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02º dia: ALMARGEM à VILA POUCA DE DAIRE – 33.340 metros


02º dia: ALMARGEM à VILA POUCA DE DAIRE – 33.340 metros



“Quando seu barco, há muito ancorado num porto, lhe dá a ilusão de ser uma casa, é chegada a hora de navegar”. (Dom Helder Câmara)


Mochila pronta para a partida.

No pequeno resumo recebido do amigo Aurélio, que havia percorrido esse Caminho em 2013, estava escrito que essa seria a etapa mais difícil dentre todas que eu enfrentaria em terras portuguesas, por isso deveria me preparar e sair bem cedo.

E foi o que fiz, porque deixei o local de pernoite às 6 h 30 min, quando o dia ainda não havia raiado.

Eu acessei uma larga estrada de terra que, depois de aproximadamente 500 metros, principiou a ascender em direção ao topo de uma montanha.

Na realidade, eu estava escalando o monte de São Lourenço, e segui o tempo todo entre tufos de carqueja, queiró e pinheiros.


Bosque arejado no topo da montanha, por onde eu segui em direção à Cabrum.

O dia estava bastante frio, temperatura ao redor de 8 graus, mas quando atingi o cume, eu estava transpirando e aquecido.

Prossegui ainda por trilhas bem demarcadas, situadas entre imensos pinheirais.


Descendendo para a aldeia de Cabrum.

Algum tempo depois, eu atravessei uma estrada vicinal asfaltada e principiei a descender, em meio a intensa e bela vegetação.

Em determinados trechos o descenso é bastante íngreme e precisei tomar imensos cuidados para não levar um tombo ou escorregão.


Cabrum, local abandonado pelos antigos moradores.

E, depois de caminhar aproximadamente 5 quilômetros, passei por Cabrum, uma aldeia sem eletricidade e água canalizada, habitada por hippies modernos, que vivem em comunidade.


Casas rústicas e diferentes.

Alguns residem em barracas, outros em estranhas construções, tipo trólebus.

Essa aldeia fora abandonada por seus moradores alguns anos atrás, que fecharam as vivendas e se mudaram para outras cidades em busca de uma vida melhor.

Mas, recentemente ela voltou a ser repovoada por pessoas que optaram por abandonar a lida desgastante e sem sentido dos grandes centros urbanos, e foram buscar refúgio e um novo significado de vida, no meio da serra e em contato com a natureza.


Casas abandonadas e sem eletricidade.

É constituída, majoritariamente, por casais jovens e algumas crianças.


Alguns dos novos moradores residem em barracas.

O pessoal, que antes ali residia, vivia do pastoreio, mas a nova comunidade tem hortas e plantações de batata, além de animais para ordenha, como pude observar.


Adentrando ao Conselho de Castro Daire.

A povoação se encontrava integralmente silenciosa naquele horário, a não ser pelo ladrar dos cães ante a minha passagem.


A famosa Ribeira de Cabrum, desta feita com pouca água.

Eu prossegui por uma senda matosa e, mais abaixo, sobre pedras, ultrapassei um pequeno riacho, mais conhecido localmente como “Ribeira de Cabrum”.


Aclive no lado oposto.

Na sequência, passei a ascender pelo lado oposto, sempre em meio a pinheiros e muitas flores.


Natureza em festa e cores.

A primavera ali estava adiantada e, para qualquer lado que eu olhasse, sempre via a natureza pródiga, com uma miríade de cores.


Nesse trecho, caminhei um pouco em asfalto.

Mais acima, eu prossegui subindo, agora por uma estrada asfaltada.

Porém, duzentos metros depois, as flechas me guiaram novamente para a esquerda e, aí sim, iniciou-se penoso ascenso, que fui vencendo com parcimônia, fazendo pequenas pausas para respirar.

Notei que a sinalização estava estupendamente bem marcada e fiquei a pensar a razão dessa mudança tão repentina.


Ascendendo novamente, em meio a muitas flores.

Ocorreu-me, então, que um pouco depois de ultrapassar a vila de Cabrum, eu encontrara uma placa me avisando que eu estava deixando o Concelho de Viseu para adentrar no de Castro Daire.

Era esta a explicação à minha surpresa em relação às setas amarelas.

Quase no topo do morro, passei ao lado de imensos barracões onde são criados frango para o corte.


