17ª Etapa – PONTE DE LIMA à VALENÇA DO MINHO – 36 QUILÔMETROS

17ª Etapa – PONTE DE LIMA à VALENÇA DO MINHO – 36 QUILÔMETROS – “O TETO DO CAMINHO PORTUGUÊS

“Aquela que pode ser considerada a etapa mais bonita do Caminho Português até o momento, transpõe o rio Labruja, um afluente do rio Lima, para vencer a divisória de águas, e adentrar em novo vale, o de Coura. Seguindo o rastro da via romana XIX, da qual existem miliários e pontes disseminados por todo o vale de Labruja, o peregrino moderno submergirá num cenário de vinhedos primeiro, depois por bosques de coníferas, através de encantadoras estradas velhas e trilhas. O dia prepara muitas outras surpresas. Por exemplo, se alcança a cota mais alta de toda a rota portuguesa, a Portela Grande de Labruja, cujos 400 metros de altitude é o teto desta via de peregrinação. Passa-se por antigas capelas e ermidas românicas construídas há vários séculos ao pé do Caminho, vendo passar peregrinos, como a Capela de Nossa Senhora das Neves, em Revolta, e a igreja românica de São Pedro de Rubiães, com um miliário em sua porta, que foi reutilizado como sarcófago. E, para terminar, o último albergue da rede de acolhida jacobeia em Portugal.” (Traduzido/transcrito do Guia El País Aguilar, edição do ano de 2007, que utilizei na viagem)

 

Teríamos, novamente, outra longa etapa, de forma que combinamos sair bastante cedo, mas com a preocupação de não colocarmos nossa integridade física em perigo.

Assim, exatamente como no dia anterior, às 5 h 45 min, nós deixamos o local de pernoite, atravessamos a ponte sobre o rio Lima e passamos diante da igreja de Santo Antônio da Torre Velha.

Na sequência, por conta ainda da escuridão reinante, atentos e obedientes à sinalização, na primeira rua viramos à direita, e prosseguimos em direção à Quinta do Arquinho.

Ainda estava escuro, de forma que minha potente lanterna ia confirmando nosso rumo que, nesse trecho, seguiu por uma senda rural de intensa erosidade bastante estreita e profunda, situada entre muros de pedra.

Logo adiante, nós passamos diante da Quinta de Sabadão, cruzamos a rodovia N-202 e, então, a vereda se abriu e passamos a caminhar em meio a vinhedos e pés de chopos e álamos.

Mais à frente, ultrapassamos a Autovia Nacional e, depois de 3 quilômetros percorridos, com o dia já clareando, chegamos a Arcozelo, uma pequena povoação, onde tudo ainda se encontrava fechado e silencioso.



Animados, cruzamos defronte à igreja matriz, dedicada a Santa Marinha, transitamos diante do cemitério municipal, e prosseguimos por um tramo da “estrada velha” que, nesse trecho, é calçada por pedras, situada entre extensos vinhedos e grandes milharais.



Mais à frente, nós transpusemos o rio Labruja pela ponte da Geira, e prosseguimos subindo, até que, depois de uma hora de caminhada, passamos sob outra grande Autovia Nacional, e fizemos uma pausa para hidratação e descanso.

Por sorte, diferentemente do dia anterior, quando aportara à Ponte de Lima, extremamente exaurido e com fortes dores nos membros inferiores, naquele instante eu me sentia extremamente bem disposto e totalmente focado no Caminho.

O mesmo ocorria com meu amigo Dedé, que observara a formação de duas bolhas em seu pé esquerdo no dia anterior, mas que depois de convenientemente medicadas e protegidas, também se sentia sem dor e animado.



Refeitos e estimulados, prosseguimos ascendendo e o roteiro manteve o ar campestre, fresco e extremamente agradável.

Caminhamos através da serra, passando Mouro, Salgueiro, onde, pela ponte do Arco, voltamos a transpor o encachoeirado e barulhento rio Labruja.

À cerca de 300 metros, observamos à esquerda a Capela de São Sebastião e a poucos metros desta, o oratório de Nossa Senhora da Guia.



Mais 500 metros e chegamos a Codeçal, onde pudemos admirar a belíssima Capela de Nossa Senhora das Neves e, no átrio, o seu cruzeiro.

Depois, prosseguimos em ascensão por uma zona rural, até a pequena via de Balada.

Ali nós deixamos a igreja matriz dedicada a São Cristovão à direita, e seguimos em direção a Vinho, onde encontramos a mítica e preciosa fonte, denominada de Três Bicas.

