9º dia – CADAVO BALEIRA à LUGO

9º dia – CADAVO BALEIRA à LUGO – 31 quilômetros


O acaso é, talvez, o pseudônimo que Deus usa quando não quer assinar suas obras.” (T. Gauther)


Aquele seria o dia de conhecer Lugo, a capital da Província onde eu me encontrava, de forma que pretendia chegar lá o mais cedo possível.

Dessa forma, no dia anterior eu verificara cuidadosamente o local de partida, porquanto estava um tanto temeroso quanto à sinalização dessa etapa.

Assim, levantei às 4 h 30 min, e às 5 h 30 min, deixei o hotel, e segui em direção a uma pequena praça, situada próximo do albergue de peregrinos.

A cidade ainda dormia em berço esplêndido, de maneira que afora os latidos dos cães e o cantar de alguns galos madrugadores, tudo o mais era silêncio na localidade.

Fazia um frio penetrante e intenso quando acessei a rua fronteiriça, seguindo em direção à praça central da urbe.

Um vento gelado e traiçoeiro pareceia dardejar de todos os ângulos e penetrava pelas mangas e pernas de minha roupa.

Para piorar, havia uma persistente neblina, que me obrigava a usar a lanterna para checar cuidadosamente, a direção a seguir.

No final de uma rua em descenso, eu acessei uma estrada vicinal asfaltada e nela encontrei o primeiro “mojón” do dia, o que me encheu de confiança.

Prosseguindo, eu ultrapassei um riacho e, então, iniciou-se severa ladeira, que fui vencendo com tranquilidade, até que, pós um quilômetro caminhado, passei pela aldeia de Pradera, onde tudo estava deserto e escuro.

Eu segui em frente, e logo alcancei o alto da Vaqueriza, que pertence a serra do Mirador, situado a 838 metros, o ponto de maior altimetria nessa jornada.

Para minha alegria, no nascente, o horizonte já se vestia de uma fímbria de ouro pálido, prometendo um dia ensolarado.

Numa bifurcação, observei cuidadosamente a sinalização, e prossegui à esquerda.



Logo adentrei em uma larga e plana estrada de terra, que seguiu por dentro de um grandioso bosque de eucaliptos.

Com o dia já claro, pude seguir em frente, numa velocidade constante e sem maiores problemas ou dúvidas, pois encontrei esse trecho muito bem sinalizado.

Mais abaixo eu passei diante da ermida “del Carmen”, situada num entorno de grande beleza natural, que fora totalmente reformada e estava revestida de pintura recente.

O sol finalmente apontou glorioso, e embora ainda fizesse bastante frio, eu podia prever que o dia seria deveras quente.



E, uma hora mais tarde, depois de seis quilômetros vencidos, passei por Villavade, um pueblo onde não existe nenhum tipo de serviços, porém, nela se encontra edificada a majestosa igreja gótica de Santa Maria.

Cuja construção foi ordenada por Fernando de Castro, da casa dos Condes de Lemos, no ano 1.457, sobre o que se supõe, foi um monastério fundado por São Francisco de Assis em 1.207, quanto de sua peregrinação à Santiago.

Considerada como a catedral da cidade de Castroverde, é um dos templos mais belos em seu gênero, na Galícia.

É de se destacar, que ao lado da ermida existe uma casa perfeitamente conservada, edificada em meados do século XVII, a mando de Diego Osorio Escobar e Llamas, para lhe servir de retiro e descanso.

Porém, a povoação onde ela se encontra é minúscula, assim, logo acessei uma estrada vicinal asfaltada e, mais dois quilômetros caminhados, adentrei em Castroverde, um povoado progressista e de razoável tamanho, se comparado com os que eu havia encontrado até mesmo nas jornadas pretéritas.

Por sorte, na entrada da urbe, o caminho fletiu à esquerda, e discorreu por um bairro residencial, bem longe do burburinho e intenso tráfego, enfrentados pelos que transitam no centro dessa progressista urbe.