No topo do morro, o caminho voltou a ser plano.

Infelizmente, o nauseante odor que dali se desprendia, ofendia minhas narinas e me fez estugar os passos.

Já no plano, caminhei mais um quilômetro, depois passei por Vila Meã, pequena aldeia, onde também não avistei vivalma.

Descendi por um bosque e, mais abaixo, passei por Moledo, outra minúscula vila, onde cumprimentei um senhor que se dirigia ao trabalho sentado na boleia de um trator.


Fonte em Moledo.

Quase no final da povoação, encontrei uma fresca fonte, onde dessedentei com prazer.


Acenso longo e difícil, o mair duro dessa jornada.

Prosseguindo, caminhei algum tempo por um vale, depois as flechas me remeteram a um bosque, à esquerda.

Em breve teve início um forte ascenso, de larga extensão.


Pausa para descanso.

Embora a estrada estivesse sombreada, ela foi empinando pouco a pouco e parecia não ter fim.

Em determinado patamar, fiz uma pausa para descanso e aproveitei para ingerir uma banana.


Quase chegando ao topo do morro.

Refortalecido, consegui aportar ao cume do morro, onde passei a caminhar entre flores e pinheiros, numa altitude próxima de 900 metros.


Entorno belíssimo.

Nesse trecho a vegetação se mostrou belíssima, plena de cores e olores, um colírio para os meus olhos.


Caminhando pelo cume do morro, ao lado de uma grande pedra.

Num determinado local, mais à frente, eu transitei diante de uma grande pedra de curioso formato, mais parecendo um monstro pré-histórico.

O caminho seguiu plano, pleno de muito verde e flores em profusão.


Caminho belíssimo nesse trecho.

Para onde eu olhasse, podia observar a primavera em plena maturação, até onde minha visão alcançasse.

Na sequência, passei diante do marco geodésico, que é um sinal indicativo de uma posição cartográfica exata, e que forma parte de uma rede de triângulos com outros vértices geodésicos.

Para a sua instalação, são escolhidos sítios altos e isolados com linha de visão para outros vértices.


Marco geodésico, localizado no topo do morro.

Ele é constituído por um vértice geodésico de 1ª ordem, piramidal, em alvenaria com 3 metros de base e 9 metros de altura e está, desde há muito, associado à história da cartografia moderna em Portugal.

Esta iniciou-se no século XVIII, no reinado de D. Maria I, quando a soberana convidou a Academia Real da Marinha a iniciar os trabalhos de triangulação geral do território, para a realização da Carta Geográfica do Reino.


Paisagem florida e inesquecível.

Atualmente, existem 8.000 desses marcos em todo o território português.

Mais adiante eu passei a descender e logo acessei uma estrada vicinal asfaltada.


Descendendo em direção à Mões.

E foi por ela, em ríspido e largo descenso, que aportei à Mões, a maior povoação por onde eu passaria nessa etapa, pois conta atualmente com pouco mais de 1800 habitantes

A simpática vilazinha surpreende pela beleza e arquitetura tradicional, tem pelourinho, comércio, lojas, bancos e restaurantes.

Entre 1820 e 1855 ela foi Sede de Concelho, que era constituído pelas freguesias de Alva, Mamouros, Mões, Moledo, Ribolhos e Cota.

Sendo que, em 1849, ela chegou a ter 4951 habitantes.


Igreja de São Pedro, em Mões.

Ali passei diante de uma igreja cujo padroeiro é São Pedro.

Muito antiga, a paróquia é referida nos inícios do século XIII, no entanto, a atual igreja nada conserva dos últimos vestígios do templo medievo que acabou por desaparecer, talvez, quando das grandes obras de reconstrução da primeira metade do séc. XVIII.


Estátua de São Pedro, em Mões.

Fez-se então uma igreja inteiramente nova, a qual por sua vez foi destruída por um incêndio em 1856, voltando a ser reerguida nas décadas seguintes, mas tão pobremente que, entre 1887 e 1924, tudo foi refeito com magnificência, de forma a resultar numa das melhores igrejas paroquiais do bispado.

Eu sabia da existência de um marco do CPI nessa localidade, onde está gravado que restam 350 quilômetros até Santiago de Compostela, e tentei fotografá-lo, porém, malgrado minha insistência, não consegui encontrá-lo.

