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10º dia: VERÍN à XINZO DE LÍMIA – 36.330 metros


10º dia: VERÍN à XINZO DE LÍMIA – 36.330 metros


Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV”. (Amyr Klink)


A chuva finalmente cessara e a promessa era de um dia com muito sol, mas sem calor excessivo.

E como era um domingo, resolvi chegar em tempo de almoçar com tranquilidade, para depois fazer contato com minha família no Brasil.


Seguindo pelo acostamento da N-525.

Assim, após os preparativos matinais, deixei o local às 6 horas, acessei a rodovia N-525 e segui por ruas ventosas e frias.

Mais adiante, passei diante do albergue de peregrinos e, observei as flechas amarelas que me remetiam à forte ascenso, em direção ao Castelo de Monterrey.

Porém, como havia chovido muito no dia anterior, com certeza encontraria muita lama no caminho, um risco à minha integridade física.

Ademais, ainda era muito cedo e o dia demoraria a raiar, portanto pouco ou nada eu veria desse espetacular monumento, lembrando que ele se encontrava em obras e fechado para visitas.

Depois, o brusco descenso pelo lado oposto do morro, certamente provocaria escorregões ou quedas, por conta de íngreme declividade ali existente.

Analisando todos os riscos envolvidos, resolvi seguir diretamente pela rodovia N-525, sabendo que após 5 quilômetros eu me enlaçaria novamente com o roteiro original.


Reencontro com as flechas do Caminho na entrada da cidade de Albarellos.

Isto decidido, segui pelo acostamento, no lado oposto ao trânsito de veículos, àquele horário, praticamente nulo e, às 7 h, reencontrei as tranquilizadoras flechas amarelas me remetendo à esquerda, em direção à cidade de Albarellos.


Prefeitura de Albarellos.

Ali, acessei a rua principal e, seguindo as flechas, andei uns 800 metros em leve ascenso, por ruas desertas e silenciosas, até que a sinalização me remeteu à direita, na direção de Infesta.


Caminho agreste e silencioso.

Então, por um túnel, ultrapassei sob a N-525 e, já do outro lado, acessei um caminho bucólico e extremamente úmido, que seguiu em meio a grandes pastagens, num trajeto agradável e fresco.


Muito barro e umidade nesse trecho.

O entorno se mostrava nebuloso, com nuvens cobrindo quase todo o céu, mas as predições meteorológicas descartavam chuvas para aquele dia.


Adentrando à cidade de Infesta.

Mais acima, adentrei numa rodovia vicinal asfaltada e, ainda em ascenso, passei pela pela vila de Infesta onde, novamente, encontrei tudo fechado e sem vivalma nas ruas.


Início do aclive, em meio a um extenso bosque de pinheiros.

Porém, o caminho seguiu muito bem sinalizado e logo após a última casa, acessei uma estrada de terra, em forte ascenso, o grande teste do dia, mas eu observara a planilha de altimetria dessa etapa, e me preparara para as dificuldades advindas.


Muitas flores no entorno.

O caminho seguiu o tempo todo em meio a vastíssimo bosque de pinheiros, onde as flores, em alguns locais, davam um toque de rara beleza ao entorno.


Trajeto solitário, mas bem sinalizado.

Ademais, em determinados patamares eu fazia uma pausa para volver meus olhos para a retaguarda, onde podia avistar um grande e verde vale, por onde eu viera caminhando.


Muita nebulosidade no horizonte.

Em alguns cruzamentos nasciam várias variantes em diferentes direções, mas o caminho se mostrou estupendamente sinalizado nesse trecho e não tive dúvidas do meu rumo.


Caminho por onde eu viera caminhando, abaixo.

O aclive foi bastante exigente, mas, após alcançar o topo do morro, ainda caminhei um bom tempo em leve ascenso, em meio a belíssimo visual, até sair mais acima novamente na rodovia N-525, a qual ultrapassei, seguindo a sinalização.

Já do outro lado, acessei outra estrada vicinal asfaltada, desta vez em direção a aldeia de Rebordondo.

