12º dia – MELIDE à PEDROUZO/ARCA

12º dia – MELIDE à PEDROUZO/ARCA – 35 quilômetros


O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.” (Cora Coralina)


Eu já transitara por Melide em minhas peregrinações de 2.001 e 2.004, de forma que conhecia bem o trecho que iria enfrentar dali em diante.

Porém, desta vez, havia a iminência de tempestade, tanto que a madrugada fora chuvosa e com muito vento.

Diante desse fato, levantei-me às 5 h e verifiquei que o céu permanecia claro e estrelado, porquanto a chuva se fora por ora, ainda que com promessa de retornar durante o dia.

Como o percurso a percorrer era de razoável extensão, me preparei bem para a etapa daquela data, deixando o local de pernoite às 5 h 30 min, quanto tudo ainda estava escuro.

Por sorte, estávamos na fase da lua cheia e ela, ainda que de maneira incipiente, brilhava no céu, de forma a auxiliar meu rumo com sua luz.

E, como eu portava minha lanterna de mão, por conta da escuridão reinante, não tive problemas para acessar o roteiro, embora o dia ainda não houvesse nascido.

Por sorte, logo alcancei um grupo de seis peregrinos espanhóis que também madrugara, assim pude seguir tranquilamente acompanhado.

Na verdade, eu calculo que mais 200 pessoas haviam pernoitado no dia anterior em Melide, seja em albergue ou hostais.

De forma que a sua expressiva presença no caminho de ora em diante, por certo, me fariam lembrar com saudades de minhas caminhadas solitárias pelos bosques galegos, nas etapas anteriores.

Primeiramente por rodovia, depois por um frondoso bosque de eucaliptos, logo encontrei o primeiro acidente geográfico desse percurso.

Que na verdade, nada mais é que um riacho, transposto através de grandes e escorregadios blocos de pedra, alocados em seu leito.



O forte “repecho” que se seguiu, foi um bom desafio para minhas pernas ainda não aquecidas, porém consegui vencer esse obstáculo utilizando a técnica de caminhar devagar e com muita concentração e persistência.

Cinco quilômetros percorridos, passei pela aldeia de Boente de Arriba, onde além de uma bela igreja dedicada à Santiago, existe a fonte de “la Saleta” que, com suas águas frias e cristalinas, são um convite para o peregrino exaurido se refrescar, além de proporcionar uma boa desculpa para um rápido descanso.


Pausa para descanso em Arzua


O sol tentava furar a espessa camada de nuvens que havia se formado desde as primeiras horas da manhã, contudo e, por sorte, sem sucesso.

O roteiro seguiu próximo da rodovia N-547, a qual eu cruzei em algumas ocasiões, sempre por vertiginosas baixadas, seguidos de duros ascensos.

Dez quilômetros vencidos, passei pelo povoado de Ribadiso de Abaixo, onde existe um albergue de peregrinos muito concorrido, embora de pequenas dimensões, que se encontra instalado na margem direita do rio Iso.

Após uma breve pausa para repor minhas energias, enfrentei outra dura ascensão, no final da qual, agora por rodovia, adentrei em Arzua, uma cidade de razoável tamanho, quando meu relógio marcava 8 h 30 min.

Fiz ali uma parada para ingerir um café e comprar uma garrafa de água.

Embora o dia permanecesse nublado e com nuvens ameaçadoras, o que por certo iria inibir a intensidade do sol naquele dia e, consequentemente, minha desidratação.

Ainda me faltava caminhar 19 quilômetros, de maneira que prossegui adiante e logo comecei a ultrapassar um batalhão de peregrinos, pois a maior parte deles caminhava num ritmo bastante lento ou manquitolando, alguns, até, de maneira trôpega.

Certamente, efeito das terríveis “ampolas” ou tendinites, enfermidades triviais com que são acometidos os caminhantes e que se refletem com mais intensidade, nesse lance derradeiro.

Notava-se, ainda, que a maioria tinha a pele ressecada, cabelos compridos, roupas surradas, botas desgastadas e sujas, indicando que, como eu, já haviam percorrido longas distâncias.



Em contrapartida, observei outros vestindo trajes novos, portando mochilas impecáveis, calçados limpos, denunciado num simples olhar que haviam iniciado o caminho recentemente.

Possivelmente, em Sarria, com o único objetivo de receber a “Compostelana”.

São apenas divagações sobre o que constatei, com mais propriedade, nesse “tramo” final.

A propósito, o roteiro nesse entremeio é bastante plano e discorre por locais extremamente arborizados, porém o trânsito e a conversação barulhenta e incessante dos caminhantes subtraíam-me qualquer tentativa de introspecção ou isolamento.

Nesse pique, sempre em ritmo tranquilo e constante, ultrapassei os minúsculos povoados de Pegontuño, onde transpus a rodovia N-547 por um túnel e, posteriormente, transitei pelas aldeias de Calzada, Calle e Boavista.

Nesse trecho, passei por diversos bares ao lado do caminho, que estavam quase sempre lotados de peregrinos descansando, lanchando, fumando, ou mesmo, bebendo, porém não parei em nenhum deles, pois estava bem fornido tanto em alimento como água.

Havia, também, inúmeros ciclistas, a maioria em grupos, que pedalavam, usando um apito na boca, chamando a atenção dos caminhantes para que saíssem da frente, quando precisavam ultrapassá-los.

O que percebi, na verdade, é que o Caminho havia se transformado numa alegre festa, onde os peregrinos constantemente se confraternizavam rindo ou brincando, todos com a gloriosa expectativa pelo aporte ao seu destino final.

E depois de 11 quilômetros superados, cheguei a Salceda, um povoado distribuído ao longo da “carretera”, e que oferece alguns serviços básicos aos caminhantes.

A partir desse marco, a rodovia voltou a ser referência, já que o roteiro segue serpenteando com ela e passa pelos pueblos de Ras e Brea, até chegar ao alto de Santa Irene e descender bruscamente para a aldeia de mesmo nome.


Marco dos 20 quilômetros restantes até Santiago.

Depois de um belo passeio por um frondoso bosque de eucaliptos, e vencer um derradeiro ascenso, já junto ao povoado de Rúa, aportei finalmente em O Pino, minha meta para aquele dia, quando meu relógio marcava 13 h.



Na cidade fiquei hospedado na pensão Pedrouzo e para almoçar utilizei os serviços de um restaurante situado defronte ao prédio “del Ayuntamiento”.

Mais tarde, depois de um reconfortante sono, fui até ao albergue de peregrinos “sellar” minha credencial e, como no ano anterior, pude observar que ele estava completamente lotado, com pessoas das mais diferentes nacionalidades, uma autêntica “Torre de Babel”.

À noite, depois de me prover de mantimentos para o dia seguinte, fui dormir cedo, já sonhando com meu aporte à Santiago de Compostela e, o consequente encerramento de minha peregrinação. 



IMPRESSÃO PESSOALUma jornada de razoável extensão, porém com poucas dificuldades no trajeto. Para muitos caminhantes que estavam partindo de Arzúa, era o último dia no Caminho, de forma que o roteiro estava movimentado e havia uma verdadeira confraternização entre os peregrinos, e eu também fui contaminado pela alegria reinante. No geral, um percurso vencido com tranquilidade, fé e muita expectativa, sob um céu nublado e vento frio, componentes essenciais para uma boa caminhada.



13º dia – PEDROUZO/ARCA à SANTIAGO DE COMPOSTELA