Ainda em aclive, passamos próximo da capela de Sant’Ana, depois pelas vilas de Bandeira e Olival.



Prosseguimos ascendendo em forte desnível, por uma senda extremamente empedrada e, em alguns locais havia muito barro em seu leito.

E, face à umidade reinante no bosque, eu suava até pelas orelhas.



Logo nos desviamos à esquerda, adentramos em um bosque de pinheiros e, mais acima, viramos novamente à direita, para iniciar o trecho mais complicado do ascenso.

Entre eucaliptos, acácias e, mais à frente, pinheiros, adentramos em uma estreita trilha, que foi empinando em grau absurdo de aclividade.



Na verdade, esse trecho específico é duríssimo, uma verdadeira escalada, e comparando, eu diria que é mais forte que a inclinação do Cebreiro, no Caminho Francês, além de ser bem mais extenso.

A todo momento nós parávamos para respirar e, depois retomávamos a luta, até que após muito esforço e suor, chegamos à Cruz dos Franceses ou dos Mortos.



Uma placa ali colocada lembra com saudade da peregrina australiana Michelle Kleist, uma entusiasta dos Caminhos que levam à Santiago, e que faleceu tragicamente num acidente de avião, em 30 de março de 2011.

Sobre esse local, existem outras histórias como, por exemplo, a do peregrino italiano Nicola Albani, que em 1745 se encontrou com um famoso bandido neste lugar, lutou com ele, acabando por matá-lo.

Sem dúvida, um trágico episódio que ele reproduziu numa pintura deixada em seu diário de peregrinação.

A cruz também recorda algo parecido, relativamente à morte violenta de Fidalgo de Picouto.

Mas, ao que tudo indica, o lugar é emblemático, pois nas cercanias se conta que nesse lugar foi enterrado vivo um soldado francês do exército de Napoleão Bonaparte.

Ele teria sido linchado pelos moradores da região, em vingança pelas torpezas cometidas em 1809 pelo exército invasor, por isso o lugar também é conhecido a Cruz dos Franceses.

Enfim, dando continuidade à caminhada, ainda precisamos vencer mais alguns duros “repechos” para, finalmente, ascendermos ao pico, um local que antigamente era a morada predileta de foragidos da justiça.



Estávamos, finalmente, no Alto da Portela Grande de Labruja, a 400 metros de altura, exatamente no ponto de maior altimetria de todo o Caminho Português.

No local se encontra instalado o quartel da Guarda Florestal, que faz o patrulhamento da área, com o fito de evitar incêndios e garantir a segurança do entorno.



Ali fizemos uma pausa para descanso, hidratação, ingestão de chocolates e fotos, porquanto a vista que se descortinava daquele local, era simplesmente fantástica.

Depois de refeitos do cansaço acumulado até aportar ao cume, prosseguimos lentamente por caminhos de terra amplos e arejados.

Já do outro lado, principiamos a descender, sempre entre eucaliptos e pinheiros.

Caminhávamos com muito cuidado, porque havia muitas pedras e pequenos charcos de água que deixavam o piso perigoso, inconstante e extremamente escorregadio.

Porém, quinhentos metros mais abaixo, abriu uma larga estrada em terra, situada em meio a frondoso bosque de árvores.



No cruzamento com uma via, seguimos à direita, então, pude fotografar um cruzeiro e, pouco depois, passamos diante de um moinho movido por um regato, que faz parte das ruínas da Quinta dos Matos, onde antigamente se fazia a moenda de grãos para todo o vale.



Ainda descendo, transpusemos a “puente romana de Agualonga”, de um só arco, cujo piso é empedrado.

Depois de 17 quilômetros percorridos, sempre em perene descenso, acabamos por sair na “carretera” N-201, bem defronte a um bonito Residencial, antigo local de pernoite dos peregrinos, já na cidade de São Roque.

Ali, dobramos à direita e, uns 300 metros depois, adentramos numa senda arborizada, que depois de 1 quilômetro, nos deixou em Rubiães, já próximo da Igreja de São Pedro de Rubiães, uma construção de 1257.

Trata-se de um excelente exemplo do estilo românico português, embora a torre de seu campanário tenha sido acrescentada somente no século XVII.



Além de várias tumbas em seu átrio também existe um miliário romano, resquício da calçada XIX, indicativo de que esse trecho foi construído nos tempos de Caracalla (Marco Aurélio Antonino, 186-217, imperador desde 211).

Um caminho de terra que nasce atrás da abside da igreja, nos levou a transitar mais abaixo, diante do Albergue de Peregrinos, instalado num edifício rosa pálido (antiga escola primária), que é considerado o mais moderno de Portugal.

