19ª Jornada - AVILÉS a CUDILLERO

19ª Jornada – Avilés a Cudillero - 30 quilômetros: “Para o mar, novamente!” 


               Teria pela frente desta vez, uma jornada longa, porém, com vários povoados a pontilhar meu caminho, de maneira que iria enfrentar um roteiro, onde campos e estradas vicinais asfaltadas se alternariam.

            No entanto, os primeiros quilômetros seriam em zona urbana e sob a iluminação artificial, de forma que resolvi sair bastante “temprano”, posto que, como na jornada do dia anterior, a meteorologia previa sol forte após as 10 h.

            Assim, levantei às 5 h, calmamente ingeri frutas e chocolate, acompanhado de um “capucino” reforçado, e às 6 h, pontualmente, deixava o local de pernoite, seguindo por ruas largas e bem sinalizadas, sob um clima frio e neblinoso, com temperatura na casa dos 7°C, conforme verifiquei num termômetro digital, instalado numa grande praça por onde passei.

            A saída da cidade se faz através da rodovia que segue em direção à Coto Carcedo, e logo passei por San Cristóbal, na verdade um bairro residencial de Avilés, localizado à beira-mar, onde observei belíssimas mansões, algumas ainda em construção.

            Mais à frente, tomei a “carretera de La Cuesta” e depois de pequeno ascenso, cheguei à Salinas, uma pequena vila tipicamente turística e com pouco encanto, onde adentrei pela larga e extensa Avenida de las Raíces e, como esperado, encontrei-a integralmente deserta àquele horário.

            Prossegui por várias ruas bem iluminadas, com sinalização adequada, de forma que não tive problemas para deixar esse pequeno povoado, o fazendo através da Avenida de San Martín.

            Depois de um ascenso perene, passei pelo bairro de Navalón e defronte uma casa de pedra amarela, girei à esquerda e logo encontrei a igreja de San Martín de Laspra, onde sobressai seu campanário pétreo, do século XVII.

            Porém, há que se destacar ali uma frondosa janela geminada, resguardada por um cristal de segurança, um evidente indício de uma construção anterior bastante antiga, possivelmente do século XIV, época da monarquia asturiana.

            A partir da ermida, iniciou-se fortíssimo descenso, já no “camino del Pontón” que me levou, mais abaixo, à “carretera de Carcedo”, por onde segui durante um quilômetro, até chegar ao núcleo de “Piedras Brancas” outro bairro residencial, em que observei a existência de diversos bares, alguns já abertos.



            Após ascender por uma estrada rural, em meio a imenso bosque de eucaliptos, adentrei no “Bairro de la Cruz”, de onde pude ver, ainda que ao longe, talvez a uns 5 quilômetros de distância, o inesquecível mar Cantábrico.


            Mais alguns quilômetros caminhados, passei por La Ventaniella, onde pude observar a ermita de Los Remédios, uma capela romântica e ainda muito bem conservada, construída no século XII, com paredes laterais em pedra e um pequeno pórtico, apoiado sobre sólidas colunas.

   Nesse local, está documentada a assistência ali prestada aos peregrinos medievais.



            Prossegui em meio a muitas casa esparsas, e depois de vencer um grande aclive, ainda por asfalto, passei por Santiago del Monte, um pequeno povoado, onde pude admirar uma singela igrejinha dedicada à Santiago, com a data de sua construção inserta em seu frontispício, pasmem: ano de 1.130!

           

            Na sequência, após vencer pequena elevação e passar próximo ao cemitério, acabei ultrapassando a Autovia Nacional através de um túnel, e depois prossegui por uma rodovia asfaltada, onde observei à esquerda um impressionante aqueduto.

            Em seguida, precisei vencer uma íngreme ladeira, onde ultrapassei 4 pessoas da comunidade, que caminhavam vagarosamente, acompanhados de 2 graciosas cachorrinhas, seguindo na direção da “Sierra de Cueplo”.

            No final de uma grande reta, as flechas me direcionaram para a esquerda e, então, passei a caminhar por uma estrada de terra bem assentada, em meio a um extenso bosque de eucaliptos, realmente um trecho dos mais agradáveis e frescos.

