17ª Jornada - VILLAVICIOSA a GIJÓN

17ª Jornada – Villaviciosa à Gijón - 27 quilômetros: “Uma etapa confusa e desgastante!” 


               Aparentemente, o percurso não apresentava grandes problemas em termos de sinalização, ao menos pelo que vislumbrei em meus mapas, embora precisasse vencer duas extensas e íngremes ladeiras.

            Para compensar, a chuva se fora e a meteorologia previa um dia nublado até às 10 h, porém, com muito sol depois desse horário.

            Assim, levantei às 5 h e, bem alimentado, parti às 6 h, sob um frio intenso, aliado a um enregelante vento que soprava do mar.

   Segui escoteiro por ruas desertas e bem iluminadas, onde pude avistar a sinalização do Caminho, feitas em bronze, inseridas no pavimento urbano e, também em cerâmica, incrustadas nas paredes.

            Na sequência, passei defronte à estação rodoviária local e, logo adiante, girei à esquerda, seguindo pela rodovia AS-255, em direção ao povoado de Infiesto.

            Mais abaixo passei diante de uma estrada vicinal que leva o peregrino em direção à igreja de San Juan de Amandi, um santo bastante cultuado na região.

   Passei junto de uma bela fonte de água, feita de pedra bruta e, depois de 2 quilômetros caminhados, já próximo do hotel La Casona, prossegui à direita.

            Mais à frente, ultrapassei o rio Linares por uma ponte medieval construída integralmente em pedra e logo chegava à La Parra, um pequeníssimo povoado, onde tudo permanecia quieto e tranquilo, sendo o silêncio quebrado, de quando em vez, pelo alarido proveniente do ladrar dos cães.

            Mais um quilômetro caminhado, às 7 h, com o dia amanhecendo, aportei no bairro de Casquita, que pertence ao município de Grases e, defronte à entrada da fábrica de Sidra “El Traviesu”, encontrei a tão aguardada bifurcação dos caminhos Jacobeus:



            Se seguisse à esquerda, iria em direção à cidade de Oviedo, início do Caminho Primitivo.

            Contudo, face ao cronograma adredemente estudado, minha intenção era continuar pelo “Caminho do Norte”, de forma que prossegui à direita, ainda por uma rodovia vicinal, de escasso tráfego de veículos.

            

            Quinhentos metros à frente, as flechas me direcionaram à esquerda, para um caminho em terra, por onde segui em meio a muito verde, com grandes pastagens ao redor, onde avistei numerosos rebanhos de gado leiteiro se movimentando em direção do campo, após a ordenha matutina.

            O clima estava úmido e frio, com um pouco de neblina ao derredor, ou seja, ótimo para caminhar, de forma que logo eu estava em Grase de Abajo, um povoado com poucas casas, todas esparramadas ao redor de uma igreja, pela qual passei ao largo.

            Em seguida, ultrapassei uma rodovia por um túnel e de volta ao asfalto, principiei a subir.

            Já no alto do morro, prossegui caminhando à direita, como ordenavam as flechas amarelas, porém, depois de l quilômetro percorrido, estaquei confuso, pois, em meu conceito de direção, eu estava retornando ao local de partida, posto que de manhã sempre tinha o sol pelas costas e, naquele instante, observava-o brilhante à minha frente.

            A estrada se perdia em meio a um grande vale, fazendo curvas e serpenteando ao longo de um bosque, de forma que, confuso, parei e fiquei a estudar meus mapas, contudo não logrei entender o ocorrido.

            


            Como nenhum veículo transitou por aquele local enquanto ali estive, resolvi retornar uns 500 m, até um local onde havia avistado um caminhão carregando troncos de eucaliptos recém-cortados, posto que eu estava me sentindo totalmente perdido no roteiro.

            O simpático caminhoneiro, ao me avistar, desligou o equipamento que manuseava, desceu da plataforma e veio parlamentar comigo.

            Explicou-me que eu realmente precisaria dar uma grande volta, por conta das obras da autovia nacional, assim, eu estava certo em meu rumo, o que muito me tranquilizou.

            Depois de agradecê-lo efusivamente, prossegui adiante e depois de uns 2 quilômetros, ultrapassei a Autovia Nacional por uma moderna ponte metálica e, já do outro lado, após transitar por uma estrada vicinal, para minha alegria, reencontrei as flechas amarelas.

            Segui, então, em meio a muito verde, até que as flechas me direcionaram para uma estradinha à esquerda.





            Após vencer pequena elevação, passei defronte uma velha igreja e, logo depois, defronte umas casas esparsas, que me pareceram abandonadas, pois não visualizei movimento de pessoas ou animais, apenas mato alto ao derredor das construções.

            E, para meu azar, misteriosamente, as flechas sinalizadoras haviam novamente desaparecido.

            Eu estava confiante, pois não observara nenhum cruzamento ou alternativa por onde eu pudesse me perder, assim, segui adiante, ainda que um tanto preocupado.

            Depois de um bom tempo sem avistar sinalização, cheguei a uma trifurcação, onde também não observei nenhuma seta amarela.

            E agora, para onde ir, pensei? Definitivamente, eu estava perdido de novo.

