10ª Etapa – MEALHADA (SERNADELO) à ÁGUEDA – 24 QUILÔMETROS

10ª Etapa – MEALHADA (SERNADELO) à ÁGUEDA – 24 QUILÔMETROS – “MUITO ASFALTO

“Superado o vale do rio Mondego, o Caminho Português de Santiago segue atravessando de norte a sul a Província de Beira Litoral, com suas colinas e seus campos cultivados. A jornada se depara com um traçado de perfil suave, situado entre vinhedos, com contínuas ondulações, que em nenhum momento supõe maior dificuldade ao peregrino, como tampouco preocupa em termos de orientação, pois está muito bem sinalizada. Por desgraça, o roteiro discorre demasiado tempo sobre asfalto e por zonas urbanas ou industriais. As aldeias que se atravessa apenas contam com serviços mínimos, e a única cidade intermediária maior e com abundante oferta de opções, Anadia, é contornada, sem nela adentrar o peregrino. Ao final da jornada nos aguarda a cidade de Àgueda, urbe de tamanho médio, com facilidades para se passar a noite.” (Traduzido/transcrito do Guia El País Aguilar, edição do ano de 2007, que utilizei na viagem)

 


O percurso seria relativamente curto, então, levantei às 5 h 30 min, calmamente fiz meu desjejum, e deixei o local de pernoite às 6 h 30 min.

Conforme eu verificara na tarde anterior, o portão dos fundos da Pousada ficava sempre aberto, o que me permitiu sair diretamente na rua que segue paralela à rodovia, por onde discorre o roteiro do Caminho, o que me evitou uma volta de uns 500 metros.

Como sempre, o dia persistia frio e úmido, com um clima excelente para caminhar, de forma que pude desenvolver um ritmo confortável, enquanto minhas pernas iam se aquecendo.



Eu segui por uma rua asfaltada, e logo à frente, as flechas me direcionaram para a esquerda, onde acessei uma estrada de terra, que me levou a transitar em meio a muito verde.

No entanto, esse foi o único trecho em que não pisei em asfalto, porque, depois de 2 quilômetros, retornei ao “alcatrão”, e logo passei pelas vilas de Alpalhão e Aguim, localidades inexpressivas, onde encontrei tudo fechado e silencioso.

Chamou-me a atenção, nesta última povoação, uma aglomeração de pessoas idosas, defronte uma igrejinha, algo inusitado para àquela hora, pois, salvo raras exceções, praticamente nada funciona na Europa.

Na passagem, desejei bom dia a todos, depois indaguei a um senhor o motivo daquela reunião, ao que ele me respondeu que se tratava de uma excursão, que seguiria em direção ao Santuário de Fátima, onde esperavam assistir à solene missa das 9 horas.



Na sequência, depois de transitar por um labirinto de ruas, passei diante de um enorme parque desportivo, onde havia ginásio de esportes, campo de futebol, e outras inúmeras instalações, todas novas e muito bem conservadas.

Prossegui por uns 500 metros, em meio a um bosque, até sair diante de uma rotatória localizada próximo a um cemitério.

Porém, em vez de seguir em frente, até o centro urbano de Anadia, uma cidade de razoáveis proporções, eu adentrei à esquerda, fiz um grande rodeio e logo cheguei a Arcos, uma povoação de médio porte, com casas novas, bonitas e bem cuidadas.

Contudo, também não passei pela parte central da cidade, posto que ao chegar diante de uma igreja branca, voltei a contornar a povoação, seguindo novamente à esquerda.



É necessário lembrar e elogiar, pois esse trecho está muito bem sinalizado, e mesmo transitando integralmente solitário, eu não tive em nenhum momento dúvidas sobre qual rumo tomar.

Depois de seguir por vários desvios, sempre por asfalto e com excelente sinalização, acabei por sair novamente na rodovia N-1-IC-2, e através dela passei por Avelãs do Caminho.



Esta sim é uma via histórica, porquanto ela aparece citada no diário de Confalonieri, e seu topônimo faz referência a Rota medieval e jacobeia.

Transitei um bom tempo por uma rua que segue paralela a rodovia nacional, até que eu transpus novamente essa “carretera”, ainda em Avelãs, prosseguindo em direção à cidade de Azenha, ainda sobre asfalto.



A referência neste local é uma igrejinha branca, de 1879, dedicada a Nossa Senhora dois Aflitos, localizada numa praça onde existe um busto homenageando a Henrique Marques Moura, nascido nessa localidade.

