5ª Jornada - ZENARRUZA a GUERNICA

5ª Jornada – Zenarruza a Guernica - 18 quilômetros: “Uma etapa singular!” 


              A jornada seria curta e bem mais tranquila que a anterior, pelo menos era a previsão de meus mapas e da meteorologia.

            No entanto, havia uma dificuldade intrínseca à data, era Sexta-Feira Santa, dia em que certamente encontraria tudo fechado, em face da fé e religiosidade inerentes à população espanhola.

            Ventava bastante e fazia um frio de doer, algo em torno de 7 graus, quando deixei o local de pernoite e segui, por asfalto, em leve ascenso, até o Monastério de Zenarruza.

            O local se encontrava imerso em neblina, num silêncio profundo, nenhum som se ouvia no local, apenas o barulho do vento nas folhas das árvores existentes ao redor daquela antiquíssima Collegiata.

            Obedecendo as flechas, eu contornei a imensa construção através de seu estacionamento, onde existe uma grande praça ajardinada.

  Nela estão alocadas algumas esculturas raras e de muito bom gosto.

            Na sequência, eu prossegui pelo lado oposto, agora em brusco descenso.

            Logo abaixo, adentrei à esquerda, numa senda úmida, barrenta e, gratificantemente arborizada.

            A trilha, levemente ascendente, e em meio a um extenso bosque de pinheiros, levou-me, depois de um quilômetro, ao alto de Gontzegaraí.



            Ali acessei uma estradinha asfaltada que, em leve descenso, me deixou num escasso agrupamento de casas pertencentes ao minúsculo povoado de Uriona.

            O asfalto findou diante da derradeira habitação, onde me pareceu não haver passagem para caminhantes, pois estava interrompida.

            Para a minha surpresa, as flechas me levaram até uma pequena cancela e, ao atravessá-la, principiei a descer por uma senda matosa onde pisei em muito barro, fruto da chuva recente.

            Tal vereda desembocou em outra cancela e após transpassá-la, passei a caminhar dentro de cerrado bosque, numa trilha em grande descenso, que segui beirando um murmurante riozinho.

            No final de um brusco barranco, que desci com muito cuidado, acabei saindo defronte à Pousada Rural, uma construção vistosa e arborizada, já na localidade de Gerrikaitz.

            Prossegui em asfalto e logo adiante, após atravessar o encorpado rio Lea, adentrei no povoado de Munitibar.

            Observei ali a existência de alguns bares, uma “tienda”, além de uma bonita igreja, porém todos se encontravam fechados, em face do horário.

            Assim, prossegui pela rodovia BI-2224, que segue em direção à Guernika.

  Contudo, numa bifurcação mais à frente, segui à esquerda e após uns 800 m, sempre em puxado ascenso, passei a caminhar em meio a grandes fazendas, onde pude ver inúmeros pés de maçãs e pêssegos, a maioria já em floração.




            Mais à frente, sempre em descenso, acessei uma trilha intensamente arborizada, que corre paralela à rodovia e prossegui em rápida e agradável companhia de um vergel e florido bosque, sendo que em alguns locais eu abri e fechei porteiras, pois existia gado pastando nessas propriedades.



            Em vários trechos a trilha se encontrava bastante embarreada, não só porque havia chovido abundantemente naquela região à pouco tempo, mas, também, porque ela discorre paralela a um gracioso riacho que não raro transborda de seu leito.

            Depois de uns dois quilômetros nessa toada, acabei desaguando numa pista asfaltada que me levou, depois de meia hora, até o bairro de Olabe.

            Num cruzamento, as flechas me direcionaram à direita, porém, logo adiante, a estrada se bifurcou e as flechas existentes no local, por estarem dúbias, me deixaram numa intensa dúvida, em qual direção seguir?

            Pacientemente aguardei pela passagem de algum pedestre ou mesmo, um automóvel, para obter informações, porém, debalde minha persistência, ninguém transitou por aquele local, durante os quinze minutos que ali estive parado.

            Ainda que arriscando incorrer em erro, resolvi seguir em frente e depois de consultar demoradamente meus mapas, por entender ser o mais lógico, optei pelo caminho cimentado que saía à minha esquerda e descia beirando grande barranco, em meio a muito verde.

            Na verdade, não avistei flechas amarelas enquanto ia baixando, porém não me preocupei, posto que não havia encruzos na trilha, qual seja, outra opção a seguir.

            No entanto, depois de um quilômetro, meus passos foram interrompidos por um muro que cercava uma grandiosa e imponente construção, onde não vi movimento de pessoas, apenas três enormes cães, que faziam a guarda do local.

