13ª Jornada - SAN VICENTE DE LA BARQUERA a EL PERAL

13ª Jornada – San Vicente de la Barquera a El Peral - 19 quilômetros: “Enfim, as Asturias!” 


                O percurso seria relativamente curto, contudo havia previsão de chuvas para o dia seguinte, um domingo.

            Assim, como pretendia chegar o mais cedo possível ao meu destino, a tempo de encontrar o comércio ainda aberto, levantei às 6 h e, às 7 h, assim que o dia clareou, principiei minha jornada.

            Inicialmente, seguindo as flechas amarelas, subi várias escadarias em direção à parte alta da cidade.

            Ali, acessei uma estrada asfaltada, de escasso tráfego de veículos, situada entre fazendas de criação de gado, em direção ao “Hotel de las Calzadas”.

            Dois quilômetros depois, eu ultrapassei a Autovia Nacional por uma extensa ponte metálica e, mais abaixo, cruzei a linha férrea e adentrei em Acebosa, uma pequeníssima vila, integralmente silenciosa naquele horário.

            Atravessei o povoado em sentido longitudinal e, logo acima, acessei numa trilha íngreme e pedregosa, em meio a um espesso bosque, que me levou a transitar defronte ao cemitério da cidade e, em seguida, até o topo de uma elevação, num local de visão privilegiada, onde pude apreciar toda a região ao redor.

            Daquele lugar inesquecível, pude novamente admirar a parte final dos “Picos da Europa”, com seus majestosos cumes cobertos de neve e, de vez em quando, sentir o ar frígido que soprava de lá e gelava o suor proveniente do calor de minha marcha interminável.



          Na sequência, prossegui por uma estradinha asfaltada e extremamente deserta, sempre em meio a muito verde, em leve descenso, que me deixou na pequena vila de Hortigal, na verdade um núcleo de casas dispersas, em meio a uma grande área erodida.

   


            Prosseguindo, mais adiante passei pelo povoado de Estrada, onde existe uma imponente torre construída no século XIV, um baluarte medieval da família feudal que regia os destinos dessa comarca e, sua singularidade, deve-se à capela romântica cujo interior conserva, o que não era usual na época.



            O dia se mantinha frio, nublado, carrancudo, com nuvens baixas e carregadas, prenunciando chuva a qualquer momento.

            O roteiro seguiu em meio a um bosque de eucaliptos, sempre por estrada asfaltada e mais acima, depois de atravessar pequena ponte, adentrei no povoado de Serdio quando o relógio da igreja matriz local marcava, exatamente, 9 h.

            Ali eu avistei, 2 bares e algumas casas comerciais na rua por onde transitava, porém todas se encontravam fechadas e a cidadezinha, salvo dois caminhões em movimento, parecia dormir ainda, pois não avistei ninguém perambulando por suas ruas.

            Na sequência, após passar defronte uma velha sorveteria, fleti à esquerda, e logo acessei uma rodovia vicinal, em descenso, em meio a um frondoso bosque de eucaliptos que, depois de 2 quilômetros, desaguou na minha velha e conhecida, a “carretera” N-634.

            À minha esquerda podia avistar, a uns 500 m, o povoado de Muñorrodero, porém a sinalização remeteu-me, à direita, e depois de passar debaixo da Autovia Nacional e de uma via férrea, cruzei a foz do rio Tina Menor, por uma grande e moderna ponte metálica.

            Ao transpô-la, adentrei à esquerda, seguindo em íngreme ascenso, até o alto de escarpado monte, onde encontrei a cidade de Pesués, na realidade, outra pequena vila situada à beira da N-634, onde existiam hotéis, “tiendas” e bares, já em funcionamento.

            Após contornar o Hostal Baviera, atravessei a “carretera” e segui por uma estradinha cascalhada e já bastante úmida.

   Naquele momento, a garoa que caia já a algum tempo, se transformou numa grossa pancada de chuva.



            Num abrigo localizado sob uma frondosa árvore, eu fiz uma parada técnica para colocar minha capa de chuva, bem como me hidratar e ingerir uma banana.

            Logo o temporal amainou e pude prosseguir adiante, agora em meio a uma fechada e escura mata, onde em alguns locais tive dificuldades para me orientar, por deficiência de sinalização.

            Porém, fui vencendo, ainda que lentamente, os obstáculos que surgiram e no final, depois de me equilibrar precariamente na descida de uma tresloucada e escorregadia ladeira, acabei saindo novamente na rodovia N-634.

  Depois de ultrapassar uma grande rotatória, prossegui por uma calçada lateral e logo adentrava em Unquera, a última localidade situada em terras cantábricas.

