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11º dia – VILLALÓN DE CAMPOS a SAHAGUN - 36 quilômetros


11º dia – VILLALÓN DE CAMPOS a SAHAGUN - 36 quilômetros

Nunca é tarde demais para encontrar o seu Caminho.



Deixei o local de pernoite próximo das 6 h 30 min, após uma madrugada insone, pois eu estava hospedado num quarto fronteiriço à praça maior da cidade.

E nela, durante toda a noite, houve intensa movimentação, com gritos, explosão de fogos de artifício, cantorias, bebedeiras, aceleração de motos, estouro de escapamentos, enfim, meu sono foi fragmentado e improdutivo.

Na verdade, ocorria um encontro de motociclistas na cidade e, por conta da intensa agitação, meu sossego foi para o espaço sideral.

Dessa forma, acordei, definitivamente, às 3 horas e não consegui mais ficar na cama, porém chovia forte.

Então, assim que a garoa amainou, deixei o local de pernoite e caminhei no escuro por um bom tempo, utilizando minha lanterna, para conseguir visualizar o rumo.

Logo após deixar a zona urbana, acessei um caminho plano, localizado entre trigais, por onde segui escoteiro e tranquilo.

O sol logo apareceu, mas o dia permaneceu nublado e fresco.

Sete quilômetros percorridos, transitei rapidamente pela minúscula vila de Fontihoyuelo, onde tudo ainda estava fechado e silencioso.

Prosseguindo, de volta aos campos, segui em leve descenso, novamente, por estradas rurais bem sinalizadas e sem maiores problemas, mais 7 quilômetros vencidos, cheguei a Santervás de Campos, porém o traçado do caminho não adentra em zona urbana.

Assim, na entrada da cidade, eu girei à direita e caminhei 3 quilômetros pelo acostamento de uma rodovia vicinal, então, as beneplácitas setas amarelas me encaminharam para estradas rurais novamente.

Fiz, então, uma pausa para hidratação, enquanto observava o firmamento, pois o dia permaneceu nublado e frio, mas com boas chances de chover a qualquer momento.

Prosseguindo, mais adiante, transitei por Arenillas de Valderaduey, um dos menores “pueblos” existentes no Caminho de Madri.

Na sequência, por uma ponte, atravessei o rio Valderaduey, depois girei à esquerda e prossegui interminavelmente por uma estrada plana e reta, situada ao lado desse curso d'água.

Depois de transpor as linhas férreas por um túnel, passei ao lado de Grajal de Campos, pois o traçado do caminho discorre a uns 300 metros dessa penúltima povoação do Caminho.

Os derradeiros 5 quilômetros foram, para variar, finalizados sobre uma estrada larga e silenciosa.

E sem maiores atropelos, aportei em Sahagún, ponto final do Caminho de Madri, que nessa localidade se enlaça com o Caminho Francês de Santiago.

E eu que transitara solitário o tempo todo, ali encontrei dezenas de peregrinos, alguns se preparando para pernoitar na cidade, outros seguindo adiante.

Algumas fotos do percurso desse dia:


Passei esse dia caminhado sempre entre imensos trigais...


O sol, finalmente, apareceu...


Transitando por Fontihoyuelo.


De volta ao silêncio dos campos..


Trigais a perder de vista..


Outra etapa extremamente bem sinalizada.


Retões sem fim.


Transitando por Santervás de Campos.


Para quem gosta de solidão e silêncio, eis o Caminho ideal.


Passagem por Arenillas de Valderaduey. Área de descanso.


O caminho prossegue deserto e silencioso..


Quase chegando em Grajal de Campos, a derradeira povoação do Caminho de Madrid.


Quase chegando em Sahagún, tempo nublado e frio.


Entrada do Albergue de Peregrinos Cluny, em Sahagún.

Depois de passar por Moratinos e San Nicolas de Real Camino no Caminho Francês, que pouco ou nada oferecem ao peregrino, a próxima localidade é Sahagun, considerada como uma das “grandes cidades” do Caminho (3.300 habitantes).

É conhecida como sendo a capital do “Românico pobre”, já que em suas edificações era usado o barro e não pedras para a construção de suas igrejas como, por exemplo, a de San Tirso.

