21ª Jornada - CADAVENO a LUARCA

21ª Jornada – Cadaveno a Luarca - 21 quilômetros: “Em direção a um emblemático povoado!” 

             

              Aparentemente, o percurso não ofereceria grandes desafios, posto que se estenderia por poucos quilômetros, e com ínfima variação altimétrica.

            Porém, choveu a noite toda, inviabilizando percursos por atalhos de terra, pois certamente eu encontraria grande dificuldade na locomoção, por conta das poças de água e muito barro.

            De qualquer maneira, era domingo, dia em que o comércio fecha mais cedo, assim, resolvi sair no horário costumeiro, a fim de atingir meu objetivo o mais cedo possível, e chegar a tempo de saborear o almoço, minha principal refeição do dia, com bastante calma e proveito.

            Desse modo, deixei o hotel às 6 h e caminhei em direção à rodovia N-632, para acessar o roteiro oficial, pois meu local de pernoite distava uns 1.000 m das primeiras flechas amarelas.

            Estava frio e uma fina garoa caía sem cessar, deixando o ambiente nebuloso, o que dificultou minha visualização dos acidentes geográficos que havia memorizado no dia anterior, com vistas a facilitar meu trânsito, pois o lugar era composto de ruas curtas e tortuosas, em meio a muita vegetação.

            Porém, não havia vencido nem 500 metros quando a chuva chegou para valer, com trovões, raios e muita água descendo do céu.

            Prudentemente, eu me abriguei sob o parapeito de uma casa comercial e aguardei por um 30 minutos até que a intempérie amainasse.

            Depois, pela primeira vez na aventura, vesti meu poncho impermeável e, bastante animado, acessei a “carretera”, prossegui em bom ritmo, e logo passava defronte à entrada de Villademoros, um povoado distante uns dois quilômetros da pista.

   Dali, é possível visualizar uma imponente torre medieval, cuja construção data do século XIV.

            Há um palácio anexo que, na atualidade, foi convertido num concorrido hotel de luxo.

            Mais adiante, ultrapassei a linha férrea e, em seguida, passei por San Cristóbal e Querúas, onde, em face do horário matutino, encontrei tudo fechado e em silêncio.

            Duzentos metros adiante, o roteiro seguiu à esquerda, por uma estrada vicinal asfaltada, que ia em direção de Canero, lugar onde passei diante da igreja de “San Miguel de Canero, que ocupa o lugar de um antigo monastério, cuja fundação remonta ao século IX.

            O nome desse povoado me fez imaginar que tal qualificação possa ter ocorrido por conta da imensa quantidade de cães que convive nas casas desse vilarejo, já que na maioria delas eu pude contar entre três ou quatro desses doces animais.

            Na sequência, passei ao lado do cemitério da cidade e logo transpus o belo rio Esla, por uma moderna ponte.

            No final da pequena povoação, abrem duas possibilidades: uma, seguir o asfalto ou, dois, descer uma encosta e seguir à beira mar, por uma trilha que beira a praia de Cueva para, em seguida, adentrar num bosque em brusca ascensão, até sair novamente na rodovia, mais acima.

            Porém, segundo o guia que eu portava, tal roteiro não deveria ser acessado em dias chuvosos, por conta de seu mau estado de conservação, de maneira que, sem opção, prossegui pelo asfalto.

            Depois de caminhar 9 quilômetros, passei por Caroyas, outro pequeno “pueblo”, onde avistei um bar aberto e entrei para tomar um providencial café.



   Naquele momento a chuva se fora, porém um vento frio e insidioso, vindo da direção do mar, varria a campina à minha frente.

            A partir desse local, as flechas me direcionaram algumas vezes por caminhos de terra, porém, sobre atalhos curtos, em meio a muito verde e estradas bem conservadas.



            Finalmente, depois de 12 quilômetros vencidos, a sinalização me encaminhou para a direita, em direção a um caminho gramado, pelo qual segui por bastante tempo, sempre em direção ao oceano.

            Quando finalmente atingi a orla, passei a caminhar em zona urbana, sobrelevando inúmeros bairros e vilas, situadas à beira do mar Cantábrico, onde avistei casas bem cuidadas, praças limpas, pessoas amáveis e, inclusive, um arco-íris no céu.

            Mais alguns quilômetros em agradável e fresca toada, finalmente avistei, do alto de um promontório, quando tinha a cidade de Almuña à minha esquerda, abaixo, junto ao mar, uma emblemática vila marinheira, minha meta para aquele dia.

            Foram, aproximadamente 1.000 metros em brusco descenso, por uma rodovia cheia de curvas, até aportar ao “casco viejo” de Luarca, uma localidade que apesar de ser bem maior em termos populacionais, possui uma geografia parecida com a da cidade de Cudillero, local onde eu pernoitara há duas jornadas.

            A cidade é a capital do Conselho de Valdés e, na verdade, trata-se de um porto natural, situado na desembocadura do rio Negro, flanqueado por duas montanhas de pronunciadas vertentes, por onde cresceram os bairros dessa povoação, de maneira escalonada.

            No promontório de La Atalaya, que cerra o flanco oriental da baía, junto a um grande farol, de onde se tem excepcionais vistas do mar, está situada a igreja de “La Viergen Blanca” e seu famoso cemitério, pleno de esplêndidos “panteóns” modernistas.

            Por sinal, nele se encontra enterrado Severo Ochoa, que nasceu nessa localidade em 1.905 e ganhou o Prêmio Nobel de Medicina, em 1.959, em razão de suas pesquisas sobre o ácido nucléico, do qual ele foi o pioneiro na síntese do RNA.

            Ali, fiquei hospedado no Hotel Báltico, e para almoçar utilizei as instalações de um dos vários restaurantes situados nas imediações da praça “del Ayntamento”, a principal desse simpático e belo povoado.



            Por sorte, ao verificar o solado de meu pé esquerdo, constatei uma expressiva melhora na cicatrização da área afetada, concomitantemente, houve atenuação da dor no local.

  Efetivamente, uma ótima notícia em termos físicos.



            Mais à tarde, dei um grande giro pela urbe e aproveitei a ocasião para conhecer a igreja dedicada à Santa Eulália, que aparece citada num documento datado do ano de 914.

            Na frente dela existiu um hospital de peregrinos, que, em 12 de novembro de 1.726, acolheu o francês Manier, cujo diário registrou a manutenção de oito camas no local.



            Infelizmente, apesar do grande número de turistas existentes naquele dia, estranhamente, não encontrei “tiendas”, padarias ou supermercados abertos.

   Dessa forma, tive que adquirir meu lanche da noite e víveres para a etapa seguinte num concorrido bar, e me contentar com o preço exorbitante.

            Mais tarde o tempo voltou a esfriar, com chuviscos intermitentes em meio a muito vento, de maneira que, rapidamente me recolhi, e logo fui dormir.

           


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa de pequena extensão e sem grandes variações altimétricas, contudo, ¾ do percurso foi cumprido sobre piso asfáltico, realmente um tormento para o caminhante. No geral, uma etapa tranquila, plena de bosques e muito verde, com uma grata surpresa na chegada à Luarca, um “pueblo” hospitaleiro e de uma beleza incomum.


 22ª Jornada - LUARCA a NAVIA