Por sinal, ali existe também um “mojón”, informando que me restariam 303 quilômetros até Compostela, embora pelos meus cálculos e apontamentos, o montante correto fosse de 315 quilômetros.

Nesse trecho passei diante de algumas bodegas com a denominação de “Origem Bairrada”, e eu pude visualizar a Quinta da Grimpa, decorada por uma estupenda portada manuelina, e uma vistosa vieira jacobeia, desenhada em seu muro fronteiriço.

Tudo isto, vale recordar, que eu estava transitando pelo caminho Santiago Bairrada, uma região vinícola, com paisagem suave e clima mediterrâneo/atlântico, delimitado pela orla marítima e pela serra de Bucaco, onde o cultivo de vinhedos se faz há muitos séculos.

E, desde o final do século 19, os vinhos e espumantes fabricados e originários dessa zona, permanecem na lista dos mais famosos de Portugal, por sua irrepreensível qualidade e sabor inigualável.



Às 9 h 30 min, 15 quilômetros vencidos, passei por Aguada de Baixo, e pude fotografar a sua igreja matriz, dedicada a São Martinho, onde sobressai uma concha santiaguista, colada, em destaque, em sua parte superior.

Seguiram-se vários desvios bem sinalizados, sempre em asfalto, porém, por locais extremamente arborizados.



Num ponto em que transitei um pouco mais afastado da zona urbana, pude fazer excelente pausa de uns 15 minutos, para hidratação e alongamento, posto que meus pés já estavam reclamando do interminável piso asfáltico.

Mais adiante, eu transitei pelo polígono industrial de Barrõ, pertencente à Águeda, que, por ser um domingo, se encontrava fechado e silencioso.

Logo acessei a Estrada Real, passei diante da Quinta Casal dos Cucos e, pouco depois, o bairro novo de Brejo, onde só avistei casas dispersas.



Prossegui, novamente, por uma zona rica em prados e arvoredos até, finalmente, transpor o rio Águeda sobre uma belíssima ponte, e adentrar à cidade homônima, onde cheguei às 10 h 30 min.



A urbe, de tamanho médio e aspecto moderno, é bastante antiga e aparece citada, já em 1292, no livro de doações do rei Dom Dinis, onde ele assegura aos moradores locais “que todos tem privilégios.”

Contudo, pouco sobrou das inúmeras mansões “solariegas” que ali existiam, na época medieval.

Restaram algumas árvores plantadas próximas ao rio, das quais já comentava Confalonieri, que descreveu a cidade da século XVI como: “aldeia boa, uma das principais de Portugal, com muitas casas e uma ponte que transpõe o rio Alchochel. Neste lugar, há dois carvalhos, dos mais formosos que eu pude encontrar até agora, sendo que nesta comarca, é costume arar a terra com juntas de dez a doze bois, por conta do terreno negro e duro.”



Na cidade fiquei hospedado no Residencial Ribeirinho, onde paguei 20 Euros por um excelente apartamento.

Para almoçar, utilizei os serviços do Restaurante homônimo, localizado no piso térreo do edifício, que pertence ao mesmo proprietário, onde fui muito bem servido, embora fosse um domingo festivo e o estabelecimento estivesse completamente lotado.

Mais tarde, saí para verificar o local por onde eu iria trafegar na manhã seguinte, assim, transitei pela avenida que segue beirando o rio, durante um bom tempo.



No final, cheguei num grande parque fluvial, onde pude observar e fotografar interessantes esculturas homenageando uma cooperativa vinícola ali instalada.

No retorno, pude visitar a igreja matriz de Santa Eulália, uma construção moderna, de estilo renascentista.



Depois, como o comércio em geral estava fechado, me dirigi a uma padaria, onde pude me abastecer de água e víveres para o jantar noturno e a jornada seguinte.

À noite, preferi no ficar no quarto lendo e assistindo TV, porém logo fui dormir, pois um vento frio soprava com intensidade a partir do rio, deixando o entorno gelado.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Outra etapa fácil e relativamente curta, no entanto, executada praticamente em toda a sua extensão sob piso asfáltico. De se lembrar, contudo, que transitei por vias secundárias, discorrendo por pequenos povoados, e com um pouco mais de verde, seja nos bosques de eucaliptos ou vinhedos.

11ª Etapa – ÁGUEDA à ALBERGARIA-A-VELHA – 17 QUILÔMETROS