Ainda assim, eu passei diante do prédio “del Ayuntamento”, situado em uma pequena e bonita praça, onde também há uma graciosa fonte, dentro da qual existe uma curiosa escultura de duas crianças abraçadas e sob um guarda-chuva, que os proteje da água que jorra de um cano.

Saindo dali, eu cruzei a “carretera” LU-530 e adentrei numa estrada rural que cruza um frondoso e agradável bosque.

Pelo caminho, ora avistava uma floresta de pinheiros, ora uma colina de linhas suaves, e sempre os rebanhos de gado leiteiro.



Mais adiante, passei defronte à capela da Virgem dos Milagres, já em Souto de Torres, outro minúsculo povoado e, em sequência, transitei pelas aldeias de Moreira e Vilar de Cás.

Às 10 h, 17 quilômetros vencidos, eu cheguei à Gondar, onde avistei belas vivendas, a grande maioria alocada na avenida principal da cidade, exatamente o local por onde atravessei essa urbe.

Na saída existe uma construção antiga e tradicional, conhecida como “casa del Hospital”, posto que foi edificada sobre os restos de um antigo hospital de peregrinos, que transcende a vários séculos.



O percurso nesse trecho é integralmente plano, de forma que pude desenvolver uma velocidade tranquila, mas constante e, nesse pique, em face do clima ameno, as distâncias iam diminuindo e eu avançando sem problemas.

Foram aproximadamente, 5 quilômetros, por uma estrada sombreada e calma.

Realmente, um passeio agradável, com vistas tranquilizantes de um rio, através de campos de vegetação exuberante.

Porém, em Báscuas, outra pequena aldeia, eu retornei a caminhar pela rodovia, num trecho perigoso e sem acostamento, por apenas um quilômetro.

Porque logo voltei a transitar por um largo caminho de terra, à direita, que fez uma enorme volta, apenas para ladear uma imensa propriedade particular.

Pela rodovia seria mais curto, no entanto, o tráfego de veículos nesse trecho é intenso, em vista da proximidade da capital.

Finalmente, às 11 h, vencidos 26 quilômetros, acabei por sair novamente na rodovia e, por uma ponte metálica, atravessei a Autovia Nacional, adentrando, em seguida, em zona urbana.

Porém, eu precisei fazer inúmeros rodeios, algo em torno de 4 quilômetros, por ruas barulhentas e perigosas para, finalmente, às 12 h, aportar diante das muralhas que circundam a bela urbe.



Porquanto, após subir uma portentosa escadaria, eu saí próximo da “Puerta de San Pedro”, a mesma por onde os peregrinos adentram ao “casco viejo” de Lugo.

Por sinal, diante dessa passagem, uma obra de arte, feita em pedra, recorda que por esse local passou o rei Alfonso II, quando se dirigiu pela primeira vez ao sepulcro do Santo Apóstolo.



Depois de rapidamente transitar pelos monumentos históricos e diante da Catedral dessa antiquíssima cidade, eu me hospedei no hostal Garrizo, que está estrategicamente localizado defronte à “Puerta de Santiago”.

Após as providências de praxe, como tomar banho e lavar roupas, fui almoçar e, para tanto, pude escolher um entre inúmeros restaurantes que existem nessa zona.

Mais tarde, após um merecido descanso, segui beirando as muralhas até a “Puerta de San Pedro”, pois a poucos metros dela se encontra o edifício onde está instalado o albergue de peregrinos.

O estabelecimento, um dos melhores que visitei durante essa aventura, está distribuído em dois andares com grandes dormitórios, onde são disponibilizadas 42 camas, asseios, cozinha, bancos, local para lavar roupa, etc..

O hospitaleiro, muito gentil, “sellou” minha credencial e me forneceu valiosas informações sobre o que eu encontraria pela frente, porquanto ali há uma bifurcação de caminhos.

