7ª Etapa – ALVAIÁZERE à RABAÇAL – 33 QUILÔMETROS

7ª Etapa – ALVAIÁZERE à RABAÇAL – 33 QUILÔMETROS – “PROBLEMAS DE LOGÍSTICA

 “A entrada em Beira Litoral, se depara também com a volta a uma natureza mais inalterada e boscosa. Ademais, as grandes localidades de planura dão passagem a pequenas aldeias de montanha, com serviços básicos. Confalonieri já dizia desta etapa que eram “oito léguas que resultavam muito extensas, de caminho ruim, pedregoso e de terrenos estéreis”, e que os locais por onde ele passou eram “lugarzinhos pequenos de verdade.” Durante todo o dia veremos, ainda, em sentido inverso, as flechas azuis do Caminho de Fátima. O problema, e que não é pequeno, se refere a logística de alojamento. Na cidade de Ansião existem muitas opções, inclusive o Quartel de Bombeiros, porém ela está demasiado próximo da saída. Alvorge, que seria um bom final, só conta com uma Casa Rural, porém 2 quilômetros longe da Rota Jacobeia. Em Rabaçal, além do Centro de Iniciativas Turística, não há mais nada. E o próximo local ideal para pernoite, seria em Coimbra. Assim, as opções são variadas e nenhuma perfeita. A decisão é pessoal.” (Traduzido/transcrito do Guia El País Aguilar, edição do ano de 2007, que utilizei na viagem)

 

Eu havia observado com muita acuidade como seria minha saída da cidade, bem como sua sequência em relação ao topo de um morro.

Assim, confiante e animado, deixei o local de pernoite às 6 h, seguindo por ruas vazias, escuras e frias da cidade.

Atravessei diante da igreja matriz, e no final da rua, ao invés de prosseguir pela rodovia N-348, eu tomei outra estrada pavimentada à direita, e prossegui em forte ascenso.

Um quilômetro depois, encontrei um desvio à esquerda, que seguiu em direção à Laranjeiras.



Principiou-se, então, uma íngreme e longa ladeira, situada em meio a hortas, oliveiras, encinas e alcornoques, que fui vencendo lentamente, até que, quase chegando ao cimo do morro, eu adentrei num imenso bosque de eucaliptos.

E logo principiei a descer, ainda por asfalto, sempre em meio a muito verde.



Mais abaixo, observando a sinalização, eu adentrei numa estrada pedregulhada à direita, que ainda em forte descenso, depois de 7 quilômetros vencidos, me levou a passar por Venda do Negro, quando meu relógio marcava 7 h 30 min.


A vila é minúscula, porém, na passagem, pude fotografar a igrejinha do povoado, que data do século XV.

Ainda por asfalto, mais abaixo, depois de três quilômetros, eu passei por Soeiro e logo adentrei à esquerda, em larga estrada de terra, silenciosa, deserta e plena de muito verde.



Mais adiante, passei a trafegar por trilhas alocadas dentro de matas, quase sempre ladeadas por muros de pedra em baixa estatura, num trajeto bucólico e extremamente agradável.

Venci nesse trecho, um intrincado labirinto de pequenas sendas, porém, em nenhum local tive dúvidas sobre o rumo a seguir, pois essa etapa está estupendamente bem sinalizada.



Finalmente, próximo a um bosque de eucaliptos, avistei, abaixo, num vale, a graciosa cidade de Ansião.

Fui descendendo por uma trilha lateral, depois, ultrapassei uma rotatória e passei a caminhar em trecho urbano.



Ansião é uma localidade populosa e moderna, com todo o tipo de serviços necessários a um peregrino.

Logo depois de passar diante da igreja matriz da cidade, eu entrei num bar, a fim de tomar café e ingerir uma bolacha amantegada, tipo “madalegna”.

Meu relógio marcava 9 h 30 min, e até ali eu já percorrera 15 quilômetros.

Bem disposto, visto que o dia se mantinha nublado e frio, na sequência, eu transitei calmamente por sua avenida central até sair, mais abaixo, numa “carretera” vicinal, por onde prossegui adiante.