            Decepcionado e tenso, retornei a passos rápidos até o ponto inicial e, sem outra opção, depois de fazer uma pausa para hidratação e me acalmar, prossegui adiante pelo asfalto.




            Logo à frente, após uma grande curva, reencontrei com as benfazejas setas amarelas e mais acima, depois de vencer pequena ladeira, passei defronte a uma ermida de São Pedro.

  Na sequência, segui até a curiosa torre de Montolan, cuja construção se encontra sobre um pequeno promontório e depois de ultrapassar a última casa da minúscula povoação, segui por uma senda em terra, em grande descenso, sob um extenso bosque de pinheiros, num trajeto extremamente agradável e fácil.



            Já local plano, ultrapassei o rio Golako pela famosa ponte de Artuzbi, uma maravilhosa construção do século XV, em estilo romano.

  Apesar de sua vetustice, persiste em perfeito estado de conservação, talvez porque seu uso seja exclusivo à passagem de pedestres.



            Em seguida, após vencer íngreme, porém curta ladeira, adentrei ao povoado de Arratzu e logo passei defronte uma belíssima igreja, dedicada a São Tomás, localizada junto a belas construções, quase todas com floreiras à porta.

   Na sequência, caminhei em meio a uma “via crucis”, edificada em pedra lavrada, ali existentes.

            A paisagem era belíssima, mas depois de curto trajeto entre belas vivendas ali existentes eu girei à esquerda e acessei uma estradinha plana de terra que logo se transformou num extenso charco, para minha completa decepção.

            Fui chapinhando na lama até um pequeno córrego que venci, após atravessar uma graciosa ponte, e a partir dela, iniciou-se duro ascenso por uma trilha bastante acidentada, em meio a belíssimo bosque, que no seu topo me deixou à Marmiz.

   Na verdade uma minúscula aldeia, localizada à beira da rodovia BI-3224.

            Ali havia duas opções: prosseguir diretamente pelo asfalto ou seguir as flechas amarelas, como preferi, que me levaram a trilhar uma senda em terra bastante compactada, em meio a magnífico bosque de eucaliptos.

            O caminho era em leve descenso e após um quilômetro, cruzei com um senhor idoso e que, embora sem nunca me ter visto, cumprimentou-me efusivamente, inclusive, quis saber minha procedência.

            Após contar-lhe brevemente minha história, ele se apresentou como Sr. Jaime e disse que ia ver sua pequena horta cultivada mais abaixo, à beira do rio, porém aquilo podia esperar até mais tarde.

            Dito isto, fez meia volta e retornou comigo, conversando e contando sobre a região, costumes, família.

 Uma agradável surpresa, posto que já me sentia cansado, em face do peso e solidão da jornada, porém sua alegria era contagiante, de forma que nem percebi o tempo passar.

            Bem abaixo, o caminho bifurcou e meu amigo seguiu à direita e eu à esquerda, não sem antes nos despedirmos como velhos companheiros de armas.

            Mais à frente, o roteiro torceu radicalmente à esquerda e, eu transpus um grande trecho em desabalada ladeira até sair novamente na rodovia BI-3224.



  Já próximo ao povoado de Ajangiz, avistei uma bela igreja dedicada a Santiago.

            Na sequência, ainda caminhei mais 3 quilômetros por asfalto, sempre em pronunciada descida, até aportar ao meu destino, exatamente, às 12 h 30 min.

            Guernica (Gernika, em basco), encontra-se situada em local privilegiado pela natureza, a sudoeste do espaço conhecido como Reserva de Urdaibai, cujas condições especiais, sócioeconômicas (de paisagens, usos do solo, flora, fauna) e ecológicas levaram a UNESCO a declarar, em 1984, essa zona como Reserva da Biosfera.

            Guernica-Lumo é um centro urbano, industrial e de serviços da comarca Busturialdea, área eminentemente rural, dedicada à agricultura e criação de gado, além da extração vegetal (essencialmente Pinus).

            Existem registros dessa localidade no Século XI, mas como duas localidades diferenciadas, pois na realidade Lumo já existia antes, sendo Guernica o seu porto fluvial.

            Essa vila foi fundada oficialmente em 28 de abril de 1.366, separando-se de Lumo e desenvolvendo-se graças ao seu posicionamento estratégico, tanto pela presença do porto, como pela confluência de vários caminhos, inclusive o de Santiago.

            A vida nela nunca foi muito fácil, pois na Idade Média, havia uma rivalidade muito grande com a vizinha Lumo a qual unida com outras cidades da planície Viscayna, quase a asfixiaram comercialmente.            