Eu estava até curioso por conhecer suas instalações, que se compõe de cozinha, sala de refeições, e 34 camas, porém ainda era muito cedo, e refúgio só iria abrir suas portas após as 14 horas.



Assim, seguimos adiante e, quinhentos abaixo, após transitar por um pequeno trecho embarrado, onde ainda existem restos da antiga calçada romana, nós transpusemos o rio Coura pela Ponte do Piorada, que também é da época da invasão romana.

Por sinal, ela foi ampliada na época medieval, e se compõe de um grande arco central e dois menores coadjuvando ambos os lados.

Junto a ela, foi encontrado um miliário dedicado ao imperador Juliano, que marcava a milhagem número XXXII, e que hoje está exposta na capela de São Bartolomeu, no povoado de Antas, localizado próximo dali.

No trecho seguinte, pudemos observar que o roteiro recebeu em vários “tramos” o calçamento em paralelepípedos, com o objetivo de deixar transitáveis áreas normalmente encharcadas.



Na sequência, principiamos a subir, e logo passamos por Pecene, minúscula povoação que tem suas casas disseminadas por um vale.

Ainda em dura ascensão, passamos pelo Santuário de São Bento de Porta Aberta, que tem muitas árvores em seu átrio, lugar perfeito para um bom descanso.

Seu carrilhão nos ofereceu uma das últimas oportunidades de ouvir a Ave Maria de Fátima, melodia tocada em quase todas as igrejas antes do sino badalar as horas cheias.

O Santuário está situado a 270 m de altitude, no ponto mais alto de um outeiro que separa as bacias do rio Coura da do Minho.

Dali, depois de um refrigério para hidratação, nós tomamos a direção de Gontomil, onde ainda restam as ruínas de uma antiquíssima capela.



Prosseguimos por uma senda empedrada que logo se converteu numa pista de terra e seguiu em meio a um bosque de eucaliptos que, em determinado ponto, nos permitiu ver, ao fundo, a dez quilômetros dali, todo o vale do rio Minho.

Sempre em forte descenso, passamos por Fontoura, através de sua avenida principal, depois prosseguimos por um caminho de terra, sempre por lugares extremamente bem sinalizados.

Mais alguns quilômetros vencidos, transitamos por Paços, uma pequena aldeia, cuja principal atração é a ponte medieval de A Pedreira, localizada sobre o rio Fervença, que transpusemos na sequência.

Restando quase 6 quilômetros para a chegada, transitamos pelos bairros de Tuído e Arão, então, o caminho se tornou urbano, de forma que voltamos a caminhar por rodovias vicinais, avenidas e pequenas ruelas.



A chegada ao centro da cidade foi bastante difícil e conturbada, pois precisamos seguir sobre um largo trecho de ruas empedradas, observar o tempo de inúmeros semáforos para mudar de calçadas, porém, por sorte, o final da etapa é integralmente plano.

Finalmente, passamos sob as linhas férreas, e prosseguimos por ruas movimentadas e com bastante tráfego de veículos, até aportar no Largo da Trapicheira, quando meu relógio assinalava 13 h 30 min.

Na cidade, ficamos hospedados no Hotel Val Flores onde, mediante o pagamento de R$20,00 por cada quarto individual, ficamos muito bem hospedados.

De se ressaltar que fomos excelentemente bem recepcionados pelo proprietário, o Sr. Heitor que, conforme nos confessou, residiu por 19 anos no Rio de Janeiro, e tem uma paixão especial pelo Brasil e seu povo.

Para almoçar utilizamos os serviços do restaurante Flores, que também pertence ao proprietário do hotel.

 

Valença do Minho é a cidade amuralhada mais interessante do norte português, uma relíquia de fortificação militar do século XVII, que conserva intacta a vila antiga existente intramuros e todas as suas muralhas.

Sua fundação se deve, possivelmente, a um mandado do pretor romano Decio Bruto el Galaico, que alojou nela seus soldados eméritos (licenciados) de várias legiões, que haviam lutado contra os lusitanos.

Os reis portugueses D. Sancho e D. Afonso II a repovoaram, depois a amuralharam, no tempo que se conhecia como Contrasta, qual seja pela existência de vila fronteiriça oposta a outra, no caso, a espanhola Tui.

As lutas entre os castelhanos leoneses e portugueses a deixaram em escombros em 1212, porém ela foi reconstruída integralmente, 172 anos depois, quando retornou às mãos portuguesas.