            Postei-me a consultar os mapas que portava, mas não cheguei a nenhuma conclusão de onde eu havia me extraviado.

            Por sorte, um carro se aproximava e, tamanho era o desespero que me possuía, postei-me no meio da estrada, de maneira que, sem alternativa, o motorista precisou frear o veículo e me atender.

            Ao indagar-lhe o roteiro exato do Caminho, disse-me que realmente eu estava errado, pois o correto deveria ter seguido por uma estreita vereda que nascia próximo da igreja onde eu tinha passado, porém deveria ser algo tão dissimulado, que eu não a avistara.

            Porém, como forma de evitar que eu retornasse um quilômetro, ele sugeriu uma opção que também me levaria ao destino correto: eu deveria retroceder uns 300 metros, depois seguir à esquerda, em direção a uma casa amarela, posteriormente escalar um morro e, no topo, reencontraria com as benfazejas flechas sinalizadoras.

            Agradeci-lhe pela bondade e, incontinenti, reiniciei minha jornada.

   Pouco depois, encontrei a bifurcação indicada e prossegui adiante, em meio a muito verde, tendo um grande barranco a me acompanhar pelo meu lado direito.

            Num determinado ponto, a estrada girou drasticamente à direita e rapidamente tornou-se íngreme e penosa, de forma que fui avançando lentamente, enquanto uma bela visão do meu derredor ia se descortinando à medida que eu escalava a elevação.

            A estrada prosseguiu em meio a exuberante mata de eucaliptos, sempre em fortíssimo ascenso e, quando finalmente cheguei no topo, acabei desaguando perpendicularmente numa outra estrada asfaltada.

            Eu havia, finalmente, chegado ao Alto de la Cruz, contudo não vi flechas à minha frente, de forma que estaquei indeciso: para que lado seguir?

            Bem, no piso asfáltico eu localizei algumas flechas pintadas rusticamente à mão, indicando que eu deveria seguir à direita, em grande descida.

            Porém, lembrei-me de um alerta que havia visto em meus mapas: nessa jornada eu iria encontrar flechas amarelas traçadas em direção oposta àquela que eu seguia e deveria ignorá-las, pois pertenciam à sinalização do Caminho de Covadonga, que vai desde Gijón até o famoso “Santuário de los Picos de Europa”.

            Portanto, eles seguem o mesmo roteiro do Caminho de Santiago, ainda que em sentido contrário, contudo, o pessoal que demarcou tal roteiro, desafortunadamente o fez também em flechas amarelas, causando uma tremenda confusão mental para os peregrinos que se dirigem à Compostela.

            Naquele momento, indeciso, não sabia para qual lado seguir.

   Embora, meu raciocínio soubesse que o oceano estava à minha direita e a cidade de Gijón, minha meta para aquele dia, também ficava à beira-mar, de maneira que, intuitivamente, resolvi prosseguir nessa direção, em grande descenso.

            Mas, eis que após 800 metros, reencontrei as flechas do caminho e, surpresa, elas me mandavam retornar, pois aquelas que eu estava seguindo, pertenciam ao outro roteiro: não era para me desesperar?

            Sem opção, girei de volta e tudo aquilo que havia trilhado em descida, enfrentei agora em terrível ascenso, até o topo do morro, onde, finalmente, encontrei dados concretos, que concorreram para que eu relaxasse.

           

            

             Num mural instalado mais acima, pude comprovar que estava no “Cordal de Peón”, uma zona protegida, plena de extensos bosques de pinheiros.

             Satisfeito, fiz uma pausa para hidratação, ingerir chocolates e, ainda, passar protetor solar, pois o sol naquele horário, já estava crestando a pleno vapor.

             Na sequência, iniciou-se terrível descenso, sempre em meio a muito verde, ao qual fui vencendo em largas passadas, haurindo o agradável olor que se desprendia das imensas coníferas que me ladeavam.

             Três quilômetros abaixo, obedecendo a sinalização, adentrei numa trilha em terra que, em forte ascenso me levou, mais abaixo, junto a uma pista asfaltada, onde observei flechas amarelas para todos os lados.

             E aí, pensei, qual delas pertence ao Caminho de Santiago?

             Eu me sentia esgotado, verdadeiramente, numa tremenda confusão mental, sem saber, para que lado seguir e, pior, o local era extremamente deserto, de sorte que não tinha com quem tirar minhas dúvidas.

             Bem, avistei algumas casas no sopé da elevação, de forma que para lá me dirigi, coração aos saltos, pois, se estivesse errado, precisaria retornar ao ponto de partida.

             As habitações que ornavam a única rua do povoado me pareceram desertas, porém notei movimento numa delas, a maior de todas, assim, meio transtornado, toquei a campainha e, pela intercessão do Santo, após o terceiro toque, uma mulher jovem apareceu à janela.

             Ante minha indagação, respondeu que realmente, eu me encontrava no povoado de Peón, porém como ela só transitava de automóvel por aqueles vales, não tinha informação precisa por onde transcorria o caminho.

    Sabia apenas que mais abaixo existia um bar onde, certamente, eu conseguiria as informações desejadas.