O curioso nome desta cidade, que era chamada Camata pelos latinos, deriva de San Facundo ou Sant Facund ou San Fagún, mártir cristão dos antigos tempos do Império Romano.

Conta-se que aqui o imperador Carlos Magno combateu os muçulmanos comandados pelo rei Aigolando. Diz a lenda que os guerreiros francos, vitoriosos, fincaram as lanças dos soldados cristãos mortos ao lado de seus corpos caídos, “para glória do Senhor”. No dia seguinte, neste local, às margens do rio Cea, as hastes de suas lanças haviam se tornado verdes e florescentes. 


A Estação Ferroviária da cidade.

O Monastério dos santos Facundo e Primitivo foi fundado no ano 872 pelos monges de Cluny, por incentivo do rei Alfonso III Magno, de Castela. Este mosteiro sempre foi um dos mais importantes do Caminho e chegou a ser a principal abadia beneditina na Espanha. Aí está sepultado o rei Alfonso VI de Castela, um dos grandes protetores dos peregrinos.

Com jurisdição religiosa sobre toda a região, seu poder gerou também animosidades. O mosteiro acabou em ruínas e a cidade lentamente perdeu sua antiga grandeza. Sua entrada principal, entretanto, não foi demolida, nem mesmo quando foi construída a moderna estrada asfaltada. 


As ruínas do Monastério de San Facundo.

As ruínas da antiga abadia, ainda imponentes sobre a entrada da cidade, formando um enorme arco de pedra sobre a estrada, são consideradas "Monumento Nacional da Espanha".

Possui 3 albergues, sendo o mais emblemático o de Cluny, que funciona onde era a antiga abadia da Ordem de Cluny. Além disso, dispõe de vários hostais, restaurantes e amplo comércio.

Durante a idade média fixaram residência em Sahagun sábios, ricos, artesãos, burgueses e artistas procedentes da Espanha muçulmana, que aqui desenvolveram a arte mudéjar. Com isso, se mesclaram culturas e línguas com a convivência de mouros, judeus, franceses e castelhanos. 


Basílica da Virgem Peregrina, em Sahagún, onde recebi o Diploma por ultrapassar a "Metade do Caminho".

Um conjunto de joias arquitetônicas existe na cidade: as igrejas de San Tirso (sec XII) e San Lorenzo (sec XIII) ambas de estilo românico-mudéjar; as de estilo neoclássico - La Trinidad (sec XVI) e de San Juán de Sahagún (sec XVII) que, junto com o santuário de la Virgen Peregrina (antigo convento franciscano) e o museu das Madres Beneditinas, formam um mosaico de rara beleza.

Na saída da cidade, após cruzar a ponte de Canto sobre o río Cea, construída em 1085, por ordem de Alfonso VI, há uma árvore bastante alta à direita, onde a história situa a batalha entre Carlos Magno e o rei mouro Aigolando, com milhares de mortos, cuja lenda conta que as lanças jogadas pelos cristãos floresceram ao serem cravadas no campo.


A imagem da Virgem Peregrina, em Sahagún.

Em Sahagún eu pernoitei no Hostal La Codorniz Restaurante, cêntrico e de excelente qualidade.

Para almoçar, eu utilizei os serviços do Restaurante do próprio hostal, onde despendi 12 Euros por um delicioso “menú del dia”.

IMPRESSÃO PESSOAL – Foi, efetivamente, uma jornada onde desfrutei da paz e solidão dos campos castelhanos, antes de me incorporar ao bulício que me aguardava no Caminho Francês. Depois de deixar Villalón de Campos, uma localidade importante e carregada de história, passei por Fontihoyuelo, o menor povoado de todo o Caminho de Madri. Sem me esquecer que a chegada a Sahagún, revestiu-se de intensa emoção.

No global, foi uma extensa jornada, no entanto, percorrida por locais planos, arejados e de extrema beleza, sob um clima frio e nublado, que favoreceram meu deslocamento. E o reencontro com os peregrinos do Caminho Francês foi um bom momento para rever meus irmãos caminhantes, com quem pude confraternizar no Albergue de Cluny, quando o visitei para carimbar minha credencial.


 FINAL