BREVE HISTÓRIA

BREVE HISTÓRIA



Tudo começou no século IX, com a presumível descoberta do túmulo do Apóstolo Santiago na Galiza.

Segundo a tradição medieval, o eremita Paio foi alertado por luzes noturnas, produzidas no bosque de Libredón.

Então, ele anunciou ao bispo de Iria Flavia, Teodomiro, que descobrira os restos de Santiago Maior e de dois dos seus discípulos.

Possivelmente, no lugar que, posteriormente se levantaria a cidade de Compostela, topônimo que poderia vir de Campus Stellae, isto é “campo de estrelas”, ou mais provavelmente de Composita Tella, “terras bem ajeitadas”, eufemismo de cemitério.

A descoberta propiciou ao rei Afonso II das Astúrias, realizar uma visita ao local.

Posteriormente, na volta, proclamou no interior do seu reino e no exterior a existência de um novo lugar de peregrinação da cristandade, num momento em que a importância de Roma decaíra, e Jerusalém não era acessível por estar em poder dos muçulmanos.

A rota para Santiago a partir de Portugal, também é bem antiga, devido à proximidade das terras lusas e a Província da Galícia.

Ainda, como ocorreu na Espanha, mas talvez de uma forma menos incisiva, o Santo também influiu na formação do país lusitano.

A reconquista portuguesa deu-se sob a invocação de Santiago, que foi patrono português até o século XVIII, quando, por influência inglesa e intenção de se afastar dos espanhóis, São Jorge substitui o Apóstolo.



Porém, ao contrário da Espanha, não houve a formação de uma única rota para que os peregrinos chegassem ao túmulo de Tiago Maior – e isso se deve pela forma diversa que o país se formou.

Com isso, os peregrinos lusos percorriam as diversas calçadas romanas – uma malha rodoviária da época, por assim dizer – para chegar à Compostela.

Há uma possível rota pela costa, outra pelo centro, mais uma pelo interior, e diversas na região do Minho.

Em 1325, após a morte de Dom Dinis, a rainha Santa Isabel peregrinou a Santiago, seguindo seguramente uma rota muito semelhante àquela que está hoje marcada pelas setas amarelas.

Naquela ocasião, ela cruzou a recém-concluída ponte de Barcelos, evitando assim um desvio por Braga.

Com a construção de novas estradas, o caminho seguido pelos peregrinos sofreu algumas alterações no século XIX, tendo o roteiro inicial caído em desuso.

Com o crescer da popularidade do “Camiño” no século XX, a Xunta de Galícia divulgou em 1993 o itinerário Tui – Santiago.



Finalmente, na primavera de 2006, um grupo de portugueses e espanhóis pintou a última seta do percurso entre Lisboa e Santiago.

 

MINHA VIAGEM



Minha aventura começou numa terça-feira à tarde, quando embarquei em São Paulo, rumo a Portugal.

No dia seguinte, após um breve translado pelo aeroporto de Madri, eu desembarquei na cidade de Lisboa.

Rapidamente, tomei um táxi e, na sequência, me registrei na Pensão Nova Gaia, situada em local privilegiado, no bairro da Alfama, e próximo da Praça do Rossio.

Depois de tomar um banho, arrumar minha mochila e descansar um pouco, segui, animado, em direção a Catedral da Sé, um templo dedicado a Santo Antônio (de Pádua), posto que ele era português, de nascimento.

O tempo mostrava-se carrancudo, frio, e com uma garoa intermitente.

Ao chegar defronte ao templo, para minha grata surpresa, encontrei com 4 peregrinos italianos, que tinham acabado de desembarcar do trem e estavam iniciando sua peregrinação naquela data.



Conversamos animadamente, e ao saber de minhas intenções, me convidaram para seguir com eles até o Parque das Nações, onde pretendiam se hospedar na Pousada da Juventude.

Porém, não pude aceitar o convite, pois me encontrava cansado em face da longa viagem aérea e pela mudança de fuso horário.

