4ª Jornada - DEBA a ZENARRUZA

4ª Jornada – Deba a Zenarruza - 30 quilômetros: “Uma etapa extremamente complicada!” 


              A jornada seria difícil, já sabia pelos meus mapas, de forma que resolvi sair o mais “temprano” possível, tentando atingir meu objetivo antes das 13 h, porquanto, novamente existia a possibilidade de pancadas de chuva à tarde.

  Sem contar ainda que era quinta-feira da Semana Santa, quando praticamente tudo permanece fechado na Espanha.

           Assim, levantei às 5 h 30 min e às 6 h 30 min, ainda no escuro, deixei o local de pernoite, seguindo por uma avenida larga e iluminada, localizada junto ao porto da cidade.

            O clima se apresentava frio e ventoso, temperatura beirando os 6 graus, no entanto, eu me sentia confortável e aquecido, dentro de meu casaco impermeável.

            Mil metros à frente, eu girei à direita, e atravessei o rio Deva sobre uma ponte onde só transitam pedestres.

            Em seguida, prossegui à direita pela rodovia GI-638 que vai em direção à cidade de Mutriku.

            Uns trezentos metros depois, ao ultrapassar um edifício azul, encontrei uma grande flecha amarela, remetendo-me à esquerda para uma pista cimentada, em forte ascenso, num caminho que segue na direção de Larangamendi.

            Sobrelevada essa primeira e acidentada etapa, num pequeno platô, girei à direita e venci outro grande desnível, saindo já no topo da elevação, junto a várias torres de telefonia e televisão.

            O ambiente ainda estava sombrio, porém eu portava minha potente lanterna e, por sorte, todo esse irregular trecho está muito bem sinalizado, de forma que não tive problemas em encontrar meu rumo.



            Mais acima, ainda subindo, adentrei numa grande área verde, que está toda dividida em grandes chácaras, onde pude observar belas e novas vivendas, recentemente edificadas, mas quase todas desertas, sinal de que são utilizadas com maior frequência, somente em finais de semana.


            Daquele ponto eu tinha uma vista extensa e privilegiada do maravilhoso mar Cantábrico, que me seguia pela direita.

            Na sequência, caminhei dentro de grandes bosques de pinheiros e eucaliptos, por pistas bem sinalizadas e de excepcional beleza, contudo, sempre em perene ascendência.

            Finalmente, depois de 4 quilômetros percorridos, cheguei à igreja do Calvário, uma construção moderna, fincada num morro, num local ermo e deserto, pertencente ao bairro de Astigarrabia.

            Dali eu tinha uma completa visão da cidade de Mutriku, bem como pude admirar o intenso tráfego de pesqueiros e iates, que entravam e saíam de seu concorrido porto.

            A igreja se encontrava fechada, de forma que após fazer breve prece pelo lado externo, segui em frente, agora por uma estrada asfaltada, onde existiam plantadas em suas laterais, com poucos metros de separação, cruzes brancas, o que me deu a sensação de estar caminhando numa grande “via crucis” pétrea.

            Mais adiante passei diante de um grande restaurante, também fechado naquele horário e, em seguida, numa bifurcação, segui à direita e logo passava defronte ao “frontón Arnope”, um excelente referencial dessa etapa, na verdade se trata de um grande depósito de cereais e alimentos para gado.

            Mais acima, ainda subindo, abandonei o asfalto e prossegui em terra, sempre em forte ascensão, e em dados momentos as pernas se negavam a seguir adiante, devido ao cansaço acumulado e pelo aclive constante e prolongado.



            O caminho largo no início, logo se transformou em estreita e pedregosa trilha, por onde fui avançando, em meio a muito verde.

            Por 30 minutos caminhei pelo topo do morro, onde eu tinha uma visão privilegiada de tudo ao redor, inclusive, conseguia ver bem ao longe o oceano azul.

            Mais à frente, acabei desaguando numa estrada larga, e logo avistei uma cabana de pedra à minha esquerda.

   Na minha frente, notei um poste telefônico, além de vários indicadores de direções e respectiva distância.

            Obedecendo as flechas amarelas, girei à direita e logo iniciei suave descendo por uma larga estrada em terra batida.

            Em alguns locais, eu visualizei casas à distância.

   No entanto, todas fechadas e guardadas por alentados cães de guarda, porém, todos presos em grossas e extensas correntes.

            Pelo que li a respeito, eu estava atravessando uma das zonas mais despovoadas da região de Euskadi, ou seja, do País Vasco.

            Mais abaixo, adentrei numa bonita trilha, em meio a um pasto, que prosseguiu junto a uma grande cerca em alambrado.

            No final da senda saí numa rodovia vicinal e por ela continuei em grande descenso até chegar ao povoado de Olatz.




            Na verdade, ali existem algumas casas, um bar que se encontrava fechado e uma pequena igreja dedicada a San Isidro Lavrador.