Inclusive, conversei com duas pessoas e elas também não souberam me informar onde ele se encontrava assentado.

Até ali eu já havia caminhado 19 quilômetros pela marcação de meu GPS, e tinha vencido 3 duras elevações.

E pela rispidez do Caminho até esse local, acredito que, Mões seja um excelente final de jornada, posto que nela existe ao menos uma Casa Rural para fins de pernoite.


Descenso agradável e sombreado.

Contudo, como desconhecia a rudeza do restante dessa etapa, prossegui adiante.

Depois de leve, mas íngreme ascenso, eu deixei a localidade e logo passei a descender por outro frondente bosque de pinheiros, uma tônica nessa etapa.

O trajeto estava belíssimo, porém o sol já castigava nos trechos em que não havia sombra.


Chegando em Vila Boa.

Mais adiante, transitei por Vila Boa, onde encontrei outra fonte fresquíssima, e pude matar minha sede.


Outro agradável descenso.

Na sequência, voltei a descender novamente.


Final da descida, princípio do aclive. Placa com flecha azul invertida, marcando a direção de Fátima.

No fundo do vale eu transpus um murmurante riacho e, então, iniciou-se outro forte ascenso que, face ao cansaço acumulado, me pareceu duríssimo, embora feito por um bosque.


Aclive difícil, com o sol já no zênite.

Finalmente, no topo da elevação, eu caminhei por um bom tempo no plano, depois passei a descender com violência.

Então, ultrapassei a Autovia Nacional por um túnel e logo passava pela pequena vila de Grijó de Mões.

Apesar de ser um sábado, não vi uma única pessoa nessa pequena povoação.


Descendendo em direção à Ribolhos.

Prosseguindo, continuei em descenso e, depois de ultrapassar a rodovia N-2, enfrentei um pequeno ascenso e logo passei a transitar pela rua principal de Ribolhos.

Nessa localidade está o albergue de peregrinos que tive a oportunidade de fotografar, localizado ao lado de uma escola primária.


Albergue de Peregrinos de Ribolhos.

Porém, pelo que eu vi e sei, não há comércio nessa minúscula vila.

Então, indago, como se alimentará o peregrino que aí pernoitar?


Início de violento descenso, em direção ao rio Paiva.

Prosseguindo, logo fiz uma grande curva à direita, ultrapassei novamente a rodovia N-2, por uma ponte metálica transpus a Autovia Nacional e segui em descenso.

Depois de ultrapassar algumas casas disseminadas, enfrentei duríssimo descenso, onde caminhei com extremo cuidado para não me acidentar.

Então, saí junto ao leito do rio Paiva, onde não há ponte.


Rio Paiva. A ultrapassagem se faz sobre blocos de cimento.

A travessia se faz à maneira antiga, por poldras, marcos de pedra ou cimento, colocados a distância regular sobre a torrente líquida.

Embora as águas estivessem baixas, essa ultrapassagem demanda concentração, pois um simples falsear ou escorregão, resulta num belo tombo em águas revoltas.


Praia fluvial de Fogosa.

Nesse local existe a praia fluvial de Fogosa, que pertence à povoação homônima, da Freguesia de Castro Daire.

A área envolvente possui um bar/restaurante, parque de merendas, uma vasta zona de lazer, campo de jogos, parque de estacionamento que os visitantes podem usufruir para diversão, prática de pesca desportiva ou simplesmente descansar.

Já do outro lado, após fazer uma pequena pausa para descanso e ingestão de uma barra de chocolate, segui novamente em ascenso.

O sol estava no zênite e nesse trecho, localizado na serra do Montemuro, não encontrei sombras.

O trajeto foi longo, não havia árvores para minimizar a temperatura, e não dava para fugir dos raios emanados pelo astro-rei.

Eu já me encontrava bastante fatigado, e demorei bastante para vencer a íngreme elevação, pois a todo momento necessitava fazer pausas para normalizar minha opressa respiração.

Ademais, o calor prosseguia intenso, a brisa queimava.

Finalmente, eu alcancei um planalto e, agora por asfalto, segui em frente e, após uma grande curva, voltei a descender.


Nova ultrapassagem do rio Paiva, considerado até a pouco tempo o rio mais limpo da Europa.