            Porém, depois de vencer 4 quilômetros em meio a muito verde e, no final, em forte descenso,  acabei saindo novamente no asfalto, atravessei a rodovia e depois de vencer brusca escadaria, adentrei no bairro de El Castillo onde, como o próprio nome diz, existe o “Castillo de San Marín”, uma soberba construção datada do século XI.





            Em face de sua privilegiada situação na foz do rio Nalón, já na época da invasão romana, se estabeleceu uma fortificação naquele local, para defesa contra as incursões inimigas, sendo que o edifício atual data do período da monarquia Asturiana, século XIV, e foi edificado com o mesmo propósito.

            Em seguida, cruzei a pequena vila e depois de seguir beirando o asfalto, por uma pista cimentada construída na lateral, adentrei em Soto del Barco, uma cidade de razoável tamanho, situada no cruzamento de várias rodovias, por isso, de grande importância comercial na região.



            Numa rotatória situada na entrada dessa progressista vila, adentrei à direita, depois de passar ao lado do Hotel Camiño Norte onde, surpreso e emocionado, avistei desenhada a cores numa de suas paredes, a maravilhosa bandeira do Brasil ao lado da Asturiana.


            Depois de vencer pequeno ascenso, ainda em zona urbana, passei defronte ao imponente edifício denominado “Palácio del Magdalena”, cuja edificação data do século XV, é atribuída a Don Rodrigo de Llano Ponte, às expensas de seu tio Don Juan, que à época era o bispo de Oviedo.

 Trata-se de uma faustosa construção, hoje transformada num luxuoso hotel cinco estrelas.

            Na sequência, sempre por asfalto, fiz uma grande volta em pronunciado descenso, e no final de mais três quilômetros ultrapassei a foz do rio San Estebán, sobre uma grande ponte onde existe anexa uma passagem para pedestres, com aproximadamente 1.000 m de extensão.

            Depois, em pronunciada ascensão, adentrei, à esquerda, num caminho de terra e após vencer pequena elevação e ultrapassar novamente a rodovia adentrei em Muros de Nalón, outra típica cidade asturiana, cuja fundação data o ano de 1.431, e sua população atual contempla 2.100 almas.

            O roteiro me levou até a praça central da urbe, nominada de Marqués del Muros, onde conheci a igreja de Santa Maria, uma edificação do século XVIII, com portas barrocas, localizada defronte ao prédio do “Ayuntamiento”, que se encontra instalado no antigo Palácio de Valdecarzana.

            Meu pé esquerdo estava tremendamente dolorido e sensível a mais simples pisada em alguma pedra, de maneira que resolvi ingerir um analgésico, como forma de minorar o desconforto.



            O relógio da igreja acabara de bater 11 h, e eu estava muito cansado, mas ainda tinha um bom trecho pela frente, de maneira que rapidamente parei num bar para comprar água e chocolates, e logo depois acessei a rua Gerardo Gonzalez, que me levou até o edifício da estação férrea.

            Uma senhora que voltava das compras parou para conversar e muito amavelmente me disse que o trecho do caminho que iria percorrer em seguida, se encontrava muito matoso, já que há algum tempo, não era feita a manutenção em seu leito, assim, eu deveria tomar muito cuidado com os animais rasteiros.

            Agradeci o conselho, mas eu não tinha outra opção, até porque o trajeto pelo asfalto iria acrescer mais 3 quilômetros em minha jornada e, em face do calor reinante, já me sentia bastante exausto.

            A partir dali, segui por uma estrada vicinal urbanizada, contudo, depois de 1 quilômetro, adentrei à direita e acessei uma trilha extremamente arborizada, situada em meio a uma exuberante vegetação, que contava, em alguns locais, com ramos inóspitos invadindo a senda e, em diversos locais piso em grama.

            Foi esse trecho, um dos mais interessantes de todos que percorri em minha aventura, porém foram apenas 4 quilômetros, porquanto, depois de ultrapassar a via férrea, retornei à civilização, adentrando pelas ruas de El Pito, um pequeníssimo povoado, onde não vi “serviços”, como bares, “tiendas” ou padarias, de espécie nenhuma.