            Importante salientar a rudeza e solidão que vivenciava nessa etapa, pois até aquele instante, eu havia percorrido mais de 7 quilômetros, e ainda não avistara uma única pessoa, nem veículos automotores, somente gado, pássaros e alguns animais silvestres.

            Prossegui adiante, ainda em asfalto, por uma estradinha que segue em meio a um grande vale, entre muitas árvores e imensos eucaliptos, sempre beirando um encorpado riacho.

            Dois quilômetros abaixo, numa bifurcação, entrei à esquerda e, então, iniciou-se a pior parte dessa jornada, pois enfrentei uma penosa e longa ascensão, por asfalto, e sempre em meio a extenso bosque de pinheiros adultos.

            Foram, aproximadamente, quatro quilômetros escalando uma ladeira com uma acentuada porcentagem de aclividade e, em alguns trechos, a altíssima inclinação me deixou sem fôlego e com transpiração intensa, já que encontrava muito bem agasalhado, por conta do frio reinante.

            Foi, de longe, a escalada de maior extensão e rudeza que enfrentei nessa etapa.

 Na verdade, eu estava sobrepujando o místico “Collado del Arno”, um dos trechos mais temidos e respeitados pelo peregrinos medievais.

            Depois de um infindável e alcantiloso “repecho”, finalmente acabou o asfalto, porém as flechas me remeteram à esquerda, para uma senda da terra, em meio a portentosos eucaliptos, contudo, ainda em ascensão.

            Nessa trilha avistei um senhor, na direção de um trator, colocando troncos recém cortados em um enorme caminhão.

   Esse motorista me saudou com alegria e foi aí que me dei conta de ser a primeira pessoa a avistar naquele dia, no ermo trajeto que percorrera.

            Já no topo do morro, eu ultrapassei, ainda que de forma simbólica, uma divisa geográfica e deixei a Província de Gupúzcoa, cuja capital é San Sebastián, e adentrei na de Viscaya, cuja sede é Bilbao.

           Ali parei para me hidratar e fazer um lanche, enquanto observava a vista ao meu redor, já que daquele local eu podia apreciar a paisagem inebriante.

 Porém, o silêncio reinante era assombroso, ainda que ouvisse, de quando em vez, o barulho da serra de algum madeireiro em morros circundantes.



           Já descendo pelo outro lado da montanha, numa bifurcação e debaixo de uma grande sombra, encontrei meu amigo Javier lanchando.

 Como poderia ser isto, indaguei com meus botões?

           Afinal, eu partira muito cedo, não encontrara ninguém pelo caminho e ele havia pernoitado no albergue de Deba.

           Depois dos cumprimentos, ele me explicou que havia saído às 7 h 30 min.

 Como se vê, depois de mim, no entanto, se perdera numa bifurcação.


   

   Pedira ajuda então, a um ancião que encontrara e este lhe ensinara em atalho, de forma de que, conforme afirmou, ele já estava naquele local descansando há mais de 15 minutos.

            História um tanto estranha pensei, mas como poderia provar o contrário?

  Afinal, ele estava na sua terra natal e seguramente detinha informações privilegiadas dos roteiros da região.

            Deixei-o lanchando e segui adiante por um par de quilômetros, ainda em meio a extenso bosque.

            No final deste, acessei uma rodovia que seguia em direção à Arnoate e, mais abaixo, entrei à direita, numa pista cimentada em direção à cidade de Urkaregi.

            No final de um grande vale, prossegui à esquerda, por terra, novamente em grande ascensão.

            Depois passei a caminhar pelo topo de um grande morro e logo avistei a cidade de Markina, abaixo, porém, ao longe.

            Porquanto, ao meu lado havia um grande precipício, de forma que andei bastante tempo bordejando um grande bosque até encontrar uma bifurcação, onde entrei à esquerda, em um caminho de terra.

            Mais adiante, nova bifurcação e ali prossegui à direita, em penoso descenso, seguindo por um caminho extremamente liso e pedregoso.

            Passei por grandes apuros nesse trecho específico, pois estive a ponto de cair por várias vezes, posto que a senda se mostrou terrivelmente úmida, inclinada e irregular, um tremendo perigo aos peregrinos exauridos, como eu naquele momento.


            Finalmente, com muitas dores em ambos os joelhos pelo esforço despendido, cheguei num local plano e percorri ainda mais dois quilômetros por uma pista cimentada, até entrar em zona urbana.

            Marikina-Xemein, a primeira vila vizcaína que atravessa o Caminho, foi fundada em 1.355 por don Tello, senhor de Vizcaya.

            Em seu entorno, notam-se os efeitos da modernidade, mas ela ainda conserva em suas ruas centrais um ar medieval de seu antigo “casco viejo” murado.

            Entre seus muitos edifícios históricos há as torres de Barroeta e a de Mugartegi, dois dos inúmeros palácios renascentistas e barrocos existentes nessa vila, bem como a igreja de Santa Maria, um templo paroquial em estilo gótico vasco, edificação do século do século XV, consagrado em 1.510.