Em determinado local, fiz uma pausa para descanso e hidratação, enquanto observava atentamente a paisagem circundante onde o céu ameaçava se abrir, propiciando a presença de sol abundante.


Nesse caminho úmido e deserto, eu me perdi.

Prosseguindo, mais acima, as flechas me remeteram para um bosque fechado, onde acessei uma trilha bastante úmida e as marcações desapareceram.

Em princípio eu segui pela estrada mais batida, observando atentamente o piso molhado, na tentativa de localizar marcas de botas, que me infundiram mais confiança.

Ocorre que, mais adiante, em determinados locais, o caminho se bifurcou várias vezes e depois de uns 15 minutos eu fiquei totalmente perdido já que, face o mato envolvente, eu não tinha a visão do local para onde eu caminhava.


Seguindo em direção à Rebordondo.

Depois de várias idas e vindas, resolvi retroceder até o asfalto, pois estava completamente zonzo pelas possibilidades que se abriam a cada momento, todas elas vincadas por passos recentes, que acredito sejam de pastores.

Pois bem, quanto retornava, ao explorar um ramal ascendente, inopinadamente topei com um “mojón” sinalizador, assim, segui o rumo por ele apontado e consegui caminhar mais tranquilo, não sem sofrer um razoável desgaste físico e psicológico, pois eu estava sozinho, no meio de um matagal e sem ninguém à vista.



Porém, uns dois quilômetros depois, emergi da mata, atravessei pequeno regato por uma ponte e logo passava por Rebordondo, outra pequena aldeia onde encontrei tudo fechado e nenhum trânsito nas ruas, seja de pessoas ou veículos.

A sinalização me remeteu por asfalto, sempre em ascensão, até o final do povoado, onde ultrapassei uma rodovia e apareceram 3 possibilidades para a sequência da jornada, aí novamente as flechas misteriosamente haviam desaparecido.

Busquei indicações, mas debalde meus esforços, nada encontrei, bem como não apareceu nenhuma pessoa ou veículo a quem eu pudesse tomar informações confiáveis.

Aparentemente, pelas minhas convicções e anotações, eu deveria seguir em frente ou girar à esquerda, depois prosseguir em direção à Penaverde e Estibadas, mas cadê as benfazejas setas amarelas para me guiar nesse percurso?

Decepcionado, resolvi girar à direita e, por uma estrada asfaltada, depois de 500 metros, acessei novamente a rodovia N-525, seguindo à esquerda, em forte ascenso.

Aparentemente, pelo que percebi posteriormente, parece que esse é mesmo o rumo correto, mas a falta de sinalização deixa qualquer peregrino perdido e estressado, como no meu caso.

Acredito que a melhor opção nesse caso seria, ao invés, de seguir as indicações abaixo como eu fiz em direção à Rebordondo, evitar esse trecho e prosseguir diretamente pela rodovia N-525, que estará no rumo certo e evitará dissabores desnecessários.


Chegando ao Alto das Estibadas, altitude de 848 m.

Bem, mas em franca ascensão, no topo do morro, eu alcancei o Alto das Estibadas, localizado a 848 m de altitude, a maior altimetria dessa etapa.

Então, enquanto caminhava por um local levemente plano, ultrapassei uma rotatória e as flechas amarelas misteriosamente reapareceram, pintadas de forma ostensiva no piso asfáltico, indicando que eu deveria seguir à esquerda, por uma estrada vicinal, em direção à Penaverde ou Estibadas.

Ocorre que pelas indicações que eu imprimira desde o site do Mundicamiño e levava comigo, eu sabia que os caminhos iriam se confluir mais abaixo, de modo que já vacinado contra o infortúnio, optei em seguir sempre pela rodovia, onde praticamente não havia tráfego de veículos.


Descendendo pela N-525, uma rodovia praticamente sem tráfego nesse dia.

Pelo menos a N-525 me oferecia uma confortável área no acostamento, onde me sentia em segurança e, ademais, a partir dali eu seguiria sempre em franco descenso.


