22ª Jornada - LUARCA a NAVIA

22ª Jornada – Luarca a Navia - 20 quilômetros: “Mudança de Planos!”  

               

            Inicialmente, minha programação para aquela data era seguir até La Caridad, num percurso de 34 quilômetros, contudo, depois de verificar meus mapas e apontamentos, constatei que naquela cidade não havia hotéis ou outros estabelecimentos do gênero em funcionamento, apenas um albergue de peregrinos.

            Dessa forma, como não levara meu saco de dormir e tivera a oportunidade de dialogar longamente, no dia anterior, com o Sr. Otávio, o simpático porteiro do hotel onde eu me instalara, resolvi alterar meus planos.

  Assim, pernoitaria antes, em Novia, um povoado grande e progressista, onde desfrutaria de todos os serviços essenciais que o caminhante necessita.

            E, na jornada seguinte, recuperaria o trecho faltante, posto que aquela, originalmente, importaria em apenas 21 quilômetros.

            Dessa forma, levantei às 6 h, calmamente me preparei para a rotina do dia e, sob muito frio e forte névoa, deixei o local de pernoite às 6 h 45 min, subindo pela “calle” de La Peña, em íngreme ascenso, até o topo de uma colina.

            Naquele local, acessei o antigo “Camiño Real de Santiago” e prossegui à esquerda até a localidade de El Chano, onde, num cruzamento, segui em direção ao “Camping de Los Glayus (museo rural)”.

            Nem bem caminhara uns 200 metros, eu “tropecei” com as ruínas de uma igreja dedicada a Santiago de Ribadecima, abandonada em 1.922, por conta da lotação de seu cemitério, que abrigava vítimas da gripe espanhola de 1.918, e o pároco temia que os humores ali exalados pudessem contagiar os frequentadores dessa ermida.



            De qualquer maneira, me impressionou o grau de deteriorização sofrido por esse templo, nos últimos 90 anos.

            Após ultrapassar uma grande e descampada planície, o roteiro prosseguiu por uma estrada vicinal asfaltada, em meio a muito verde e casas esparsas.

  Nesse trecho passei por L'Outeiro, la Comipia e Taborcias,  pequeníssimos povoados, onde não encontrei nenhum comércio aberto.

            Depois passei em Villuir, outra pequena vila, e mais acima atravessei a rodovia N-634, cujo trecho abarca intenso tráfego, posto que nessa região específica, ainda não existe outra opção para quem se dirige à cidade de Ribadeo, a maior cidade dessa região, localizada na fronteira com a Galícia.

            Em seguida, depois de girar à direita, segui em direção à Contancios, pequena vila sobre um outeiro.

   Na sequência, adentrei em Otur, porém bordeei a cidade por sua parte alta, onde pude observar a existência de inúmeras mansões, recentemente edificadas.

            Naquela zona não havia comércio, de forma que ao ultrapassar a última casa do povoado, girei à direita, cruzei um pequeno riacho e prossegui por uma larga estrada de terra, em meio a um bosque de eucaliptos, tendo ao lado uma plantação de samambaias silvestres, a ladear  todo o percurso.

            Depois de um quilômetro aproximadamente, tive meus passos obstados pelas obras da Autovia Nacional, que naquele trecho está um tanto atrasada, porém, a partir desse local, o caminho se espreme entre passarelas, adaptadas ao ambiente hostil, com o fito de dar segurança ao peregrino.



            Fui labutando entre muitos rochedos, até sair mais abaixo, numa pedregosa senda, agora em perigoso descenso e, no final de extensa ladeira, saí na N-632, novamente, num local onde o trânsito estava sumamente complicado.

   Pois, por conta do tráfego de máquinas pesadas, apenas um lado da pista ficara aberto, deixando o fluxo de veículos em intermitência, para ambos os lados.

            Perigosamente, dividi o ínfimo acostamento da rodovia com caminhões, ônibus, automóveis e máquinas escavadeiras, num local perigoso e bastante estressante para aqueles que, como eu, seguia a pé.

            No entanto, depois de ultrapassar um rio sobre uma graciosa ponte, e sob os eflúvios divinos, adentrei, à esquerda numa pista asfaltada, em ascendência.

   Contornei, então, um estande de tiros local e depois de breve ascensão, passei defronte a “Casa Carmina”, um lugar onde observei belas esculturas homenageando o Santo Apóstolo.

            Ali também existe uma fonte de água e bancos bem talhados em madeira, que convidam o peregrino a descansar, refrescando-se num lugar situado no alto de pequena elevação, em meio a um verde exuberante.

