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09º dia: CHAVES à VERÍN – 28.210 metros


09º dia: CHAVES à VERÍN – 28.210 metros



“Viajar pode ser perigoso. Um forte reflexo de luz é lançado de volta sobre a ‘vida real’, o que, às vezes, pode ser uma experiência perturbadora”. (Frances Mayes)

Confesso que depois da traumática experiência vivenciada na etapa anterior, eu me encontrava bastante inseguro, de forma que na véspera eu caminhara mais de um quilômetro pela zona urbana de Chaves, observando cuidadosamente por onde eu transitaria na manhã seguinte, pois pretendia sair bem cedo.

Assim, deixei o local de pernoite às 6 h 15 min, quando tudo estava escuro, mas eu me encontrava sob o conforto da iluminação urbana, e segui sem medo.


Nesta rotatória eu localizei a primeira flecha do dia. Tempo escuro e chuvoso.

Por azar, logo depois principiou a garoar, então, fiz uma parada estratégica sob uma marquise, para proteger a mochila e colocar a capa de chuva.


Estádio Municipal de Chaves.

Prosseguindo, mas adiante, acessei a Avenida Estádio e logo passei diante do Estádio Municipal de Chaves.


Sinalização do CPI na Avenida Tâmega.

Mais alguns metros percorridos, acabei por desaguar na Avenida 5 de Outubro, que mais adiante se torna Avenida Tâmega, uma via larga e retilínea, por onde segui tranquilo, enquanto lentamente o dia raiava.


Sinalização existente em Outeiro Seco.

Sem maiores problemas, depois de 3 quilômetros vencidos, passei pela vila de Outeiro Seco, onde tudo se encontrava silencioso, nenhuma pessoa ou veículo circulando pelas ruas.


Igrejinha em Outeiro Seco.

Ali pude fotografar a igrejinha local, onde o relógio incrustado no frontispício marcava 7 h 15 min.


Calçadão existente depois da passagem por Outeiro Seco.

Já deixando a povoação, acessei uma larga rodovia e segui por um grande calçadão lateral.

Até aquele local a sinalização se mostrava perfeita, de forma que lentamente fui me acalmando.


Um pastor atravessa o seu rebanho de ovelhas à frente.

Um pastor atravessava seu rebanho à frente, e alguns cachorros fizeram menção de me atacar, no que foram prontamente repreendidos por ele.


Grande rotatória, o caminho segue em frente.

Prosseguindo, mais à frente, acessei uma grande rotatória, segui adiante, ultrapassei a Autovia Nacional por uma ponte metálica, e prossegui em direção a um Polígono Industrial.


Ponte metálica sobre a Autovia Nacional.

Nesse trecho, a intempérie que caía em forma de garoa, desabou com força e não encontrei lugar para me esconder, assim, prossegui adiante e passei defronte às indústrias.

Uma cortina de chuva fria caía de um céu pesado como chumbo e os ventos ameaçadores sopravam as lâminas d’água lateralmente, e diretamente no meu rosto e corpo.


Transitando pelo Polígono Industrial sob forte chuva.

O ar frio e úmido penetrava na pele e nos músculos até a medula óssea, apesar da capa que usava.

Bem, não havia o que fazer, assim, mais adiante, observei que nascia uma bifurcação à direita, mas ali também não encontrei sinalização, embora o meu mentor Aurélio houvesse me alertado, de que eu deveria seguir em direção à Vila Meã e Vilarinho da Raia.

Ocorre que essas instruções estavam guardadas na mochila e, sob a incessante intempérie, não tinha condições de localizá-la naquele instante.

Inobstante tal entrave, também não encontrei nenhuma indicação de que deveria seguir à direita, de forma que prossegui adiante, porque naquele local isolado não havia vivalma para clarificar meu rumo.


Chegando à cidade de Vilela Seca, ainda sob chuva.

Uns 3 quilômetros depois, mas ainda debaixo de densa garoa, adentrei em Vilela Seca, um longo povoado distribuído em ambos os lados da rodovia M-506, por onde eu transitava.

