando, acessei uma senda que seguiu avançando pelas faldas da montanha, me proporcionando vistas incríveis do rio Xallas que, nesse trecho, flui por um desfiladeiro bastante arborizado.

Descendi, depois, até Vao de Ripas, cruzei o rio Hospital por uma ponte de pedra e prossegui em leve ascensão.

Um quilômetro depois, adentrei em Logoso, uma minúscula aldeia situada nas ladeiras do monte Castelo. 


Em O Logoso.

Ali existe um albergue e alguns peregrinos já se movimentavam para iniciar a jornada do dia. 


Trilhas frias e arejadas.

Conversei rapidamente com 3 espanhóis, depois segui os sinais jacobeus e logo acessei um caminho bucólico, orlado por pinheiros, onde prossegui solitário. 


O dia ainda não amanheceu.

O dia lentamente raiava quando atravessei o “pueblo” de Hospital; ali acessei a rodovia CP-3404, onde prossegui caminhando pelo acostamento. 


Seguindo em direção a Dumbría.

Percorridos 6 quilômetros, numa rotatória, encontrei uma bifurcação: se seguisse à esquerda, iria a Finisterra. 


Bifurcação dos Caminhos. Eu segui, à direita, em direção a Muxía.

Porém, como adredemente planejado, tomei à direita, e prossegui em direção a Muxía, minha meta para aquele dia. 


Entorno florido.

Segui algum tempo em descenso e pela rodovia DP-3404, acompanhado pelos gigantes do parque eólico, enquanto observava o entorno, que se mostrava maravilhoso e florido. 


Silenciosos bosques galegos.

Um quilômetro depois, acessei uma trilha situada à esquerda, por onde segui atento, entre silenciosos bosques galegos. 


Muito verde.

A paisagem se mostrou espetacular, com muita vegetação a me rodear. 


Ninguém a vista...

O caminho, sempre em leve descenso, me proporcionou momentos de raro silêncio e introspecção. 


Descendendo sempre...

A cada curva, novas paisagens se abriam ante meus olhos, e eu curtia tudo aquilo, com o espírito em regozijo. 


Caminho maravilhoso nesse trecho.

Um pouco mais à frente, transitei por asfalto outra vez e, descendo, passei por As Carizas, aldeia da paróquia de Santa Baia de Dumbría 


Bosques silenciosos....

Difícil descrever a sensação de quietude e silêncio a me rodear e que, ao mesmo tempo, provocavam uma sensação de incrível deleite pela beleza que o florido entorno me proporcionava. 


O verde prossegue...

Impossível esquecer esses momentos vivenciados entre a exuberante natureza que, nessa região, está integralmente preservada. 


Caminho inesquecível..

Quase sem sentir, depois de mais três quilômetros percorridos, adentrei em zona urbana e logo passei diante do alberque de peregrinos de Dumbría. 


Albergue de Peregrinos de Dumbría.

Trata-se de um edifício vanguardista, inaugurado em 2010, que oferece todas as comodidades que o peregrino necessita.

Prosseguindo, logo passei diante de uma praça onde existe um bonito hórreo, um cruzeiro e, ao fundo, a igreja de Santa Eulália, uma construção do século XVII. 


Ao fundo, a igreja de Santa Eulália.

E logo adentrei ao povoado de Dumbría, cujo nome, de reminiscências celtas, provavelmente se referia a existência de um povoado fortificado.

Trata-se de um município basicamente rural, de geografia acidentada e cheio de contrastes.

Desde seus suaves vales, sulcados por uma infinidade de rios, até as pronunciadas arestas do Monte Pindo e a enseada de Ézaro.


Curioso muro de um escola, quase na saída de Dumbría.

Eu segui pela rodovia, mas estava encontrando dificuldades com a sinalização.

Assim, confirmei meu rumo com um senhor idoso e ele, amavelmente, fez questão de caminhar ao meu lado até a saída do “pueblo”, onde segui à esquerda, por uma rodovia vicinal.

Depois de ultrapassar o rio Fragoso por uma ponte, com muito cuidado, atravessei a “carretera” AC-552, que liga A Corunha a Finisterre, uma rodovia bastante movimentada. 