           A cidade é de razoável dimensão e seu comércio, demonstrava grande progresso, posto que ela é também porta de acesso ao desfiladeiro de La Hermida e da mística comarca de la Liébana.

           Sua comunidade, composta atualmente de 800 pessoas, dedica-se principalmente à pesca e ao turismo, sendo oferecidos aos visitantes belos passeios marítimos junto ao rio.

  Sendo a capital de um dos municípios mais dispersos da Cantábria tem o encanto das pequenas localidades, de onde se abastecem todas as necessidades da população periférica, com um mercado muito variado e colorido.

  Nestes confins, entre a Cantábria e as Astúrias, se unem ou separam-se os destinos, conforme diz o ditado: “O Caminho de Santiago, adentra nas Astúrias, no entanto, se prosseguirmos rumo ao Sul, encontraremos as belezas dos “picos da Europa”.


  O maior interesse natural desta área consiste nos belos estuários e regiões ribeirinhas de Tina Mayor e Tina Menor, posto que o primeiro desagua no Rio Deba enquanto o segundo, o faz no Rio Nansa.

  É de se considerar, ainda, que as praias de El Sable e Berellín formam belos entornos litorâneos dignos de serem visitados.

            Famoso aí é a “corbata de Unqueira”, um doce local, espécie de pastel doce, mas como eu estava satisfeito e nutrido, segui por ruas planas, bem sinalizadas e úmidas, pois a garoa, ainda que miúda, persistia.

            No final de uma grande avenida, atravessei uma ponte sobre o rio Deva e, concomitantemente, deixei a Província da Cantábria para adentrar na das Astúrias.

            Já do outro lado, girei bruscamente à esquerda e iniciei penoso ascenso por uma pista de cimento caprichosamente construída, localizada sobre la “cuesta del Canto”, de onde se tinha uma estupenda vista panorâmica de toda a região ao meu redor.

            Mais acima, passei junto a uma pequena capela “de el Cantu”, dedicada às almas, e quinhentos metros à frente, já em descenso, adentrei em Colombrés, capital do Conselho de Rivadedeva.

            A cidade está muita bem cuidada e é famosa por seus múltiplos exemplos de arquitetura “indiana”, como uma grande mansão, de cor azul, que se destaca sobre as restantes e, onde se instalou, desde 1.987, “los Archivos de Indianos”, um museu e centro de investigação sobre a imigração asturiana na América.



            Sua eleição não foi casual, pois a Quinta Guadalupe, construída pelo “indiano” Inigo Noriega Laso, um dos maiores empresários espanhóis no México, isto nos finais do século XIX, reflete o luxo e a magnificência que os conterrâneos enriquecidos do outro lado do Atlântico, trouxeram à sua terra de origem.

            Eu pretendia pernoitar nesse lugar, contudo hoje não existe nenhuma pensão, hotel ou hostal para acolher o visitante.

            Dessa forma, tomei informações com um morador local na plaza del “Ayuntamento” e prossegui por ruas tortuosas até uma grande via em descenso e, por ela, mais abaixo, encontrei novamente a rodovia N-634.

            Segui um quilômetro pelo acostamento e logo encontrei o hostal “el Junko”, localizado à beira da “carretera”, já no bairro de “El Peral”, local onde fiquei hospedado.

            Por sorte, mais à frente, havia uma pequena “tienda” que iria fechar às 13 h, porém ainda bem que cheguei a tempo de comprar provisões para o jantar e o lanche do dia imediato.

            Almocei no restaurante do próprio hotel e depois de uma boa soneca, pois estava frio e a chuva persistia em forma de intermitente garoa, vesti meu poncho impermeável e retornei até Colombres, na esperança de descobrir alguma “lan house” ou museu que pudesse visitar.

            Embora fosse um sábado, dia apropriado para o turismo, encontrei tudo fechado, inclusive o comércio, de forma que, um tanto frustrado, eu retornei para a minha habitação e dei sequência à rotina peregrina, como lavar roupas, secar as botas, escrever o diário, estudar o percurso sequente, etc..

            À noite, optei por um singelo lanche no quarto e em seguida fui dormir, pois a chuva persistia e havia perspectiva de que minha jornada seguinte fosse realizada debaixo de muita água.

           
































IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa relativamente curta e bastante tranquila, uma das mais fáceis de toda a minha aventura, caminhando, quase sempre, por locais arborizados, porém desertos. É de se enaltecer a passagem pelos belos povoados de Unquera e Colombrés, mas lamentar, como nas jornadas anteriores, salvo pequenas exceções, toda realizada em asfalto.


14ª Jornada - EL PERAL a LHANES