Fazia tempo que não via sinalização, por isso inferia que estava em direção incorreta, mas como resolver tal imbróglio?

Salvou-me uma motorista que vinha em sentido contrário, a qual abordei no desespero, pois me postei ostensivamente no meio da rua, correndo o risco de ser atropelado.

Ela, muito simpática, confessou que nunca havia ouvido falar do CPI, de qualquer forma, me disse que logo adiante haveria uma bifurcação, onde eu deveria tomar à direita e que, mais abaixo, no fundo de um vale, eu encontraria a fronteira espanhola.


Nesse cruzamento, segui à direita.

E quando lá chegasse, deveria indagar a algum morador que rumo eu deveria tomar para aportar à Verín, minha meta para aquele dia.


Reencontro com as setas do CPI em Vilarelho da Raia. Vide flecha na placa azul.

Agradecido, fiz como ela indicou e, mais abaixo, já em Vilarelho da Raia, milagrosamente, numa bifurcação, me reencontrei com as setas do CPI, provenientes de Vila Meã e Vilarinho da Raia.

Sinal de que na bifurcação que encontra logo após o Polígono Industrial, efetivamente, eu deveria ter tomado à direita, mas cadê a flecha indicativa?

Ela pode até existir naquele local, porém eu não a vi.


O caminho seguiu muito bem sinalizado (vide seta na parede, à esquerda).

Eventualmente, ela pode ter sido levada por alguém, como saber?

Mais uma vez eu afirmo, que uma simples seta amarela, pintada no piso asfáltico, teria me indicado o rumo correto, o que me livraria da grande volta por Vilela Seca, feita desnecessariamente, “engordando” meu percurso desse dia em uns 2 quilômetros.


Antigo Posto da Guarda Fiscal, ainda em Portugal.

Bem, mas a partir desse ponto, a sinalização se mostrou perfeita e logo eu estrava transitando diante de uma velha casa onde antigamente funcionava o Antigo Posto da Guarda Fiscal de Portugal, hoje desativado.


Finalmente, adentrando à Galícia.

E, cem metros depois, ao ultrapassar pequeno marco de cimento com a letra P em destaque, eu deixei as terras lusitanas para adentrar na Comunidade da Galícia, já em terras espanholas.

Mais adiante, eu transitei pela aldeia de Rabal, onde fiz uma pausa numa cobertura instalada num parque público.

Tranquilamente, me hidratei, ingeri uma banana e desvesti a capa de chuva, pois a garoa finalmente cessara.


Belíssimo e piscoso rio Tâmega.

Prosseguindo, por uma grande ponte metálica, ultrapassei o belíssimo rio Tâmega e, mais acima, acessei a rodovia N-532, que segue em direção à Verín.

Nesse local, visualizei a derradeira flecha do Caminho Português Interior, afixada num poste.


Esse marco me avisa que eu estava a 10 quilômetros de Verín.

Bem, uma placa ao lado da estrada me avisava que eu estava a 10 quilômetros do meu objetivo do dia.

A rodovia se apresentava plana, com um excelente espaço no acostamento e inexpressivo tráfego de veículos.


Estrada plana, céu se abrindo, eu feliz no Caminho.

O dia clareou, as nuvens foram embora e o sol deu seu ar da graça.


Atravessando a vila de Tamaguelos, por um calçadão lateral.

Eu estava tranquilo e feliz, e prossegui adiante sem pressa, curtindo o belo panorama que se apresentava no entorno.

Depois de uns 5 quilômetros, após ultrapassar a vila de Tamaguelos, inesperadamente, encontrei uma seta do Caminho de Santiago, me remetendo à direita, onde reencontrei um “mojón” com a concha indicadora, a marcação utilizada na Galícia.


O primeiro marco do Caminho de Santiago, me remetendo à direita. O correto e mail fácil seria seguir pela rodovia até o final.