Caminho levemente pedregoso.

Logo à frente, surgiu um espetacular caminho de terra, localizado entre muros de pedra e pés de eucaliptos. 


De volta ao campo...

Com início pedregoso, mais acima, passei a caminhar sobre grama, o que meus pés agradeceram. 


Bosques silenciosos.

Em determinados trechos desse lindo trajeto, também fui ladeado por flores e pinheiros. 


Ladeado por muros de pedra.

Nesse trecho, extremamente belo e verdejante, transitei por pequenos ascensos e descensos, nada importantes em termos de altimetria. 


Muitas flores no entorno.

Mais adiante, acessei uma estrada vicinal asfaltada, ladeada por eucaliptos, por onde prossegui solitário. 


Solidão total.

Um caminho de terra, retilíneo, me mostrava, ao longe, a cidade de Trasufre, por onde eu transitaria. 


Caminho direto para Trasufre.

Esse pequeno povoado alberga a capela de Nossa Senhora do Espino, e recebe todo terceiro final de semana de setembro grandes romarias, que vão curar suas verrugas em uma fonte. 


No entanto, o roteiro segue por asfalto.

Contudo, o roteiro não adentra a essa aldeia. 


Quase chegando a Trasufre.

Ao revés, rodeia a população, passa diante do cemitério e prossegue à esquerda, em meio a grandes campos de cultivo. 


Cruzeiro e cemitério local.

Pouco depois, por uma ponte, ultrapassei o rio Castro, que corre praticamente oculto por um frondoso bosque ciliar localizado em suas margens.

Esse valente riacho viaja por 30 quilômetros, desde o monte Escaleira, onde nasce, até desembocar na “ría” de Lires. 


De volta aos campos...

O trajeto prosseguiu belíssimo, sempre em meio a bosques e com muito verde no entorno. 


Mais flores para alegrar o dia..

O piso de terra socada me permitiu seguir num ritmo uniforme e, nesse trecho, encontrei um jovem, com mochila, que caminhava no sentido oposto. 


Bosques de eucaliptos.

Possivelmente, estava retornando a Santiago, e passou por mim sem cumprimentar ou dar mostras de ter me visto. 


Caminho arejado e retilíneo.

Algo estranho, em se tratando de um peregrino. 


Mais eucaliptos.

A paisagem prosseguiu esplêndida e nesse trajeto de aproximadamente 4 quilômetros, também, não avistei outros caminhantes.

Possivelmente, porque o pessoal havia saído mais tarde dos albergues, e estavam à minha retaguarda. 


O passeio prossegue.

O caminho nesse trecho faz vários giros, alguns de 90 graus, mas a sinalização estava estupenda e não tive problemas quanto ao rumo a tomar.

O dia se apresentava fresco e úmido, excelente para caminhar. 


Tudo muito vazio e silencioso.

Segui num passo uniforme e pude desfrutar da tranquilidade que os bosques galegos nos proporcionam. 


Igreja matriz de Senande.

Depois de caminhar por 16 quilômetros, transitei por Senande, o núcleo maior da paróquia de São Cipriano de Vilastrose e se encontra exatamente na metade da etapa do dia.

Do lado direito avistei um bar e, ao lado dele, uma “tienda”, onde poderia adquirir mantimentos, se fosse necessário.

Mas, eu estava bem fornido e segui adiante, agora à esquerda. 


Muito verde no entorno.

O caminho prosseguiu belíssimo, com muito verde no entorno. 

Caminhando sem maiores dificuldades, transitei por vários e minúsculos povoados como Agrodosia, Vilastose e Casanova. 


Poucos peregrinos nesse dia.

Ainda que existam casas nas imediações, o caminho avança em um corredor verde, extremamente belo e arejado.

Posteriormente, passei por A Grixa e, quatro quilômetros depois, pelo povoado de São Martinho de Ozón. 


Frutas para os peregrinos.

Passei diante de um cruzeiro onde havia uma mesa e sobre ela, frutas à disposição dos peregrinos, que poderia fazer o pagamento diretamente num pequeno cofre.

Ali existe um albergue, localizado dentro de um convento, mas não vi ninguém se movimentado pelo interior ou próximo da antiga habitação.

