5º dia – POLA DE ALLANDE à BERDUCEDO

5º dia – POLA DE ALLANDE à BERDUCEDO – 18 quilômetros

"Não há uma polegada do meu caminho que não passe pelo caminho do outro." (Simone de Beauvoir)

O clima prosseguiu úmido e ventoso na madrugada e, às 5 h, quando me levantei, verifiquei que a chuva havia cessado, no entanto, fazia bastante frio e o céu persistia nublado.

Conforme havia verificado em meus mapas e guias, eu teria uma jornada curta, o que muito me alegrara, pois era um sábado, dia em que o comércio em geral fecha mais cedo nas cidades.

Contudo, para minha decepção, ao reler minhas anotações, soube que esse trajeto era considerado a etapa “Rainha” do Caminho Primitivo, em vista das peculiaridades e dificuldades que apresenta em termos físicos aos peregrinos.

Em compensação, seria um dos percursos de maior beleza paisagística que se pode desfrutar nesse roteiro, em face de discorrer pelo cume de um grande morro.

Assim, mais conformado, depois dos preparativos matinais, eu deixei o hotel onde me hospedara, quando o relógio da igreja matriz anunciava 6 h, através de sonoras badaladas.

Observando a sinalização do caminho, primeiramente eu acessei a rodovia AS-14, já na saída da cidade, e caminhei aproximadamente um quilômetro, em suave ascenso.

Então, as flechas amarelas me direcionaram para uma senda recentemente cimentada, à esquerda, e por ela eu segui sempre beirando o agitado rio Nisón, que nasce nas faldas do pico “Alto do Palo”.

Na verdade, esse famoso cimo é considerado o maior desnível do Caminho Primitivo, pois se marinha, rapidamente, de 524 metros a 1.148 metros de altitude, depois de 6 quilômetros percorridos.

Eu prossegui caminhando por uma senda verde e úmida, enquanto lentamente o dia ia nascendo.



Três quilômetros vencidos, eu passei defronte uma bifurcação, onde as flechas indicavam que à direita, ficava o albergue de Penãseita.

Evidentemente que havia peregrinos dormindo ali, posto que no dia anterior, em Pola de Allande, eu avistara alguns deles tomando esse rumo.

Assim, por alguns instantes, parei a escutar atentamente algum som que viesse daquela direção, porém só ouvi o barulho do vento e o ininterrupto murmurar do regato que corria à minha esquerda.

Decepcionado e obedecendo à sinalização, segui adiante e logo transpus um arroio pela “Puente de Xestu Molina, num local conhecido por Reguero Fonfaraón.

Observando à frente, verifiquei que o céu ainda estava escuro, mas bordejado por uma leve e animadora faixa laranja.

O caminho prosseguiu silencioso e bucólico, sempre com pequenos e duríssimos “repechos”, depois com alguns “falsos” planaltos, onde eu conseguia fazer minha respiração voltar ao normal.

Durante todo o trajeto, o rio me acompanhava pelo lado esquerdo, enquanto pela direita, uma grande montanha bordejava ininterruptamente.

Nesse passo, eu atravessei diversos arroios, sempre sobre pontes de madeira.

Numa bifurcação da estradinha, tomei à esquerda, cruzei um riacho e a paisagem começou a mudar, à medida que me aproximava da montanha a ser vencida.

Mais acima, o percurso se fez ainda mais íngreme e encontrei muita pedra na senda.



De quando em vez, eu transitava defronte algumas habitações, porém em nenhuma delas observei a presença de pessoas, vez que infiro servissem elas de moradia apenas nos finais de semana, posto que estavam todas fechadas.

Já quase no topo da ladeira, eu atravessei o rio Nisón por uma ponte de madeira, escalei alguns troncos de árvores caídos na senda e, na sequência, enfrentei outro duro aclive.

Finalmente, depois de 7 quilômetros caminhados, quando meu relógio marcava 8 h, eu saí na rodovia.

Naquele ponto exato, eu estava a 900 metros de altitude e já fazia um frio terrível, prenúncio do que eu encontraria mais acima.

Seguindo as flechas, eu caminhei 100 metros em asfalto e logo a sinalização me remeteu para o lado direito onde, ali sim, iniciou-se o tramo mais complicado do dia, uma pista de terra, em duríssimo ascenso.

Porquanto, o chão estava cheio de pedras e extremamente liso, por conta da recente chuva.

Eu tinha a opção de seguir pela “carretera”, contudo, tendo em vista as inúmeras voltas que ela faz para vencer a montanha, minha jornada seria acrescida em mais 5 quilômetros.

Assim, mais acima eu girei à esquerda, e prossegui na terrível ascensão, agora por um pasto pedregoso, desnudo, e onde avistei um rebanho de gado, além de inúmeros cavalos, que me olhavam com curiosidade.

Corria um certo medo pela espinha, ao observar a trilha do lado esquerdo, que precisaria superar nas encostas do Palo, lá em cima.