Até ali eu transitara apenas sobre piso duro, de forma que foi com alegria que resolvei seguir por terra nesse tramo final.


O primeiro mojón que encontrei  na Galícia.

Porém, atenção: não recomendo se fiar nessas indicações, como mais adiante clarificarei.

O correto seria seguir diretamente pela rodovia, que pouparia tempo, distância e, novamente, problemas com a sinalização.


Caminho bucólico nesse trecho.

Então, alegremente, transitei por locais agrestes, vinhedos, e exuberante vegetação lateral.

Em determinado local, onde havia um homem arando a terra com um trator, fui recepcionado por três cães que, sem demonstrar medo ou pudor, vieram me cheirar, depois lamberem minhas mãos.

Com eles relaxei e botei um sorriso nos lábios, pois esses animais têm a incrível capacidade de mudar o astral da gente.

Eu mesmo, tenho 4 exemplares em meu lar.

Aproveitei para bater algumas fotos e curtir o bom momento, depois segui adiante.

Na sequência, transitei pelos minúsculos povoados de Mourazos e Tamagos, onde não observei comércio aberto e nem pessoas nas ruas.


Derradeiro trecho em terra. Ao fundo e ao longe, aparecem os prédios de Verín.

Mais abaixo, adentrei numa estrada vicinal asfaltada que, mais à frente, passou a ser em terra.

E ela cessou bruscamente diante das cercas que protegem a Autovia Nacional, deixando-me momentaneamente perdido, pois as sinalizações novamente desapareceram.

Sem opção, eu passei sob duas rodovias, utilizando um viaduto e, por obra do acaso, mais adiante localizei um senhor com quem pude conversar.

Ele me disse que, efetivamente, o caminho que eu seguia era bem antigo e tivera seu roteiro interrompido pelas obras da Autovia, há um bom tempo atrás, mas ninguém se preocupara em sinalizar um novo traçado.


Caminho sem sinalização, mas que me levou à cidade de Verín.

De qualquer forma, me garantiu que eu estava no rumo certo, devendo prosseguir em direção a uma montanha que avistávamos no horizonte, onde foi edificado o Castelo de Monterrey, já que a cidade de Verín se situa ao lado dessa elevação.

Depois de agradecer-lhe, segui adiante, sempre por asfalto e, depois de mais uns 4 quilômetros, adentrei em Verín.


Albergue de Peregrinos de Verín, que só abre depois das 16 horas.

Sabia que ali havia um albergue excelente, mas as informações colhidas com transeuntes, deram conta que ele seria aberto somente depois das 16 horas.

Assim, me hospedei no excelente Hotel Villa de Verín onde, por 20 euros, desfrutei de um excelente quarto individual.

Para almoçar, utilizei os serviços do Restaurante Manchego, onde desembolsei 9 Euros pelo “menú del dia”.

Depois de lavar as roupas e deitar para descansar, notei que a chuva retornara com violência, e seguiu tarde afora.


Prefeitura de Verín.

Famosa pelas suas águas - lugar de maior densidade hidroterápica de Galícia; os seus vinhos - caldos do Val de Monterrey-; o seu rico passado histórico e a sua estratégica localização, - fronteira com Portugal - em Verín ocorre uma simbiose adequada de elementos rurais e urbanos:

Vila comercial e balnearia, com dezessete núcleos de povoações em termos municipais, predominantemente agrícolas.

Sua origem é confusa e difícil de precisar, embaralhando-se diversas hipóteses.

A primeira menção de Verín aparece no Apeo e demarcação feita pelos áulicos de Ramiro II, no ano 950.


Capela de San Lázaro, localizada na parte velha da cidade.

Cabeceira do Val de Baronceli (posteriormente o Castelo de Monterrey), desde a Alta Idade Media, a vila foi repovoada no ano 872, por ordem de Alfonso III.

No medieval perdeu o seu predomínio e era Monterrey quem centralizava, ao redor dos seus condes e senhores, a vida da comarca.