Visualizei também um grande hórreo, um dos maiores de toda a Galícia, que se sustenta em 22 pares de pés e mede mais de 27 metros. 

Desafortunadamente, não o fotografei.

Contudo, já conhecia aquele monumento localizado no povoado de Carnota, o maior de todos, que mede 37,74 metros. 


Mais eucaliptos, a tônica do dia.

Na sequência, passei por Vilar de Sobremonte, depois me internei em outro fantástico bosque de eucaliptos. 


Bosques maravilhosos.

Brilhava um sol fraco e pude seguir com tranquilidade por seu belo interior. 


Padre Paulo, em primeiro plano, e amigos italianos.

Já estava descendendo em direção à aldeia de Merexo, quando reencontrei com o Padre Paulo e o casal de italianos, que conhecera na primeira etapa.

Cotejamos nossos roteiros, conversamos sobre a rotina daquele dia, depois segui adiante, pois eles estavam caminhando num ritmo bastante confortável, embora também fossem pernoitar em Muxía. 


Primeira visão do mar, próximo a Muxía.

Daquele local, eu já podia avistar o mar e aquela visão fantástica me infundiu um novo ânimo.

Porém, ali havia uma bifurcação e o trajeto segue à esquerda, por uma rodovia asfaltada, que vai bordeando a costa.

Posteriormente, um outro agradável caminho gramado me levou até a aldeia de Os Muiños. 


Caminho gramado.

Uma placa colocada à beira da rodovia, alertava a sinalização que Muxía estava a apenas 3 quilômetros.

Mas, pelo roteiro oficial do caminho, restavam mais de 5 quilômetros. 


Subindo para Moraine.

Porque, depois de descender por um caminho asfaltado, prossegui em ascenso, por uma escadaria, na direção de Moraine. 


Ascendendo em direção ao monte São Roque.

Depois prossegui novamente em ascensão, agora por asfalto, em direção ao cume do monte de São Roque.

Infelizmente, a memória de minha máquina fotográfica estava se esgotando e precisei diminuir a quantidade de pixels das fotos, para poder acrescer algum espaço. 


O caminho prossegue lindo...

Dessa forma, sua qualidade decaiu bastante. 


Descendendo forte...

O descenso do morro foi tranquilo e logo cheguei junto ao mar, na praia de Espiñeirido. 


Muxía já está a vista.

Prossegui por uma passarela de madeira e logo adentrava em Muxía, através da rodovia AC-440.

Fiquei hospedado no Hostal La Cruz, localizada na entrada da povoação, onde paguei 30 Euros por um excelente quarto individual.

Almocei no restaurante localizado no piso térreo do estabelecimento, onde pude degustar um excelente menu peregrino por 10 Euros.


Pria de Espiñeirido

Muxía é uma vila marinheira da Costa da Morte, localizada ente os montes Corpiño e Enfesto, e a capital de um município integrado por 14 paróquias que, juntas, somam apenas 5.500 habitantes.

É cada vez maior o número de peregrinos que dilatando ao máximo a sua aventura, chegam a essa cidade depois de transitar por Finisterra, ou vice-versa. 


Placa explicativa.

Manuel Vilar finaliza o seu livro “Viaje al Fin de la Tierra”, dizendo que a lenda da aparição da Virgem de la Barca é o contraponto final a esse Caminho, e a vincula claramente com o culto Jacobeu, ainda que a construção desse misticismo seja posterior ao nascimento do culto a Santiago na Galícia.

E na sua elaboração e difusão teriam um papel importante os frades do convento de Moraime, em sua intenção de dar um protagonismo a esse território que poderíamos qualificar como de “periférico”.

Não há documentos que atestem a data exata de sua fundação, porém ela recebeu o estatuto de vila no ano de 1345. 


Centro urbano de Muxía.

Invadida por tropas francesas em várias ocasiões, ela já se destacava pela atividade pesqueira desde o início do século XIX, sobremodo, de sardinhas e congros.

Atualmente, a cidade tem a base de sua economia na atividade pesqueira, inferior a décadas passadas, e no setor de serviços, mormente o turismo.