Entorno belíssimo, ainda pela rodovia N-525.

Dessa forma, relaxei e segui adiante em passo cadenciado, admirando tranquilamente o visual oferecido pelo entorno, que se mostrou belíssimo.


Adentrando à pequena vila de Viaderrei.

Uma hora depois, já no plano, passei pela pequena vila de Viladerrei e, logo na entrada da povoação, percebi que as flechas amarelas retornaram, pois os caminhos se fundem novamente nessa aldeia.

Mais dois quilômetros caminhados em zona urbana, sempre à beira da rodovia, adentrei em Trasmiras, uma vila maior, onde existe comércio e um bom albergue de peregrinos.


Chegando em Trasmiras.

Inclusive, ela é indicada para local de pernoite nessa etapa, para quem pretende dividir o trecho até Ourense em 3 jornadas, o que não era meu caso.

Pois, animado e refeito, após uma pausa para hidratação e ingestão de uma barra de chocolate, segui adiante.


Logo após ultrapassar Trasmiras, as flechas me remeteram à esquerda.

E logo na saída da cidade, as flechas me remeteram, primeiramente, à esquerda, por uma estradinha asfaltada.


Caminho longilíneo e solitário, com bastante vegetação nesse primeiro trecho.

E, mais adiante, à direita, por um caminho levemente descendente, localizado entre campos de pastagens e extensas culturas de trigo.


Trajeto plano e agradável.

Esse foi, sem dúvida, o ponto alto do dia, pois caminhei integralmente solitário, por locais de rara beleza, enquanto podia observar a rodovia N-525, correndo ao longe, pelo meu lado direito.

Da mesma forma, pelo meu lado esquerdo, seguia a Autovia Nacional, onde o trânsito se fazia constante em ambas as direções.


O caminho descende sempre, com muito verde no entorno.

E eu, no meio da natureza, ouvindo o som dos pássaros, sentindo uma fresca brisa acariciar meu rosto, pude externar minhas orações por um domingo abençoado, enquanto lentamente as distâncias iam diminuindo em relação ao meu objetivo do dia.

O primeiro trecho se mostrou bastante inculto e matoso, e ali pude observar vários rebanhos de ovelhas pastando sob a guarda atenta de seus pastores e cães.


Caminho deserto e plano.

Nesse tramo inicial também vi, em duas ocasiões, pessoas treinando seus cães de caça, pois o local se apresta a tal tipo de atividade, face à fauna abundante que ali existe, na forma de lebres e pequenos roedores, conforme me disse um deles, a quem indaguei sobre a atividade ali desenvolvida.

Mais abaixo, depois de caminhar bastante, transitei rapidamente pela vila de Zos, depois retornei aos campos.


Um dos melhores e mais bonitos trechos do CPI.

Então, voltei a vivenciar uma autêntica manhã de domingo, com direito a sol, pássaros, nuvens e sinos distantes, junto a uma imaculada e verdejante natureza.


Trajeto imutável, sempre junto à natureza.

E vale dizer que ao ar livre, fico mais próximo de minha essência.

Aproximadamente 8 quilômetros percorridos, as flechas me direcionaram para a rodovia N-525, a qual ultrapassei cuidadosamente, depois seguindo as flechas, por um viaduto, eu passei sob a Autovia Nacional.

Então, segui à esquerda em direção à vila de Boado, onde nada vi além de algumas casas disseminadas, uma pequena igrejinha, e logo as marcações me fizeram retornar à esquerda.


Nesse local, ao invés de seguir em frente, o correto é dobrar à esquerda, e prosseguir diretamente pela N-525.

Mais acima, ultrapassei a Autovia Nacional por uma extensa ponte metálica, até sair novamente na N-525, a qual ultrapassei, depois segui à direita, por uma estrada vicinal asfaltada, situada junto a uma bela ribeira.

Esse percurso, quase no final de extensa jornada, se mostrou integralmente desnecessário, já que, sem qualquer conotação histórica, não vi nenhuma necessidade de transitar por Boado.