             Agradecido, desejei-lhe um ótimo dia, e enveredei por ruas descendentes que, após um quilômetro, me deixaram defronte ao bar Pepito, onde observei caminhões descarregando mercadorias.

             Porém, isto não me preocupou, posto que a partir daquele local, a sinalização retornou bastante eficiente e não tive dificuldades mais, em encontrar o rumo a seguir.

             Na sequência, segui pela rodovia AS-331, por um 300 metros quando, após ultrapassar um gigantesco tronco seco de uma castanheira, obedecendo à sinalização, girei à direta, e prossegui, agora em terra, por um caminho cascalhado, em meio a muitas árvores.

             Porém a trilha foi se estreitando e, mais à frente, comecei a ascender por um íngreme barranco, pleno de pedras e com muita água descendo da encosta, o que deixava meu equilíbrio precário, com grande risco de escorregar e sofrer uma temível queda.

             Sem dúvida, este foi um dos obstáculos mais difíceis que precisei vencer ao longo de toda a minha peregrinação, porém, sob as benções do céu, após uns 30 minutos de penosa escalada, acabei saindo no topo da elevação, já em piso asfáltico.

             A partir dali, já pude avistar, ao longe, a cidade de Gijón, minha meta para aquele dia e, apesar do sol estar no ápice e queimar sem dó, prossegui mais animado, embora a sola de meu pé esquerdo estivesse em brasas.



             O roteiro seguiu alternando asfalto com atalhos laterais em terra, e depois de ultrapassar pelo povoado de El Curbiello, eu segui caminhando próximo do camping municipal de Deva, uma área de lazer instalada junto a um grande e aprazível bosque de eucaliptos.

          

             Mais adiante, eu acessei novamente na rodovia N-632 e mais à frente evitei um desvio à direita, que me levaria ao bairro de Somió, onde está localizado o albergue de peregrinos.

    No entanto, eu pretendia pernoitar numa pensão, de forma que segui adiante.

              E logo eu passava defronte ao Monastério de Santa Clara, uma imensa e belíssima construção, hoje transformada numa Universidade.

    Aliás, nas imediações desse prédio existem ao menos mais dois “campus universitários”, de forma que encontrei muitos jovens deixando as aulas, naquele horário, pois estava próximo das 12 h.

             Como as flechas haviam desaparecido novamente, fui tomando informações com moradores locais e mais abaixo passei defronte ao estádio do Sporting Gijón, bem como do Palácio da Cultura, uma construção emblemática e diferente, pintada em cores berrantes, formavam um conjunto harmonioso e agradável aos nossos sentidos.





             Finalmente, quando sentia minhas forças se exaurindo, saí à beira mar, mais especificamente, na linda praia de San Lourenço, onde existe um enorme calçadão que cobre toda a orla marítima.

             Por ele eu segui mais 1.500 metros até aportar ao “casco viejo” da cidade, próximo da “Praza del Ayntamento”, já no bairro de Cimadevilla.


  Ali, me hospedei no hotel Jovelles, local também onde almocei.

            Mais tarde, ao fazer a inspeção de rotina em meu pé esquerdo, notei que a bolha havia crescido e tinha a parte de baixo quase toda exposta, o que me causava muitas dores ao pisar.

            Que azar, pensei, enquanto fazia os curativos necessários.

   Depois envolvi tudo com uma longa e larga atadura e, na sequência, tirei uma bela soneca.

            Mais tarde, assim que o sol amainou, fui dar uma volta pela cidade e pude conhecer o palácio de Revillagigedo, uma construção do século XVIII, que hoje abriga um centro internacional de arte, anexa a essa edificação está a Colegiata de San Juan Batista, do mesmo século.

            Aproveitei, ainda, para me dirigir à Oficina de Turismo do Município, que está localizada defronte à marina e ao porto desportivo da cidade, onde pude carimbar minha credencial de peregrino e obter informações sobre a jornada que encetaria no dia seguinte.

            Com mais de dois mil anos de história, Gijón e uma cidade populosa, cheia de luz e de vida, que no verão vê sua população atual de 280 mil habitantes duplicar, graças às suas praias urbanas e as dezenas de atrações culturais que a cidade oferece.




            De todas as 150 cidade que visitei ao longo do Caminho do Norte, diria, sem medo de errar, que esta foi a que mais me impressionou, tanto por sua beleza, como pela limpeza e organização que observei, de maneira que um dia espero ali retornar como turista, a fim de conhecer melhor seus monumentos, igrejas, museus e demais atrativos.

           

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa de razoável amplitude e extremamente cansativa, não só pelos acidentes naturais que se necessita vencer, mas, principalmente, pela confusão gerada pelas flechas pintadas em sentido oposto ao Caminho de Santiago, pertencentes ao Caminho para Covadonga. Em alguns locais a sinalização deixa muito a desejar, provocando erros e desvios desnecessários, que confundem e maltratam, sobremaneira, o caminhante. No geral, uma etapa plena de bosques e muito verde, porém, talvez, a mais confusa, difícil e desgastante que enfrentei em toda a minha jornada.

 18ª Jornada - GIJÓN a AVILÉS