Em seu patrimônio cultural se destaca a igreja paroquial de Santa Maria e o Santuário da Virgem da Barca, epicentro de uma popular romaria, das mais concorridas da Galícia, que se celebra em setembro. 


Santuário da Virgem da Barca. Ao fundo, à direita, monumento em memória ao desastre do Prestige.

No dia da Natividade de 2013, o Santuário sofreu um trágico incêndio que assolou boa parte de sua riqueza patrimonial, e as obras de sua reconstrução se alargaram durante 2014 e parte de 2015.

A cidade também é sede de muitas festas gastronômicas de relevância, que têm como protagonistas principais o congro e o polvo, e durante todo o ano se pode aproveitar a visita a essa vila para provar de sua oferta de percados e mariscos. 


Famosa Costa da Morte.

Em Muxía ainda existem vários locais específicos para a secagem dos congros, os últimos podem ser encontrados na Costa da Morte.

Alguns deles se encontram instalados no caminho que segue ao Santuário da Virgem de la Barca e se trata de estruturas realizadas com troncos de madeira, chamadas cabrias, onde se pendura o pescado para expô-lo ao sol. 


Costa da Morte...

À tarde, depois de uma reparadora soneca, atravessei toda a povoação para ir visitar o Santuário de la Virgem de la Barca.

A origem de uma capela nesse local pode remontar aos séculos XI ou XII, porém o primeiro documento a fazer referência ao Santuário data de 1544.

O templo atual foi construído em 1719, em estilo barroco, e com uma só nave.

Em seus arredores se encontram a “Piedra de Abalar”, a “Piedra dos Cadrís” e a “Piedra do Timón”, que guardam relação com a lenda da chegada da Virgem Maria a essas costas, numa barca de pedra, e sua aparição ao Apóstolo Tiago. 


Santuário da Virgem da Barca.

A LENDA

A história mais primitiva da vila de Muxía está ligada à existência de um conjunto de pedras situadas na “Punta da Barca” e ao culto do tipo místico religioso que ao largo dos séculos se praticou sobre elas.

Esse conjunto deu origem a uma mescla de ritos e criações legendárias pré-cristãs que perduram até nossos dias.

Sem dúvida, a Pedra de Abalar, que tem um perímetro de 30 m, uma espessura entre 15 e 30 cm, uma longitude de 8,70 m e uma largura de quase 7 m, foi a que despertou mais curiosidade e atração.


PEDRA DE ABALAR 


São muitas as propriedades que lhe atribuem, desde uma finalidade adivinhatória até ser um instrumento para provar a culpa ou inocência das pessoas.

Ela não deixou de “abalar” durante centenas de anos, porém, em dezembro de 1978, um forte temporal assolou a costa galega e a deslocou de seu lugar primitivo, rompendo-lhe um pedaço, que fora reparada mais tarde, em várias ocasiões.

Sobre ela existem muitas lendas que são difundidas pelos moradores locais, que contam, dentre outras que a pedra “abala” quando quer.

Às vezes, colocam muitas pessoas sobre ela e ela não se move e outras vezes ela “abala” sozinha. 



Sobre a Pedra de Abalar.

Também dizem que quando ela “abala” só, está predizendo alguma desgraça.

Com a cristianização desse lugar, apareceram novas lendas sobre essa pedra.

Uma crendice popular dizia que se a pedra se movesse quando alguém estivesse sobre ela, essa pessoa estaria livre de seus pecados, ocorrendo o inverso, quando ela não se abalasse.

Nos dias de festa na cidade, muitas pessoas se dirigem a essa pedra com a pretensão de fazê-la abalar, interpretando seu movimento como boa disposição da Virgem Maria em conceder o que lhe é pleiteado.

Vicente Risco comenta que durante a Guerra Civil entre Castilla e Portugal, que durou sete anos, a pedra não “abalou”.

Conta-se, ainda, que numa ocasião quiseram roubar o Santuário e a pedra começou a “abalar” tão forte que o barulho despertou todos os moradores, assustando os ladrões. 


A famosa pedra dos Cadrís.

PEDRA DOS CADRÍS


Segundo a lenda cristã, essa pedra simbolizaria a vela da embarcação em que a Virgem Maria apareceu a Santiago, tem a forma de rim ou o osso ilíaco, segundo se olhe, e a ela se atribuem propriedades curativas para dores nas costas, reumatismo, etc.