   Novos grandes incêndios arruinaram-na em 1.521 e 1.537, sendo restaurada em 1.743, mas sofrendo danos quando da invasão perpetrada pelas tropas napoleônicas.

            Em 1.882, uniu-se formalmente a Lumo, formando uma única localidade, o que permitiu o seu maior desenvolvimento, impulsionado pela chegada da estrada de ferro em 1.888.

            O Bombardeio: em plena guerra civil espanhola quando as forças aliadas do General Franco levavam a cabo sua ofensiva sobre Viscaya, a vila de Guernica-Lumo sofreu seu bombardeio histórico, assim descrito pelo historiador Voltaire Schilling:

            “Era uma 2ª feira, dia de feira livre na pequena cidade da Biscaia.

   Das redondezas, adentravam as suas estreitas ruas, os camponeses do vale de Guernica, no país dos bascos, trazendo seus produtos para o grande encontro semanal.

   A praça ainda estava bem movimentada quando, antes das cinco da tarde, os sinos começaram os seus badalados.

   Tratava-se de mais uma incursão aérea.

            Até aquele dia fatídico - 26 de abril de 1.937 - Guernica só havia visto os aviões nazistas da Legião Condor, passarem sobre ela em direção a alvos mais importantes e estratégicos, situados em Bilbao.

             No entanto, naquele dia tudo foi diferente.

   A primeira leva de Heinkels-11 despejou suas bombas sobre a cidadezinha, precisamente às 16 h 45 min.

            Durante as 2 h e 45 min seguintes, os moradores viram o inferno desabar sobre eles.

   Estonteados e desesperados, saíram para os arredores do lugarejo onde mortíferas rajadas de metralhadora disparadas pelos caças, os mataram aos magotes.

            No fim da jornada contaram-se 1.654 mortos e 889 feridos, numa população não superior a 7 mil habitantes.

   Desse montante, quase 40% haviam sido mortos ou atingidos.

            A repercussão negativa foi tão grande, que os nacionalistas espanhóis trataram logo de atribuí-la aos "vermelhos".”

            A escolha da pequena Guernica deveu-se a vários motivos.

  A cidade era um alvo fácil, sem proteção antiaérea, além de não deter uma população numerosa.

            Como o levante do General Franco foi também contra a autonomia regional, a destruição dela serviria de lição a todos os que imaginavam uma Espanha federalista ou descentralizada.

            No entanto, quando a notícia da dizimação provocada pelo bombardeamento "científico" chegou aos jornais, provocou um frêmito de horror em todos os cantos do mundo.

            O apoio de Hitler a Franco que culminou neste bombardeio, era na verdade um prenúncio do que aconteceria a várias cidades do mundo na Segunda Guerra Mundial (1.939-1.945), sendo que ela foi imortalizada pelo pintor Pablo Picasso, no mesmo ano de 1.937.

            Atualmente, com 15 mil habitantes, dista 704 quilômetros de Santiago de Compostela, pelo “Caminho del Norte”.

            Na cidade, fiquei hospedado no Hotel Bolina, localizado dentro de seu histórico “casco viejo”.

   Num restaurante situado no 1° andar do edifício, fiz minhas refeições, posto que todo o comércio, inclusive “tiendas e supermercados, se encontrava fechado em face da data.

            Mais tarde, após um bom descanso, saí passear pela cidade e pude visitar a igreja de Santa Maria, um enorme tempo gótico-renascentista, encimado por um singular campanário.

            Aprovei ainda a ocasião para conhecer o símbolo da cidade, o “Arbol de Gernika”, um carvalho seco, com mais de 300 anos de idade, hoje protegido por um “templete” neoclássico, junto ao qual, tradicionalmeente, juram seus cargos os Deputados Gerais da Província de Vizcaya, bem como “el Lehendakari”, o Presidente do País Vasco.

            Depois, andei com calma pelas bem conservadas ruas que compõem seu centro monumental que, aliás, se encontrava cheio de vida, com seus bares e sorveterias extremamente movimentados.

            Logo depois me recolhi, após saborear uma sopa num bar vizinho ao local de pernoite.

 Fui dormir cedo, pois a etapa seguinte seria longa e desgastante.


Defronte o “Arbol de Gernika”

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada fácil, quase sempre em descenso e bastante arborizada, porém metade de seu trajeto é feito em asfalto, um mal “necessário”, que enfrentei em praticamente todas as etapas de minha peregrinação.


 6ª Jornada - GUERNICA a BILBAO