Porquanto, eu tinha a impressão de ser uma parede tão inclinada, que uma simples resvalada seria o suficiente para eu rolar ladeira abaixo.

No mais, eu estava sozinho com meus pensamentos e, além da brisa cortante, ouvia apenas minha respiração acelerada e opressa.

Mas o desconforto que eu sentia, foi rapidamente compensado pela vista maravilhosa do vale lá embaixo, se descortinando à medida que subia.

Quando faltavam poucos metros para eu atingir o cimo, encontrei uma fonte de água, a famosa “Fuente de les Muyeres”, e embora com sede, não utilizei o líquido que ali jorrava cristalino, pois não havia indicação de potável ou se servia apenas aos animais.

Depois de um breve descanso naquele local, eu prossegui à direita, em direção aos postes que sustentam os fios de eletricidade de alta tensão.

Mais um esforço infinito e finalmente atingi o píncaro da montanha, em termos de caminho, exatamente no local em que voltei a reencontrar a rodovia AS-14.

Ali no cume soprava uma violenta brisa, que esfriava a roupa suada, e me fazia sentir um frio assustador, pois eu estava no ponto mais alto da jornada, a exatamente 1.148 metros de altura.

Naquele local, em que o caminho atravessa a “carretera”, aproximadamente uns 400 metros do pináculo principal do morro, pude observar e fotografar várias torres de captação eólica e uma central elétrica.

Porém, afora isto, nada mais ali existe, e dificilmente uma simples árvore sobreviveria naquele lugar descampado, agreste e inóspito.

A quietude espectral do lugar naquele horário, só era rompida pelo assovio ininterrupto do vento.



Conquanto, ele seja local de intensa visitação, um verdadeiro colírio para os olhos humanos, por conta do panorama que se descortina em 360 graus dos vales e longínquos horizontes que dali se divisam.



Posto que, eu podia visualizar ao longe, aldeias aninhadas entre vales suaves, e embebia os olhos naquele quadro de cambiantes verdes, salpicados de flores coloridas, onde pastavam mansas reses.

Meu relógio marcava 8 h 20 min, momento de reiniciar a marcha, e o fiz descendo o outro lado do morro, vez que a continuação do roteiro se faz pela falda oposta, em uma larga senda que baixa em fortíssimo declive.

Além disto, em alguns trechos, ela é extremamente pedregosa, um perigo em dias normais, que dirá nas intempéries.



Eu prossegui na jornada me precavendo ao extremo, e depois de vários escorregões, felizmente, sem maiores consequências, eu atingi um patamar menos ameaçador, seguindo, então, por um caminho situado à beira da rodovia.

E logo aportei em Montefurado, um povoado de casas de pedra, cuja denominação provém das galerias que ali foram cavadas, objetivando a retirada do ouro existente em profusão, nos tempos de outrora, época da invasão romana.

Porém, hoje a aldeia está praticamente morta, pois conta com somente um habitante, o Sr. José, que sobrevive da criação de gado.

Ao passar defronte sua porta eu levei um grande susto, vez que deparei com um enorme, porém amigável cão mastim, além de algumas vacas, que tranquilamente pastavam próximas do local.

Antigamente, existia nessa vila um hospital de peregrinos, vez que ali os caminhos se unem novamente.

É, pois, defronte à primeira casa, que ocorre o cruzamento com a rota dos “Hospitais”, até hoje muito frequentada pelos caminhantes.

Na entrada da aldeia, há uma pequena ermida dedicada a Santiago que, como a grande maioria das que encontrei anteriormente nesse roteiro, também estava fechada.

Contudo, em seu pórtico, pude ler uma antiga oração pedindo proteção ao Santo Apóstolo, coligida nos termos que abaixo transcrevo:

“Señor Santiago, me pongo en tu presencia en esta Capilla mientras recorro mi camino para llegar peregrino hasta tu santo sepulcro. Continúo mi camino en el antiguo “Arciprestazgo del Honor de Grandas de Salime”, por donde los reyes de Asturias también peregrinaron, y desde el siglo XII se venera al Santísimo Salvador del Mundo en la Colegiata Parroquial Dame fuerzas para recorrer esta etapa; caridad para con los peregrinos que me vaya encontrando; fe para descubrir la presencia de Dios en medio de mi vida; alegría y ánimo para toda mi vida. Que venga en mi ayuda la poderosa intercesión  de Santa María, Virgen de las Nieves, patrona de estas montañas y Señora de esta Parroquia. Amén”.


Também não consegui avistar a imagem do “Santo peregrino”, que afirmam ser bastante peculiar, porquanto além de ter sido lavrada no século XII, dizem que foi pintada com tinta própria para cobrir embarcações.

Fiz ali outra pausa para hidratação e ingerir uma maçã, com a gostosa sensação que a parte mais difícil daquele dia já havia sido superada.