            A proprietária estava diante do local regando um grande canteiro de flores, de maneira que parei para trocar “um dedo de prosa” com ela.

            À minha indagação, confirmou que o traçado da Autovia não iria atingir os seus domínios, pois passaria a largo, no cimo de uma elevação, talvez a uns 300 metros de onde nos encontrávamos.



   Contudo, certamente aquele esplêndido lugar teria seu bucólico sossego invadido pelo barulho ininterrupto do pesado tráfego de veículos que brevemente será desviado para a nova estrada.



            No final de um breve ascenso, segui por uma larga via asfaltada e logo adentrava em Villapedre, pequena povoação constituída de casas simples e dispersas, e no final de uma grande reta, passei defronte à “Iglesia românica de Santiago”, um tempo do século XIII, com artesanato de madeira em sua única nave.

            Após ultrapassar a ermida, precisei transpor a rodovia N-634 e, já do outro lado, ultrapassei a via férrea por um túnel, depois caminhei um quilômetro em meio a um descampado e logo cheguei à Pinẽra, outro povoado situado ao lado da rodovia nacional, onde avistei um agradável e novo albergue de peregrinos.

            Caminhei mais um pouco e logo atravessei a N-634, agora para o seu lado direito, seguindo, primeiramente, uma trilha matosa, depois, já em asfalto, segui em meio a algumas fazendas de gado.



            Depois de breve descenso, pela quarta vez eu cruzei a “carretera” nacional e adentrei numa trilha boscosa que, depois de uns 500 m, transformou-se numa pista úmida e alagada, em meio a um imenso bosque.

            Mais à frente, atravessei um gracioso riacho em cima de umas pedras alocadas em seu leito e, quando deixei a parte frondosa, adentrei num grande pasto, onde não avistei sinalização, justamente quando a senda se bifurcava.

            Observando os rastros decalcados na lama que cobria o piso, segui à esquerda, em breve ascensão, e logo adentrava em Villaoril, um minúsculo povoado onde vislumbrei, ao seu redor, inúmeras fazendas dedicadas à criação de gado leiteiro, base da economia local.

            A partir dali, sempre por asfalto e contando com uma ótima sinalização, prossegui à direita e depois de dois quilômetros, passei pelo centro da vida de La Colorada, onde avistei inúmeras indústrias e concessionárias de carros, bem como alguns hotéis de luxo.

            Prossegui em asfalto, agora em brusco descenso, e depois de mais um quilômetro percorrido, adentrei em zona urbana, seguindo por movimentada avenida até o centro de Navia, minha meta para aquele dia.

            A bela e progressista cidade está alocada na desembocadura do rio de mesmo nome, o maior e mais importante do Principado das Astúrias.

            Segundo a história, seus primeiros povoadores foram os Celtas, 400 anos a.C, e nela foram encontrados vestígios da época da invasão romana dos quais, por sinal, ainda conservam restos da muralha que cercava essa localidade, construída no século XI, a mando do rei Alfonso X.

            Passagem obrigatória dos caminhantes medievais, essa povoação tinha um hospital de peregrinos que funcionou até o século XVIII e, diz a história, que no Castelo de Anleo, do qual hoje se conservam suas ruínas, pernoitou em 1.214, São Francisco de Assis, quando por ali transitou em direção à Compostela.



            Nela existe um grande parque campestre, em homenagem a Ramón de Campoamor (1.817/1.901), um famoso poeta espanhol do período realista, nascido nessa cidade.

            Ali fiquei hospedado no hotel Arconavia e depois de um revigorante banho, pude verificar, com grata satisfação, que a lesão que me acometera debaixo do pé esquerdo, estava em franca recuperação.



            Para almoçar, utilizei os serviços do bar Repelo, onde pude degustar um excelente “menu del peregrino”, pelo módico preço de 8 Euros.

            Depois de uma pausa necessária para descanso, saí passear pela cidade e primeiramente, me provi de algodão e esparadrapos numa farmácia.



            Na sequência, fui conhecer o movimentado porto que a cidade abriga, situado ao lado de uma grande marina, e no retorno aproveitei para carimbar minha credencial na oficina de turismo.

            Como de rotina, à noite optei por um singelo lanche no próprio quarto, já preocupado com a jornada seguinte, pois ela seria de razoável extensão.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa de pequena monta, porém o peregrino enfrenta grandes dificuldades na travessia de trechos onde se encontram em execução as obras da Autovia Nacional. Como as anteriores, ela também foi, salvo raras exceções, praticamente toda cumprida em asfalto. No geral, um percurso sem grandes variações altimétricas e com muito verde a colorir a paisagem.


23ª Jornada - NAVIA a RIBADEO