A cidade de Lugo deve sua origem à política expansionista do Império Romano, à época do imperador Augusto, que a utilizou objetivando incorporar os outros territórios imperiais, aos indômitos povoadores do noroeste peninsular.

Nasceu nos anos 13 – 14 a.C, com o nome de “Lucus Augusti”, aproveitando a existência de um acampamento militar naquela região, sendo, depois, a capital do Convento Jurídico Lucense, que integrava a Galícia norte.

Após a queda do Império Romano e com o advento dos reis bárbaros, sofreu durante a noite de Páscoa, no ano 460, um sangrento acontecimento, através do qual o povo suevo conseguiu o domínio dessa urbe, depois de assassinar o governador.



Sob o poder germânico, a cidade se converteu num importante foco cristão, chegando a ser incluída como sede dos famosos concílios religiosos da época.

No final do século VI, essa soberania foi substituída pela pujante dinastia visigoda.

A retomada histórica dos Impérios teve lugar no início do século VIII, quando a cidade foi assaltada de surpresa por um destacamento do exército muçulmano, sob as ordens de Muza, porém sua influência foi breve, já que em 740, o rei asturiano Alfonso I a reconquistou.

Os anos medievais foram realmente duros para Lugo, não só pelos intermitentes ataques muçulmanos, como também pelas próprias divisões internas cristalizadas pelos independentistas da nobreza, frente à monarquia asturiana.

No final da época medieval e início da Idade Moderna, com a chegada dos Reis Católicos, permitiu a zona do Caminho Primitivo de Santiago viver uma relativa calma, interrompida no século XIX, pelas guerras da Independência e dos Carlistas.

A urbe é famosa, pelos seus 2.200 metros de muralhas romanas integralmente preservadas, feitas de lajes de ardósia e granito, com uma grossura entre sete e oito metros, bem como entre oito e doze metros de altura, que envolve por completo o “casco viejo” da cidade.



No total, possui dez portas, quarenta e seis torres, e espessura média de 4,2 metros, sendo que o percurso integral pode ser feito pelo caminho de ronda superior, e desde o ano 2.000 é considerado Patrimônio Cultural da Humanidade.


O Caminho Primitivo atravessa a muralha pela “Puerta de San Pedro”, se dirige à Catedral, e saí da cidade pela “Puerta de Santiago”.

A Catedral de Santa Maria, considerada a maior joia intramuros, foi edificada no século XIII em estilo românico, constando de uma nave principal gótica, coro e retábulos renascentistas, sendo que em seu interior se destaca a capela da Virgem dos Olhos Grandes.

Em frente à igreja se encontra instalado o Palácio Episcopal, num prédio edificado no século XVIII, em estilo barroco, exemplo típico da arquitetura civil.

Embora de maneira rápida, em face do escasso tempo que permaneci na cidade, pude visitar seus principais monumentos, bem como assistir à missa das 18 h.

À noite iniciou uma forte ventania e, concomitantemente, a temperatura baixou, me obrigando a buscar abrigo no quarto, onde após rápido lanche, adormeci.

 






IMPRESSÃO PESSOALUma jornada de razoável extensão, porém, afora os primeiros quilômetros, integralmente vencida em terreno plano e, quase sempre, por locais arborizados, o que permite ao caminhante desenvolver um bom ritmo em sua odisséia. Ademais, a expectativa da chegada à Lugo, capital da Província homônima, famosa por suas edificações históricas, acalenta o ânimo e encoraja o peregrino em sua expectativa de aportar ao seu destino. No global, um trajeto bastante tranquilo e verdejante, coroado pelo aporte a uma cidade milenar, plena de monumentos a serem conhecidos e visitados, e oferecendo, com folga, toda a gama de serviços necessários e imprescindíveis ao viajor.



10º dia – LUGO à SAN ROMÁN DE RETORTA