Na saída da cidade, sobre uma ponte especialmente construída para trânsito de pedestres, eu tornei a ultrapassar o rio Nabão, num local em que dista apenas 1050 metros de sua nascente, por isso mesmo, ali não passa de um pequeno filete de água.

Ao seu lado, utilizada para o tráfego de veículos, existe a “Ponte do Cal”, uma construção do século XVII, ainda em perfeito estado de conservação.

Prosseguindo, mais adiante eu adentrei à direita, e venci uma íngreme ladeira, através de larga estrada de terra, em meio a espesso bosque de eucaliptos.


O trajeto voltou a ser agradável, alternando locais arborizados com pequenas vilas, dentre as quais Constantina, Bate Água, Sarzedela e, finalmente, Netos, uma povoação de maiores proporções.

Logo depois dessa cidade, em local de descanso aparelhado com sombra, mesas, bancos e fonte, parei para comer uma banana e um pedaço de pão integral.

Um cão a pastorear umas ovelhas ali perto me recepcionou em silêncio.

Como ambos estávamos sozinhos, assobiei chamando-o para me fazer companhia, mas aparentemente ele não topou, porque afastou-se, desconfiado, para junto do rebanho.

Azar dele, o lanche estava muito bom.



O trajeto do Caminho seguiu extremamente agradável, sempre entremeando bosques com pequenos vilarejos até que, depois de passar por Freixo, saí diante de um cruzamento de rodovias.

Prossegui em asfalto, por uma “carretera” vicinal até Santiago da Guarda, e uns cem metros depois, acessei uma trilha situada à direita, extremamente matosa, em meio a frondoso bosque de eucaliptos.

Logo percebi uma peregrina caminhando ao longe, e não demorou muito tempo para eu alcançá-la, quando, então, ela fez uma pausa para hidratação.

Tratava-se da alemã Martina.

Cumprimentamo-nos como velhos amigos, e ela me confirmou que pretendia, como eu, também pernoitar em Rabaçal, de forma que logo me despedi e prossegui em frente.

No final de uma brusca declividade, acabei por sair próximo da cidade de Casais da Granja.



Ali teve início outro senda, que seguiu entre muros de pedra até sair mais abaixo na rodovia rumo à cidade de Junqueira.

Contudo, antes de adentrar à essa urbe, as flechas me direcionaram para uma estrada de terra à esquerda, que seguiu em forte ascenso.

Fiz uma grande volta por dentro de um bosque e mais abaixo, adentrei à zona urbana de Alvorge, um povoado de médio tamanho, que seria um estupendo final de etapa, se possuísse algum tipo de alojamento.



Logo passei diante da Plaza Mayor da cidade, onde pude fotografar um belo e centenário cruzeiro.

Já deixando a povoação, acessei uma rodovia em forte descenso que me levou abaixo, a passar diante das ruínas da Quinta da Ladeia.

Depois, eu cruzei novamente a rodovia N-348, e segui adiante, em direção a um grande morro, onde, caminhei em meio a um imenso olival, num trecho de terra desnuda, rochosa, cuja paisagem aberta, salpicada, aqui e acolá, por algumas oliveiras e raros vinhedos, mostravam a quietude da natureza.



Porém, mais acima, principiei a descer pelo lado oposto, já em asfalto, e depois prossegui por uma estrada de terra, paralela à rodovia, que me levou à cidade de Ribera de Alcalamouque.



Ultrapassei a pequena urbe utilizando a rodovia, e logo as flechas me remeteram à direita, onde passei a caminhar entre pequenas chácaras e grandes vinhedos.

Nesse trecho, denominado Ribeira de Baixo, onde todas as vivendas estão em ruínas, passei a bordejar o pico Castelo de Rabaçal, de perfil cônico, onde pude observar, ao longe, as ruínas do castelo medieval de Germanelo.


Depois, ultrapassei um trecho farto em oliveiras, nogueiras e ciprestes, já próximo da Quinta das Chavascas, que também se encontra em ruínas, para desembocar numa estrada vicinal, e logo dobrar à direita.

Finalmente, bastante cansado, em face do calor reinante, adentrei em Rabaçal, quando meu relógio marcava 13 h 30 min.