Na sequência, prossegui por um caminho paralelo a rodovia, que me pareceu um dia já ter sido a rua principal do povoado.

No final de pequeno declive, eu precisei abrir uma porteira fechada por espinhos, para depois cruzar um pasto onde várias vacas estavam deitadas sobre o caminho e não se intimidaram diante de minha presença, obrigando-me a rodeá-las, ainda que com muito cuidado.


Depois de transpor uma cancela metálica, o caminho prosseguiu por um roteiro fantástico, situado acima das montanhas, de onde tinha preciosas vistas, difíceis de descrever em poucas palavras.

Havia inúmeros prados, onde eu podia ver alguns rebanhos dispersos pastando, colinas cerrando o horizonte e algumas pequenas aldeias salpicando o vale.

Diante da natureza exuberante, minha máquina fotográfica disparou várias vezes, com a intenção de captar um pouco dessa singular beleza.

Depois de mais 4 quilômetros vencidos, passei pelo povoado de Lago.

Ali observei algumas casas cujos telhados em ardósia, em vez da telha asturiana, denotavam a tendência galega.

Também visualizei mais abaixo uma pequena igreja dedicada à Santa Maria.

Num pórtico existente diante de uma fonte, estava escrito que junto à ermida há um pé de teixo, árvore conífera de caule duro, muito usada em tornearia, com mais de 700 anos.

Assim, impressionado com a idade da árvore, tentei e consegui fotografá-la, malgrado a distância.

Já deixando a povoação, eu reencontrei a rodovia e logo alcancei o bar Serafim, um lugar propício para uma parada, sendo muito frequentado pelos peregrinos.

Contudo, eu estava bem suprido, de maneira que após pequena pausa para fotos e hidratação, utilizando os bancos e mesas intalados no lado externo do estabelecimento, prossegui em frente.



Duzentos metros caminhados, eu deixei a “carretera” e segui por uma estrada rodeada por muito verde e grandes pastagens, que me levou a transitar por dois extensos e frescos bosques de pinheiros.



No trecho final, curiosamente, pude fotografar um arco-íris, que naquele momento irrompia no céu à minha direita, possivelmente porque momentos antes havia caído uma breve tromba d’água naquela região.

No final de uma larga estrada de terra, eu adentrei em zona urbana e logo passava defronte ao albergue de peregrinos de Berducedo, situado num prédio onde antigamente funcionava uma escola municipal.

A habitação estava aberta e pude visitar suas instalações que, como pude constatar, embora desgastadas, estavam em razoáveis condições de limpeza.

Porém, eu sabia que existia outro local de pernoite na cidade, de maneira que atravessei a rua principal da pequena vila e logo chegava ao albergue “Casco Antícuo”, onde o carinho e atenção da proprietária, dona Mabel, faz toda a diferença.

Ainda era muito cedo, sendo eu o primeiro peregrino a chegar, de forma que pude tomar posse da melhor cama, longe do banheiro e de possíveis roncadores.

Em Berducedo, a maior localidade dessas altiplanícies asturianas, residem, exatas, 110 pessoas.

Neste lugar não há restaurantes, apenas dois bares atendem os visitantes, com respectivas “tiendas” anexas.

E foi no bar El Cafetin, onde comprei ingredientes para preparar um reforçado lanche, que me serviu de almoço.




A simpática povoação, que foi erigida no fundo de um fértil e verdejante vale, tem belas casas e sua igreja matriz dedicada a Santa Maria, foi edificada no século XIV, anexa a um local onde também existiu um hospital de peregrinos.

Mais tarde, chegaram mais seis caminhantes que se albergaram no mesmo local em que eu estava, posto que o outro, pertencente ao município, com 10 camas disponíveis, já estava completo.



Isto porque, outro tanto de peregrinos havia seguido adiante por mais 4 quilômetros, a fim de pernoitar no albergue de La Mesa, um povoado por onde eu passaria na jornada seguinte, e que não oferece nenhum tipo de serviços.

À noite, após ingerir um frugal lanche, fiquei conversando com a proprietária do lugar e seu simpático esposo, o Sr. Aldo.

E logo me deitei, pois fazia um frio de doer.

Adormeci em seguida, e não me lembro de ter passado uma noite tão repousante, em todo esse meu périplo.



IMPRESSÃO PESSOAL
Uma jornada de pequena extensão, todavia de grandes desafios, pois nela está inserta a difícil escalada do “Puerto del Palo”, além da perigosa descida pelo lado oposto. Porém, uma etapa extremamente silenciosa e desabitada, plena de muito verde e belíssimas paisagens. No global, um percurso altamente complicado por sua violenta altimetria, agravado pela imensa quantidade de pedras soltas, alocadas no leito das sendas que transpõem a montanha.

Cidade de Berducedo, vista parcial

6º dia – BERDUCEDO à GRANDAS DE SALIME