            Eu tinha a intenção de pernoitar na cidade e trazia em minhas anotações, como referência, o Hotel Vega que, para minha surpresa, estava fechado há mais de um ano, conforme me informou seu proprietário.

            E a cidade, embora de razoáveis dimensões, pois conta com mais de 5.000 habitantes, não possui outro estabelecimento do gênero, nem mesmo um albergue de peregrinos.

            Assim, sem outra alternativa palpável, e apesar do cansaço já acumulado nessa etapa, tomei a resolução de prosseguir em frente.

            Antes, no entanto, em face do horário adiantado, meu relógio marcava 13 h, entrei num bar para comprar água e tomar um lanche.

            Depois, mais animado, prossegui em frente caminhando pelo acostamento da rodovia BI-633, até a cidade de Iruzubieta.


  Ali acessei a rodovia BI-2224 que me levou até Bolibar, terra de Simão Bolivar, o libertador da América do Sul.

            Existe um museu nessa cidade dedicado a esse herói local, porém estava fechado, mas na praça fronteiriça vi uma grande estátua dedicada a esse personagem, com placas de vários países, como Espanha, Portugal, Venezuela, etc.

            Na saída do povoado há uma “carretera” em direção à Gernika e em sentido contrário vai a Ziortza, contudo, obedecendo as flechas, eu segui por um caminho situado no meio delas e principiei a galgar uma ladeira, que gradualmente acompanhei seu desnível, até atingir o cume de um pequeno outeiro.

            A partir dali, o roteiro se fez bucólico, sempre em meio a bosques de pinheiros, totalmente desertos, onde o silêncio somente era quebrado, de vez em quando, pelo mavioso trinar de passarinhos.

            Depois de 30 minutos nessa toada, derivei à esquerda por uma estrada asfaltada e logo encontrei uma calçada empedrada, construída na era medieval.

            Na sequência, caminhei mais um quilômetro até encontrar o albergue privado “Ziortza-Bettia”, que encontrei plantado à beira do roteiro oficial, onde acabei me hospedando.

   Ali também pude saborear um “menu” festivo, porém, a um preço elevado de 25 Euros, o maior valor que paguei por uma refeição em toda essa aventura.

            É bom lembrar que era quinta-feira Santa, dia que praticamente tudo está cerrado na Espanha, ninguém trabalha e assim, aqueles que o fazem, cobram o quanto querem por esse dia de labuta.


            Mais tarde, após uma necessária soneca, segui por mais 500 metros e pude visitar o Monastério de Zenarruza, onde inclusive existe um albergue de peregrinos.

   Nesse local, os monges ali residentes oferecem há séculos, refúgio aos caminhantes.

            A edificação está situada ao pé do monte Oiz e alcançou seu esplendor no século XVI, embora sua fundação date de 1.000.

   Atualmente sua administração é exercida por monges da ordem dos trapenses.

            Conta a lenda que uma águia colheu em suas garras a ossada de Santa Lúcia, elevando-a para depois deixar cair sobre Zenarruza, o que foi interpretado pelos paroquianos como um ato sobrenatural.

  Desse modo, entendeu-se que a ermida da santa deveria ser trasladada para aquele lugar, onde se ergueu a edificação em 1.380, atual Convento.



            Antes de ultrapassar sob o arco que leva ao interior deste recinto, existe uma placa que lembra a lenda narrada.

            Dentro da imensa construção existem o pórtico, a igreja, a torre, as casas do abade, dos cônegos e o claustro.

   Este último, em estilo renascentista, tem suas vigas adornadas por vieiras (o único deste tipo encontrado em Viscaya).

            Em 1.386 foi fundado ali um hospital de peregrinos, e dessa época até nossos dias, são acolhidos gratuitamente os necessitados e andarilhos que se dirigem à Santiago de Compostela.

            Os religiosos oferecem aos peregrinos cantos gregorianos, bem como de sua comida e, sobretudo, a hospitalidade e uma agradável conversação.

            No local também existe uma pequena boutique, onde são vendidos produtos artesanais, fabricados pelos monges ali residentes, como vinhos, queijos, mel e outros acepipes.

            No entanto, como haveria missa às 18 h, esse local cerrou suas portas às 17 h, de forma que não pude comprar nada para complementar meu lanche da noite, sendo obrigado a fazê-lo no bar existente no piso inferior do local onde estava hospedado.

            Então, novamente, tive que desembolsar um valor exorbitante.

           





IMPRESSÃO PESSOAL – Seguramente, uma das etapas mais difíceis que enfrentei nessa peregrinação. Há que se vencer, no mínimo, três grandes elevações, sendo o “Collado del Arno” a mais difícil e íngreme de todas. Depois, já no final da jornada, o descenso brusco em direção à Marquina representa um desafio terrível, pois quando ele surge, o peregrino já está exausto e com as pernas cansadas, um portentoso perigo, em razão do risco de queda, iminente no trecho todo. Em compensação, uma etapa em que se atravessa extensas e frescas zonas boscosas, um alívio ante o sol candente.


5ª Jornada - ZENARRUZA a GUERNICA