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3º dia - TOLOSA - ZEGAMA – 39 quilômetros


3º dia - TOLOSA - ZEGAMA – 39 quilômetros

É essencial andar sempre com as janelas da mente bem abertas, para deixar o ar refrescar a nossa alma.



A jornada seria longa e até onde eu sabia, sua primeira metade seria toda em piso duro, sempre à beira de rodovias.

Por sorte a chuva se fora e os próximos dias seriam frios, nublados, com o sol aparecendo por algumas horas durante o dia.

Dessa forma, após os aprestos matinais, deixei o local de pernoite as 6 h e segui por ruas vazias e silenciosas.

Depois de deixar a zona urbana, caminhei sempre por “bidegorris” (pista exclusiva para caminhantes e ciclistas), e sem maiores dificuldades passei pelos povoados de Alegia, Ikaztegietae e Legorreta, onde eu pretendia pernoitar no dia anterior.

Trata-se de uma bonita povoação, de casas novas ou recentemente restauradas, em cujas ruas caminhei agradavelmente.

Mais adiante, transitei rapidamente por Itsasondo e logo cheguei a Ordizia, onde passei diante de uma enorme feira comarcal, que é realizada todas as quartas-feiras, há mais de 500 anos, servindo os preços que aqui se estabelecem como referência para todos os mercados do País Basco.

As cidades de Ordizia e Beasain se encontram conjuminadas, e não percebi quando deixei uma e adentrei na outra.

Ambas estão situadas às margens do rio Oria, apresentam esplendorosa beleza em suas edificações e eu as atravessei em sentido longitudinal, num percurso urbano, mas, extremamente agradável, porque o caminho transcorre por avenidas situadas entre belíssimos jardins, parques, floreiras, diante de igrejas e outras construções monumentais.

Depois de Besain, avancei em direção a Olaberría, transpondo as vias férreas e uma autopista, que atravessei por uma passagem elevada, e me deixou junto a um campo de futebol.

Em seguida, caminhei por 7 quilômetros até Idiazabal, por caminhos sombreados, rodeados de pastagens, onde avistei cavalos da raça “pottokas”, típicos dessa região.

Também vi vários rebanhos de ovelhas, de cujo leite se faz o famoso queijo artesanal.

No trajeto, descansei um minuto junto a uma fonte, onde havia uma placa com uma poesia em “euskera”, que traduzida para o espanhol, diz: "Gracias a que hemos estado arreglando la fuente al lado del camiño, tienes la oportunidad de beber este agua si has hecho sed a lo largo de tu camiño".

“Gratidão que eu tenha chegado até essa fonte, situada ao lado do roteiro, onde tive a oportunidade de beber dessa água, pois fiquei sedento ao longo do meu caminho.” (versão minha para o português)

Em Indiazabal passei diante do “Centro de Interpretación del Queso”, um produto artesanal feito pelos próprios pastores, em suas casas, com leite de ovelhas.

Ao deixar essa cidade, enfrentei um inclinadíssimo morro e me dirigi a Segura, fundada pelos espanhóis em 1256, para assegurarem-se do caminho até a França.

Trata-se de uma vila que era integralmente amuralhada, onde viviam famílias prósperas, e em cujas ruas pude ver uma enorme quantidade de casas que pertenciam aos nobres.

Nos derradeiros 5 quilômetros eu caminhei, primeiramente, por um “bidegorri”, depois por uma senda ascendente, rodeada por frondosa vegetação.

O albergue está do lado oposto, na saída da cidade, foi montado em módulos pré-fabricados e, pelo que li, oferece até ar-condicionado em suas confortáveis instalações.

Algumas fotos do percurso desse dia:


A primeira metade do trajeto foi sobre ciclovias.


Transitando pela belíssima cidade de Beasain, ao lado do rio Oria.


Abaixo, a cidade de Beasain que vai ficando na saudade...


Caminhando por verdes campos, em terra, finalmente.


Chuviscos, tempo fechado e muita nebulosidade no horizonte.


A fonte onde há uma poesia em euskera, dialeto do País Vasco.



Campos maravilhosos! Paisagens de encher os olhos..


Descendendo em direção à cidade de Idiazabal.


Caminhando em outra ciclovia.


Uma das ruas da medieval cidade de Segura.


Trecho final novamente em ciclovia.


Trânsito por locais belíssimos!

A cidade de Zegama foi fundada em 1615, está situada à beira do rio Oria, aos pés da serra de Aitzgorri, e tem sido um passo histórico que une a península ibérica com a Europa continental.

Historicamente, é a passagem entre a planura alavesa (o caminho procedente da meseta castelhana) e a costa cantábrica.


Igreja matriz de Zegama.

Os romanos construíram por essa rota a calçada que unia a cidade de Briviesca com Pamplona, que posteriormente seria defendida pelo castelo de Gazteluberri, situado sobre o penhasco de Osaolaazpi.

Seu clima corresponde ao norte peninsular, porquanto sua temperatura média anual é de 12 °C, com invernos e primaveras chuvosas.

Porém, com verão e outonos mais secos, porém, ventosos.


Picos nevados ao longe...

A igreja matriz da cidade tem como patrono San Martín de Tours, a quem os peregrinos gauleses professam grande devoção, já que ele é o padroeiro da França.

O edifício data do século XV e em sua porta principal está representada a figura equestre de San Martín, cortando sua capa com sua espada, para dar a metade a um mendigo.


Ao fundo, a serra por onde eu caminharia no dia seguinte.

De importante em seu interior há o mausoléu do general carlista Tomás Zumalacárregui, que morreu aqui em 1835, e a imagem original da Virgem das Neves, datada do século II, retirada de sua capela, por onde eu passaria no dia sequente, para evitar roubo, face ao seu imenso valor histórico.

População atual: 1.514 habitantes


Passeando pelas ruas de Zegama.

Na cidade fiquei hospedado na Pensão Zegama, uma construção nova e de excelente qualidade.

O almoço foi servido no restaurante situado no piso térreo da Pensão, onde degustei um saboroso “menú del dia”, por 12 Euros.


IMPRESSÃO PESSOAL: Uma jornada similar a anterior, apesar do entorno montanhoso, pois prossegui caminhando pelo fundo do vale do rio Oria, onde há grandes núcleos urbanos, como Ordizia e Beasain, e extensos complexos industriais. Porém, depois de ultrapassar essa última cidade, recuperei o agradável sossego dos caminhos montanhosos, onde desfrutei de belas paisagens, situadas entre pastagens, poucas habitações e bosques, localizados longe do tráfego de veículos, dos polígonos industriais e a da intensa movimentação urbana. A partir de Segura, voltei a avançar por pistas cimentadas, exclusivas para ciclistas e caminhantes. Na verdade, a única dificuldade altimétrica dessa etapa se localiza na saída da cidade de Beasain, ainda que seja de pequena extensão: 120 m de desnível, em apenas 1 quilômetro.

No global, uma etapa longa e desgastante, porém, oferece, a partir da cidade de Beasain, paisagens belíssimas, caminhos silenciosos e longos trechos ermos. Tudo o que o peregrino precisa e gosta!

4º dia – ZEGAMA - SALVATIERRA – 23 quilômetros