Verín era um povoado agrícola tranquilo, só inquietado pelas guerras que se viram envolvidos os sucessivos governantes de Monterrey, até a Guerra da Independência (março de 1.809), na qual o Castelo foi o cenário da última e mais famosa das suas ações históricas.

Com a decadência de Monterrey, e a entrada da Idade Moderna, a primazia passou de novo à pacata povoação de Verín.

Na Idade Moderna, o poder dos grêmios, a intensa vida do comércio, o artesanato local, ou as casas senhoriais que restam na época, são mostras da próspera vida duma vila que se destacou, até a entrada do atual século, pela fidalguia, sua intensa vida político-cultural e sua atividade comercial e balnearia.

Conta atualmente com 14 mil habitantes.


A rodovia N-525 corta a cidade de Verín.

Às 18 horas, depois que a chuva amainou, segui até a rodovia N-525, que atravessa toda a cidade de Verín.

Na verdade, ela seria minha nova companheira e porto seguro durante a jornada, vez que ela transcorre por todas as cidades onde eu pernoitaria dali em diante, até aportar a Santiago.


"Casa del Assistente", onde fica o albergue de peregrinos.

E foi pelo seu piso que atravessei o rio Tâmega e adentrei ao Albergue de Peregrinos, instalado na histórica “Casa del Assistente”, uma construção de 1737, totalmente reformada e adaptada para sua nova finalidade.

Trata-se de um verdadeiro refúgio 5 estrelas, pois possui ótimas instalações, como pude verificar “in loco”.


Maria José, uma hospitaleira jovem e muito simpática.

A simpática hospitaleira Maria José me recebeu muito bem, carimbou minha credencial, bem como me proveu de informações sobre o que encontraria de importante no Caminho, nas derradeiras 6 etapas que me restavam para encerrar o CPI.

Eu tinha minha esperança de encontrar peregrinos no local, mas, infelizmente, naquele dia nenhum aportara ali, de forma que eu prosseguiria sozinho no roteiro, como de praxe.


No interior do albergue de Verín.

Ela ainda me mostrou o local por onde eu deveria seguir no dia seguinte, se fosse visitar o Castelo de Monterrey, mas me contou que o local se encontrava em obras, estava cercado por tapumes, e que futuramente ali seria aberto mais um Parador Espanhol.

Este milenar castelo está erguido no topo de uma colina, e conserva, dentro de muralhas, e em ruínas, um antigo hospital para peregrinos.

Um cruzeiro localizado num cruzamento da estrada, datado de 636, dá o tom de sua antiguidade.


Rio Tâmega, em Verín.

Classificado como monumento nacional, está a sofrer obras de restauro, financiadas pela União Europeia, que já devolveram à Torre de Menagem, à Torre das Damas e à igreja românica do século XIII a dignidade de outros tempos.

Construído sobre a acrópole de um antigo castro, rodeiam-no três muralhas diferentes que se mantêm quase intatas.

Bem, eu bati algumas fotos do entorno, localizado próximo ao albergue, depois retornei ao local de pernoite, mas antes passei num supermercado e me provi de víveres, que usei para o lanche noturno e no café matutino.

E logo me recolhi, pois teria outra dura e longa jornada no dia seguinte, um domingo.

A chuva que escasseara no início da noite, logo retornou com vigor: pesada e contínua!


Ruas molhadas: muita chuva nesse dia em Verín.

IMPRESSÃO PESSOALUma etapa de razoável extensão, agravada pela chuva que me castigou em boa parte do trajeto. Acresça-se o desgaste pela falta de sinalização na bifurcação existente após o Polígono Industrial, que me obrigou a dar uma grande e desnecessária volta por Vilela Seca. Para finalizar, o arrependimento por ter seguido os “mojóns” indevidamente, no trecho final, que me obrigou novamente a buscar informações para aportar ao local de pernoite, depois de outro inútil rodeio. No global, uma jornada praticamente toda urbana e feita sob piso duro. Mas, em alguns locais, com um belo e verdejante entorno.


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