Depois de transitar por caminhos rurais muito bem sinalizados, eu ultrapassei o rio Paiva novamente, também sobre blocos de cimento.

Segui, então, por uma estrada de terra e um quilômetro depois, transitei por Fareja, outro pequeno povoado.


Chegando em Fareja.

Pelos meus cálculos eu deveria estar bem próximo do final da jornada, pois meu GPS dizia que até ali eu já caminhara próximo de 30 quilômetros.

Porém, qual não foi a minha decepção quando indaguei a um casal a respeito da distância até Vila Pouca, e fiquei sabendo que ainda restavam duríssimos 4 quilômetros, ou uma hora de caminhada.


Igrejinha localizada em Fareja.

Eu estava sedento e, por sorte, encontrei uma fonte de puríssima e fresca água, onde me hidratei com prazer.

Prosseguindo, transitei por trilhas matosas bem definidas, algumas situadas entre muros de pedra.


Ascendendo em direção à Vila Pouca.

Mais adiante, eu voltei a ascender por uma ladeira duríssima, que foi minando drasticamente o restante de minhas energias.

A tal ponto que, sinceramente, pensei que não daria conta de caminhar até o final da etapa.

Mais acima, adentrei em Vila Pouca de Castro Daire, minha meta para este dia.


Finalmente, aporte ao Residencial Parque, em Vila Pouca de Daire.

Contudo, ainda precisei atravessar toda a sua longa extensão, até sair na rodovia N-2, localização do Residencial Parque, onde eu havia feito reserva.

Ali, por 15 euros, desfrutei de amplo quarto individual, como todas as comodidades que a vida moderna nos oferece: cama de casal, TV de plasma, wi-fi, etc..


Calçadão localizado diante do Residencial Parque.

Já passava das 15 horas, e, depois de um necessário banho, corri para almoçar no restaurante ali existente, e paguei 8 euros por um excelente “menú del dia”, regado a um excepcional vinho tinto.

Depois de lavar as roupas, deitei para descansar um pouco, pois a jornada fora extremamente exigente, uma das mais difíceis que já enfrentei em toda a minha vida peregrina.


Calçadão localizado diante do Residencial Parque. Outro ângulo.

Ocorre que era apenas o segundo dia de caminhada e minhas pernas ainda não se encontravam fortes o suficiente, bem como meu corpo ainda não havia se adaptado a carregar uma mochila pesando 8 quilos, por mais de 9 horas.

Para complicar, depois das 10 h da manhã, eu enfrentei sol escaldante e calor intenso, pois, vivenciávamos um extemporâneo “veranico”.

Essa terrível conjunção de fatores, aliada aos 6 ascensos que precisei vencer, acabaram por me deixar extremamente exaurido.


Local por onde eu seguiria no dia seguinte.

Mas, nada que uma boa soneca não repare, pois após 2 horas de merecido repouso, dei uma volta pelas imediações, para me inteirar do local por onde eu prosseguiria no dia seguinte.


Parque localizado nos fundos do Residencial.

E, a convite do proprietário do complexo onde eu estava hospedado, visitei um grande parque existente nos fundos do estabelecimento, onde existem esculturas, bancos, parque infantil, capela, passarelas, lago, etc..


Parque localizado nos fundos do Residencial, destinado aos clientes.

Tudo para uso dos hóspedes e frequentadores do restaurante, que fica lotado nos finais de semana.


Uma singela capelinha localizada nos fundos do Residencial Parque.

Eu passei um bom tempo ali respirando o ar puro, caminhando a esmo, admirando a beleza do local e fotografando o ambiente.

À noite, ingeri um frugal lanche, acompanhado de uma taça de vinho, no bar do Hotel.


Parque localizado nos fundos do Residencial.

E logo fui dormir, pois a jornada sequente, de acordo com o resumo que eu levava, também seria bastante árdua.


Escultura situada no parque existente nos fundos do Residencial.

IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de larga extensão, onde se faz necessário sobrepujar 6 elevações, sendo que a segunda e, principalmente, a terceira, não bastante íngremes. Ademais, à exceção de Mões, não existe comércio ao longo desse trajeto. Por sinal, baseado no que vivi nesse duríssimo dia, creio que essa jornada deve ser dividida em 2 partes, sendo o primeiro pernoite feito em Mões, cidade que oferece uma ótima estrutura ao peregrino.


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