Para que essas doenças se sanem é preciso passar nove vezes por debaixo dela.

Há uma outra pedra situada próximo dali, que eu não avistei, chamada “Pedra do Timón”, por sua similaridade com o timão de um barco, também relacionada com a lenda da Virgem Maria.

Existe outra, denominada “Furna dos Namorados”, que é isenta de conotações religiosas, localizada num local discreto, e sobre ela os enamorados juram amor eterno.


Não tive condições físicas para passar por debaixo dela.

Na cristianização do lugar das pedras da “Punta da Barca”, onde se praticavam cultos pagãos, tiveram muita importância os monges do Monastério de Moraime, localizado próximo dali, que deram origem a aparição de várias lendas do tipo cristão, que tinham como principal finalidade impedir a propagação de cultos pagãos.

A principal dessas lendas é a que se refere a aparição da Virgem Maria ao Apóstolo Santiago, o que justificou a construção da primeira capela naquele lugar.

Conta a tradição que durante as pregações do Apóstolo pela Comarca Ártabra, cidade de Duio (Comarca de Finisterra) acabou submergindo sob as águas, desaparecendo todos os seus habitantes, como castigo por desobedecerem às suas predicações e se renderem ao culto do sol.

Então, o Apóstolo retirou-se à solitária Comarca de Muxía. 


Ainda, a Pedra dos Cadrís.

Ali, ele parou na “Punta de Xaviña” a rezar e suplicar ao Senhor para que o povo local cessasse sua aversão com que eram acolhidas suas pregações.

De súbito, o Apóstolo avistou uma barca misteriosa que se achegou à beira do mar e nela ele contemplou a Virgem Maria plena de formosura e majestosidade. 


Santuário da Virgem da Barca, de outro ângulo.

A Virgem então o cumprimentou e lhe comunicou o êxito de suas pregações na Espanha, ordenando-lhe que retornasse a Jerusalém, visto que sua missão naquelas terras já estava cumprida.

A embarcação em que Maria estava era feita de pedra e, também a vela e o timão, que ficaram ali depositadas.

A barca seria a “Piedra de Abalar”, a vela, a Piedra de los Riñones (Pedra dos Cadrís), e o timão, a “Piedra del Timón”.

Conta a lenda, ainda, que a Virgem, como prova do seu amor pelo Apóstolo, lhe deu uma imagem sua, a quem Santiago colocou num altar levantado junto àquelas pedras.

No retorno ao local de pernoite, por indicação de um peregrino, me dirigi ao Albergue-Privado Bela Muxía, para receber minha Muxiana. 


O hospitaleiro Angel, pessoa boníssima!

O Sr. Angel, o albergueiro/recepcionista, que possui antepassados de origem portuguesa, atendeu-me com extrema amabilidade.

Trata-se de uma pessoa atenciosa, simpática e prestativa, condições essenciais para quem desempenha estas funções. Ele me deu informações sobre a história cidade, bem como me presenteou com um livro.

Depois, emitiu e me entregou a “Muxiana”, diploma que guardo com muito orgulho.

Após fraternais despedidas, e quando voltava ao hostal onde me alojara, observei o céu escuro, o mar encrespado, e pude ver no horizonte uma forte tempestade se aproximando, vinda do sul.

Estuguei meu passos, enquanto indagava se a chuva se estenderia também até o dia seguinte, quando encetaria a derradeira etapa de minha peregrinação. 


Minha Muxiana, diploma que guardo com muito prazer e orgulho!

Se isso realmente ocorresse, eu deixaria de curtir e contemplar, talvez, a etapa mais bela e mística do Caminho de Finisterra.

Numa esquina, assustado, dei de chofre com um urubu pousado na grade que protegia uma estátua, observando atentamente o ambiente.

E não sei porque, mas interpretei aquele “encontro” como uma resposta de mal agouro às minhas perquirições internas.

Porquanto, não sou supersticioso, mas, em terras de “nuestros hermanos”, esse ditado tem muita força: “Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem!”

A borrasca abateu-se assim que adentrei em meu quarto e seguiu com força noite afora.