A localidade é pequena e bastante antiga, tanto que Confalonieri dormiu ali no dia 22 de abril de 1594, e a descreveu em seu diário como “um lugar pequeno, de 40 casinhas, uma fonte e mal de habitações”.



Na cidade me hospedei no Centro de Promoção Turística, um edifício muito bem conservado, e que disponibiliza excelentes instalações para os peregrinos, tanto que fiquei alojado num belo apartamento, e dispendi apenas R$15,00 Euros pelo pernoite.

Na verdade, anteriormente funcionava neste local, um Centro de Acolhimento aos idosos do município, por isso o prédio está muito bem conservado e dispõe de sala de estar, cozinha, lavanderia, etc..



Para almoçar, fui ao restaurante O Cantinho da Clotilde, e não me arrependi, pois a comida ali servida é saborosa, preço módico e de excelente qualidade.

Depois de um bom descanso, e quando o sol amainou, saí dar uma volta pela pequena vila.

Assim, me dirigi ao Museo de la Villa Romana, porém o local está fechado para visitas.

Nele estão expostas algumas peças encontradas durante a escavação feita nos escombros de uma casa romana, descoberta nos limites desse município.



Depois me dirigi à igreja matriz da cidade, dedicada a Nossa Senhora de Fátima, onde pude fazer uma demorada visita e externar minhas orações.

Em seguida, tranquilamente fui conferir o local exato por onde eu deixaria a cidade na manhã seguinte, pois tinha a intenção de sair o mais cedo possível, já que ansiava por conhecer o centro histórico de Coimbra, local de meu próximo pernoite.


À noite, me dirigi ao Café Bonito para lanchar e, aproveitando a ocasião, pedi como acompanhamento uma grande taça de Vinho do Porto.

Logo adentrou ao local a peregrina alemã Martina, e ficamos conversando numa mesa, enquanto ela aguardava seu jantar, constituído apenas por uma sopa de vegetais, já que ela (vegetariana) não ingeria carne de nenhuma espécie, inclusive peixes.

Por fim, ela acabou por ingerir 2 taças de vinho, tornou-se alegre e comunicativa, então me contou algumas peculiaridades de sua peregrinação, até que, por conveniência, pernoitara em Ansião no dia anterior.

Também, me contou que era viúva, tinha 74 anos, 2 filhos casados, e já percorrera inúmeros caminhos, inclusive o ramal Francês, na Espanha, por 8 vezes.

No dia seguinte, ela tencionava caminhar apenas 16 quilômetros e faria uma visita demorada às ruínas romanas de Conimbriga, depois se hospedaria numa pensão situada na cidade de A Condeixa.



Dessa forma, como não mais nos encontraríamos, batemos algumas fotos, levantamos alguns brindes, depois me despedi dela.

E, rapidamente retornei ao local de pernoite, pois o clima esfriara bastante.

Enquanto arrumava meu material, fiz um rápido balanço da jornada do dia, e constatei que ao caminhar tranquilo e sem pressa, apesar de aportar ao meu destino cansado, não sentia o esgotamento físico de outros finais de etapa.



Ainda, por sorte, não sentira nada no músculo adutor da coxa esquerda, que me preocupara bastante no dia anterior, porquanto a pomada e a massagem cuidadosa que fiz foram eficientes.

Claro, com alguma ajuda de Santiago Matamoros. 

E logo me recolhi ao leito, já prelibando a jornada seguinte, quando conheceria Coimbra e o belíssimo rio Mondego, que banha a região.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Outra jornada de respeitável extensão, porém a mais bela dentre todas as vencidas até aquele momento. Tanto na primeira parte do trajeto, antes de aportar à Ansião, bem como no “tramo” final, onde caminhei longo trechos entre muito verde, quase sempre por bosques sombreados e silenciosos. O Caminho, depois de passar por Alvorge e transpor a rodovia N-348, faz uma grande volta para retornar por 2 vezes à mesma “carretera”. De forma que se eu tivesse seguido diretamente por asfalto, a partir do primeiro local que a transpus, teria economizado tempo e, pelo menos, uns 2 quilômetros de percurso. Fica aí a minha sugestão aos futuros peregrinos.

08ª Etapa – RABAÇAL à COIMBRA – 30 QUILÔMETROS