A dica então é que, ao acessar a N-525 pela primeira vez, ao invés de ultrapassá-la e seguir as flechas amarelas, o mais lógico é prosseguir nela, à esquerda, diretamente em direção a Xinzo de Límia, pois além de nada perder em termos históricos, o peregrino ainda vai economizar uns 2 quilômetros na jornada.


Trajeto plano em direção à Xinzo, junto ao rio Limia.

Bem, eu segui ainda uns três quilômetros por um agradável trajeto, plenamente arborizado, onde vi pessoas correndo, outras caminhando, alguns passeando de bicicletas.


Rio Limia, que dá nome a Xinzo.

Enfim, o trânsito por esse tramo derradeiro foi de contemplação e tranquilidade, embora o cansaço já se fizesse sentir, em face da longa jornada cumprida.

Já em zona urbana, solicitei informações a um simpático e atencioso senhor e, depois de 5 minutos, adentrava ao Hotel Orly onde, por 20 euros, pude usufruir de um amplo e confortável quarto, um dos melhores onde pernoitei nesse caminho.

Rapidamente, tomei banho, depois desci almoçar no restaurante situado no piso térreo do estabelecimento.

E ali paguei 9 euros por um saboroso “menú del dia”, que me deixou novamente animado e refortalecido.

Depois, foi hora de lavar roupas e fazer as anotações sobre o percurso vivenciado naquele dia.


A principal avenida de Xinzo de Límia.

Xinzo de Límia tem as características dos povos límicos, que se assentaram durante a dominação romana.

No norte do município existem vestígios da via XVIII, do itinerário de Antonino, que unia Braga e Astorga.

A cidade foi conquistada e reconquistada por parte do rei português Afonso Henriques.


Hotel Xinzo em Xinzo de Límia.

Finalmente recobrada por Afonso II, passou a constituir um condado.

Sua festa mais tradicional é o “Entroido”, o carnaval mais longo existente em terras espanholas, e que dura 5 domingos.

Conta atualmente com 14 mil habitantes e dista 45 quilômetros de Ourense.


Uma das ruas do "casco viejo" de Xinzo.

Após uma rápida soneca, saí passear pela cidade onde, por sinal, não há albergue.

Assim, o peregrino que pernoitar em Trasmiras, segue na jornada sequente até Allariz, conforme propõe o guia desse caminho.


Igreja de Santa Maria.

Primeiramente, eu fui fotografar a igreja dedicada à Santa Maria, uma edificação no século XIII, como visto nas escavações feitas dentro e fora do templo em 1997, em que apareceu a abside de uma capela.

Depois segui até o maravilhoso rio Límia, que banha e dá nome à cidade.


Parque público de Xinzo.

Posteriormente, visitei um belo parque localizado nas cercanias da urbe, onde havia música, pessoas espairecendo, passeando, crianças correndo, enfim, estávamos num domingo à tarde, e havia muita gente flanando pelas ruas.

Na sequência, ainda dei um grande giro pelo “casco viejo” da urbe, aproveitando para observar cuidadosamente o local por onde eu deixaria a povoação no dia sequente.

E como não encontrei nenhum “tienda” ou supermercado aberto, à noite fiz um frugal lanche no bar do hotel, acompanhado de um aromático e saboroso vinho da casa.

Porém, logo me recolhi, pois a temperatura despencara e fazia muito frio naquela noite.


O rio Limia, que dá nome a cidade.

IMPRESSÃO PESSOAL: Uma etapa de grande extensão, agravada pela falta de sinalização confiável em alguns trechos do percurso. No entanto, quase sempre trilhada em meio a muito verde e com entorno maravilhoso. Destaque para o trecho final, logo após Trasmiras, um dos mais belos e tranquilos que vivenciei nesse trajeto. Em derradeiro, quase no final da jornada, a passagem pelo povoado de Boado é totalmente dispensável, pois só acresce cansaço ao peregrino.


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