A cidade viveu esquecida nesta esquina norte de Portugal por muitos anos, até 1886, quando foi inaugurara a ponte internacional sobre o rio Minho, com duplo uso: ferroviário e rodoviário.

Dessa forma, sua ligação com a Galícia e a Espanha em geral, proporcionou um expressivo impulso econômico na cidade e em sua comarca.

 

Depois de um bom descanso, que serviu para recarregar as energias gastas naquele dia, fomos conhecer a famosa Fortaleza de Valença e passeamos um bom tempo, pelas ruas milenares da cidadela, onde o comércio é direcionado aos turistas.

Na realidade, a vila é um grande shopping às antigas, isto é, com lojas nas quais se podem olhar as vitrinas, andar ao ar livre e, embora exista tráfego de veículos nas ruas, o mais divertido e preferido pela multidão, é percorrer todas as ruas caminhando.

São várias as portas de entrada e de saída da cidade, guardada dentro da fortaleza tipo “Vauban”.

Na verdade, Sébastien Le Prestre de Vauban (1633-1707), era um engenheiro militar francês.



Assim, aplicou seu conhecimento para desenhar e determinar um tipo de construção de fortes, que se disseminou no século XVII, por todo o mundo.

Por sinal, para penetrar no circuito amuralhado, nós passamos pelas míticas Portas do Sol, a mesma por onde adentraram as tropas napoleônicas que a assaltaram, em 1807, após destruí-las com dinamite.

Na realidade, a porta é um túnel arredondado, que atravessa a muralha, num ponto onde ela tem 20 metros de espessura e 15 metros de altura, e permite apreciar a solidez dessa soberba estrutura defensiva, formada por dois polígonos irregulares de muros em múltiplos ângulos, o que permitia aos defensores terem em sua linha de tiro qualquer esquina do perímetro.

Ali, também, pudemos visitar a igreja matriz de Santa Maria dos Anjos, o templo mais antigo da cidade, vez que sua construção data do ano 1276.

No largo do Bom Jesus, pudemos observar a estátua que homenageia o primeiro santo português, São Teotônio, que nasceu em 1082, no povoado de Ganfei, ao lado de Valença.

Ele se tornou prior de Coimbra, foi conselheiro de Dom Afonso Henriques, e suas qualidades diplomáticas foram decisivas para que o papa, à época, reconhecesse a independência de Portugal.

Morreu em 1162, aos 80 anos, tendo sido canonizado no ano seguinte, tornando-se o primeiro de uma longa série de santos que andaram pelas terras lusitanas.



No retorno, fomos carimbar nossas credenciais no albergue Santo Teotônio que, por sinal, se encontrava quase lotado, tamanho o número de peregrinos que, surpreendentemente, ali encontramos.

O local é muito bem cuidado, limpo, arejado, e possui amplas instalações, além de oferecer 50 camas para pernoite.

Segundo me disse um mexicano que ali encontrei, trata-se de um “5 estrelas”, pois nesse tipo de alojamento até internet grátis é disponibilizada aos que ali se hospedam.

À noite, resolvemos quebrar as regras, afinal era nosso último dia em Portugal, um país que muito me encantou pelo carinho dedicado aos estrangeiros, mormente aos nativos do Brasil, como nós.

Posso dizer com o coração, que sempre fui muito bem tratado e respeitado pelos lusitanos, enfim, me senti em casa pelo apreço e consideração auferidos, tanto que pretendo retornar às terras lusas, quiçá brevemente, para percorrer seu Caminho da Costa.

Assim, para se despedir das terras que deixaríamos na manhã seguinte, fomos até o Solar do Bacalhau, e nos fartamos com a especialidade da casa, além de ingerir uma jarra do saboroso vinho Albariño.

Voltamos leves, alegres e felizes para o local de pernoite, brindando antecipadamente nosso adeus à pátria portuguesa e, consequentemente, nosso aporte às terras espanholas, que ocorreria na jornada seguinte.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Sem dúvida, a etapa mais difícil, dentre todas enfrentadas até ali, porque se necessita sobrelevar duas elevações de peso, com destaque para o rigoroso e íngreme ascenso ao Alto de Labruja. Porém, ao contrário da etapa anterior, comporta muitos trechos em terra, inúmeros entornos verdes e oferece belas paisagens. No geral, uma jornada ríspida e bastante cansativa pela sua longa extensão, além do que, o aporte ao centro urbano de Valença do Minho é demorado, longo e sofrido.

18ª Etapa – VALENÇA DO MINHO à O PORRIÑO – 20 QUILÔMETROS