1a Etapa – LISBOA à VILA FRANCA DE XIRA – 41 QUILÔMETROS

1a Etapa: LISBOA à VILA FRANCA DE XIRA – 41 QUILÔMETROS – “PELO CAMINHO REAL DO PORTO

“Historicamente, sabe-se que os antigos viajantes que partiam de Lisboa em busca do sepulcro do Apóstolo Santiago em Compostela, seguiam o “Caminho Real”, que ia até a cidade de O Porto. Assim procedeu um coletor pontifício, Monsenhor Biondo, em 1594, acompanhado de seu secretário, o sacerdote italiano Juan Bautista Confalonieri, que deixou um diário extremamente detalhado dessa peregrinação. Como anteriormente, a direção a seguir era margear o rio Tejo, passando por Loures, Tojal e Alverca, lugares “quase todos grandes, muito povoados, com boas igrejas”, como descreveu Confalonieri. Só que, por desgraça, o cenário que ele narrava como um lugar formoso, em que “não se atravessava um palmo que não estivesse cultivado e pleno de olivais em colinas, planícies e vales”, se converteu hoje numa sucessão de núcleos urbanos, rodovias, polígonos industriais, como ocorre na saída de toda grande cidade. Esse, infelizmente, é o preço a pagar por uma peregrinação no século XXI, pois essas outras “belezas”, chegaram muito depressa.” (Traduzido/transcrito do Guia El País Aguilar, edição do ano de 2007, que utilizei na viagem)

 

Já sabendo o que iria encontrar pela frente, eu me levantei às 5 h e após a higiene matinal, ingeri frutas e chocolate.

Bem disposto, deixei o local de pernoite às 5 h 30 min e, face à localização privilegiada da Pensão Nova Goa, dez minutos depois, eu já me encontrava diante da Catedral da Sé.

Ali, tudo estava fechado, deserto e silencioso, assim, fiz minhas orações matinais diante da porta principal e, em seguida, observando a 1ª seta amarela, pintada no lado direito do portal da igreja, iniciei meu Caminho.

Na sequência, as marcações me encaminharam em direção ao bairro medieval da Alfama, por ruas estreitas e quase sempre em descenso, até que, mais à frente, passei a caminhar ao lado do rio Tejo.



Em seguida, deixei para trás a Estação Ferroviária de Santa Apolônia, o cais, e logo adentrei aos bairros periféricos de Lisboa, sempre em asfalto, e sob a intensa iluminação urbana.

A garoa ia e vinha, mas eu estava protegido com minha capa de chuva, e prossegui adiante sem sobressaltos, porque nesse trecho o Caminho está estupendamente bem sinalizado.

Finalmente, depois de 10 quilômetros percorridos, adentrei ao famoso, valorizado e moderno bairro do Parque das Nações, um recinto de desenho futurista, construído para a Expo 98, que teve lugar em Lisboa, entre 22 de maio e 30 de setembro daquele ano.

O local é de beleza primorosa, assim, primeiramente transitei defronte ao Pavilhão do Conhecimento, Cabo Ruivo, Pavilhão Atlântico, Pavilhão de Portugal e o Oceanário, o maior da Europa, onde construções temáticas mostram seu esmerado acabamento.



Logo, passei diante do colossal Centro Comercial Vasco de Gama, depois dobrei a direita e, logo abaixo, acessei o Passeio das Tágides, uma calçada exclusiva de pedestres, que segue paralela ao rio Tejo.

Depois de 2 horas caminhando, 12 quilômetros vencidos, eu cheguei diante da Torre Vasco da Gama, um portentoso edifício, hoje convertido num hotel 5 estrelas.

Fiz ali uma pausa para fotos e hidratação, depois prossegui em frente, agora pelo Passeio do Tejo.

O clima estava frio, ventoso, carrancudo e, sob minha ótica, com ameaça de chuva iminente.

O caminho seguir bem sinalizado por pisos pavimentados com pedras e, mais à frente, por madeira.



Nesse pique, passei sob a autopista que atravessa o rio Tejo, através da imponente Ponte Vasco da Gama, que nesse trecho, já em sua foz, tem mais de 8 quilômetros de extensão.

O roteiro prosseguiu pelo Passeio do Sapal, até o rio Trancão, afluente do Tejo, girou a esquerda, passou junto a um grande estacionamento e, mais adiante, sob a ferrovia.

Mais cima, eu ultrapassei o rio por uma ponte, caminhei um pequeno trecho pela rodovia, e adentrei na periferia da cidade de Sacavém.

Porém, através de uma senda matosa que nasceu à esquerda, eu deixei a zona urbana e prossegui, por um bom tempo, paralelo à outra margem do rio Trancão.



E logo encontrei o primeiro “mojón” do Caminho de Fátima, um roteiro muito famoso em Portugal, que une Lisboa ao Santuário de Fátima.

O caminho prosseguiu silencioso, pleno de muito verde, porém em alguns trechos, com muito barro, pois segundo soube, chovera abundantemente na semana anterior.

Mais adiante, o rio Trancão afastou-se definitivamente à esquerda, e eu prossegui bordejando um pequeno regato, a Ribeira de Alpriate.



Depois de mais 6 quilômetros vencidos, a vereda terminou em uma estrada vicinal, ainda em terra.

E por ela passei diante das ruínas da Quinta do Monteiro Mor e, pouco depois, pela Quinta do Brasileiro, testemunhas das residências agrárias nobres situadas próximas da capital.