Posteriormente, soube que eles haviam pernoitado mais à frente, em Sacavém, de forma que, infelizmente, nunca mais os encontrei.

Na companhia dos ítalos, adentramos todos à igreja e nos dirigimos à Secretaria da Catedral, onde obtivemos o primeiro carimbo em nossa Credencial Peregrina.

Os meus novos amigos se detiveram em uma demorada visita ao templo, assim, me despedi deles, e depois localizei ao pé do portal da igreja a primeira flecha amarela do Caminho Português, fato que iria me auxiliar na jornada do dia seguinte.

Construída, ao que tudo indica, sobre a antiga mesquita muçulmana, o primeiro impulso edificador da Sé de Lisboa deu-se entre 1147, data da Reconquista da cidade, e os primeiros anos do século XIII.

Esse projeto se adaptou a um esquema idêntico ao da Sé de Coimbra, com três naves, trifório sobre as naves laterais, transepto saliente e cabeceira tripartida.

Nos séculos seguintes ocorreram transformações mais marcantes, com a construção da Capela de Bartolomeu Joanes, do lado Norte da entrada principal, o claustro dionisino.

Que apesar da sua planta irregular, se inclui na tipologia de claustros góticos portugueses e, especialmente, a nova cabeceira com deambulatório, mandada construir por D. Afonso IV, para seu panteão familiar.


A Catedral da Sé de Lisboa

À esquerda da entrada, a capela franciscana contém a pia onde Santo Antônio foi batizado em 1195, e está decorada com azulejos que representam o Santo a pregar aos peixes.

Na capela adjacente, existe um Presépio barroco feito de cortiça, madeira e terracota de Machado de Castro.

O tesouro encontra-se no topo da escadaria, à direita, que abriga uma variada coleção de pratas, trajes eclesiásticos, estatuária, manuscritos iluminados e relíquias associadas a São Vicente.

A peça mais preciosa da catedral é a arca que contém os restos mortais do santo, transferidos do Cabo de São Vicente para Lisboa em 1173.

A lenda diz que dois corvos sagrados mantiveram uma vigília permanente sobre o barco que transportava as relíquias.

Os corvos e o barco tornaram-se o símbolo da cidade de Lisboa.

E contam, ainda, que os descendentes dos dois pássaros originais, viviam nos claustros da catedral.

Finda minha visita, fui até um supermercado me prover de víveres, já prelibando a aventura que iria iniciar.

À noite, optei por um singelo lanche no quarto e logo fui dormir, pois ainda me encontrava sob o “efeito do fuso horário”, pois sentia algumas dores no corpo, em face do desconforto vivenciado no avião que me trouxera à Europa.

Porquanto, além do stress da viagem, eu havia estado muito tempo sentado na mesma posição, o que prejudica tanto o sistema digestivo quanto a coluna e o pescoço. 

Sonolência, fadiga, falta de concentração, náuseas e problemas no estômago e intestino são alguns outros sintomas decorrentes dessa mudança.

E sabia que esses incômodos acontecem porque o corpo tem um relógio biológico habitual, ou seja, horários para dormir e fazer refeições que são alterados quando se chega ao local de destino. 


A primeira flecha do Caminho Português no portal da Catedral da Sé de Lisboa

Ainda assim, antes de deitar, me lembrei de pedir proteção ao Santo Apóstolo, recitando a “Oração do Peregrino”, que diz: 


“Apóstolo Santiago,

eleito entre os primeiros,

foste o primeiro a beber o cálice do Senhor,

e és o grande protetor dos peregrinos;

Faz-nos fortes na fé e alegres na esperança,

em nosso caminhar de peregrinos, seguindo o caminho da vida cristã,

e alimenta-nos para que finalmente alcancemos a glória de Deus Pai.

Ámém!”


1a Etapa – LISBOA à VILA FRANCA DE XIRA – 41 QUILÔMETROS