Cerca de algumas centenas de metros depois, eu cruzei a rodovia M115-5, e prossegui por uma estrada asfaltada que me levou até a cidade de Alpriate.

A travessia urbana estava muito bem sinalizada, de forma que logo depois retornei a caminhar em terra, o que meus pés agradeceram.



Mais adiante, depois de vencer outro trecho feito por outra senda agradável, porém extremamente alagada, voltei a caminhar em asfalto e logo passei por Póvoa de Santa Iria, onde fiz uma pausa no recinto de um bar, para ingerir uma xícara de café.

Aproveitando a boa acolhida, também comi um lanche, pois fui tratado com deferência pelo garçom do Mesón, que adivinhou minha condição de brasileiro.

Inclusive, me ajudou a colocar a mochila e a capa, pois ainda chovia na hora em que saía para retomar o caminho.

Na sequência, passei por um polígono industrial, depois prossegui à beira da linha férrea, num percurso bonito e agradável, localizado entre árvores e juncos.



E depois de mais 5 quilômetros, eu adentrei à cidade de Alverca de Ribatejo, um povoado grande e moderno, que já existia no ano de 1160.

Em 1919, construiu-se em terras do município, um dos primeiros aeródromos de Portugal, onde se instalou a escola militar da aeronáutica.

Foi, inclusive, o aeroporto internacional de Lisboa, até a inauguração do de Portela, em 1940, e sede de um importante centro logístico do Exército do ar lusitano.

Fruto dessa larga vinculação com a aviação militar, é o Museu do Ar, situado junto à estação ferroviária.

Atualmente, seu patrimônio arquitetônico mais afamado é a Igreja dos Pastorinhos, um templo de construção recente, mas que alberga o segundo maior carrilhão do mundo e também um dos mais modernos, pois foi construído em 2005.



Minha intenção era pernoitar nessa localidade, porém o único Hotel ali existente está localizado na Estrada da Alfarrobeira, o que me obrigaria a sair do roteiro oficial e percorrer aproximadamente 2 quilômetros para alcançá-lo.

O dia persistia úmido e fresco, e eu não me sentia cansado, ao revés, estava muito bem disposto, de forma que, após uma curta pausa para hidratação e ingestão de uma fruta, resolvi prosseguir em frente.

Assim, eu atravessei a povoação, sempre utilizando como referência a rodovia N-10, de intenso tráfego.

De se lembrar, que o Caminho de Fátima prossegue por um passeio agradável, localizado à beira do rio Tejo, onde alguns trechos são percorridos em terra, porém como o clima persistia chuvoso, entendi que seria melhor prosseguir pelo asfalto.



Por sinal, o roteiro, por onde segui, estava muito bem sinalizado pelas setas amarelas.

Então, ainda pelo acostamento da N-10, passei pela cidade de Alhandra, onde fizeram uma pausa para se alimentar, em 20 de abril de 1594, Juan Bautista Confalonieri e o Patriarca de Jerusalém, em seu primeiro dia de peregrinação à Compostela.

A chuva que caíra há algum tempo em forma de tênue garoa, voltou repentinamente com grande intensidade, obrigando-me a fazer uma pausa emergencial num abrigo localizado em uma parada de ônibus, para vestir meu poncho impermeável.



Eu atravessei a simpática vila e ainda caminhei mais 3 quilômetros por rodovia e, às 14 h, depois de passar ao lado da Plaza de Toros Palha Blanco, adentrar em Vila Franca de Xira, minha meta para aquele dia.

Na cidade fiquei hospedado no Residencial Flora, um edifício novo e que oferece excelentes acomodações.



Vila Franca de Xira é uma das cidades mais conhecidas do baixo Ribatejo, e conserva algumas pinceladas de arquitetura tradicional em suas ruas centrais, com muitas fachadas em azulejo português.

Porém, a localidade é célebre pela tauromaquia, a arte de tourear, e sua Plaza de Toros é uma referência no mundo das touradas, embora sejam espetáculos onde o touro não morre, fruto de uma proibição assinada pelo ilustre Marques de Pombal, em 1750.

Nesse sentido, a Festa do Colete Encarnado, que acontece no primeiro final de semana de julho, juntamente com a Feira de Outubro, reúnem um dos encontros mais multitudinários com o povo espanhol.



Para almoçar, utilizei os serviços do Restaurante La Casa.

De se ressaltar, que em Portugal não existe o “Menu del Peregrino”, tão decantado na Espanha, e os pedidos são feitos somente através do método “a la Carte”.

À noite, optei por fazer um singelo lanche num bar localizado próximo ao local onde eu me encontrava hospedado.

E logo fui dormir, pois fazia muito frio, embora o clima chuvoso sinalizasse que iria cessar de vez.

Nesse dia não avistei nenhum outro peregrino, mas o proprietário do hotel me afirmou que durante a manhã, os 4 italianos passaram ali, para carimbar suas credenciais, e manifestaram a intenção de pernoitar em Azambuja.

De forma que, nunca mais os encontrei, e espero que tenham conseguido terminar a bom termo sua peregrinação, pois tratava-se de pessoas alegres e simpaticíssimas.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada extensa, porém agradável e bela. Integralmente plana, com alguns trechos trilhados em meio a muito verde, embora 2/3 do percurso tenha sido feito sobre asfalto. No geral, um percurso fácil, quase todo urbano, mas muito bem sinalizado. 

2a Etapa – VILA FRANCA DE XIRA à AZAMBUJA – 21 QUILÔMETROS