            Conquanto seja cogninada de “El Versalles Asturiano”, a povoação me pareceu uma cidade fantasma, pois embora seja dotada de belas residências, não encontrei ninguém, nem mesmo um cão, enquanto caminhava por suas ruas desertas e silenciosas.




              Cita-se ali, como ponto de interesse, o Palácio Selgas, onde passei na frente.

   Trata-se de uma fabulosa mansão construída por dois irmãos nascidos nessa urbe, Ezequiel e Fortunato Selgas, que emigraram para a América e, ao retornarem ricos, quiseram engrandecer sua terra natal com algo faustoso e monumental.

            O palácio em si, é uma grande obra modernista, rodeado de jardins “versaliescos”, com fontes, lagos, cascatas, “templetes”, avenidas e peças arqueológicas recolhidas ou adquiridas por ambos, para enriquecer o ambiente, posto que ambos eram mecenas.

            Minha intenção era pernoitar naquela cidade, porém, com sinceridade, não avistei nenhum hotel ou pensão nas imediações, de maneira que como já trazia preparado um plano “B” para tal eventualidade, prossegui caminhando pelo acostamento da rodovia N-632 e, num local onde as flechas me remeteram à esquerda, em direção à Soto de Luiña, prossegui adiante.

            Iniciou-se, então, terrível descenso, e logo adentrei em zona urbana, seguindo por uma rua pontilhada de casinhas multicoloridas que margeiam aquela única via de acesso à urbe, enquanto internamente um pensamento me assombrava, uma vez que teria de subir por ali, para reacessar o roteiro no dia seguinte.

            Depois de fazer várias curvas, sempre morro abaixo, finalmente cheguei ao centro de Cudillero, um dos “pueblos” pesqueiros mais bonitos e famosos da Astúrias que, inclusive, tem grande importância no Caminho de Santiago, pois nesse lugar já existiu até um hospital para peregrinos, isto no século XVIII.

            A cidade, cuja origem remonta o século XIII, tem a maioria de suas casas construídas à beira dos penhascos que existem ao redor do núcleo central da povoação, de onde se tem uma vista privilegiada do mar.

            Explicando melhor, ela se encontra numa impressionante cava, em forma de teatro grego, que faz com que suas casas como que cavalguem umas às outras, até chegar à orla marítima e, curiosamente, a abrupta descida até essa cidade se pode nominar de qualquer adjetivo, menos de “suave”.

            Na verdade, suas labirínticas ruelas convidam o visitante a se perder em seus inúmeros rincões e, curiosamente, as casas exibem externamente, quase sempre, em sua fachada, os apetrechos de um típico povoado “mariñeiro” como anzóis, arpões, redes, peixes empalhados e varas de pesca.



   E pela beleza do conjunto que ali pude admirar, nominaria este povoado, que já foi um núcleo de pescadores e hoje é turístico, como um dos locais mais bonitos, diferentes e emblemáticos que conheci ao longo de toda a minha peregrinação.

            O prato típico servido no local chama-se “el curadillo”, na verdade um tipo de pescado seco e dessalgado, que era tradição ser armazenado pelas famílias dos moradores locais, como reserva para os dias invernais ou de tempestade, quando o clima não permitia aos pescadores saírem para trabalhar.

            Ali fiquei hospedado no Hostal Acapulco e para almoçar utilizei o restaurante do próprio estabelecimento, por sinal, um local onde fui muito bem servido.



            Mais tarde, após fazer demorado curativo em meu pé, fui conhecer a igreja de São Pedro, o padroeiro da vila.

   Trata-se de um templo gótico de uma só nave, com abóboda em cruz, abside semicircular, capelas laterais em estilo romântico, porta barroca e uma planta quadrada.

            A interessante construção data do século XVI e foi feita graças a doações dos moradores locais. 

            Em seu interior abriga pinturas de grande valor monetário, tendo sido declarada no século passado Patrimônio Histórico e Artístico das Astúrias.

            Desfrutando o passeio, segui abaixo em direção ao porto, local paradisíaco, que além de me permitir algumas fotos espetaculares, aproveitei para carimbar minha credencial na Oficina de Turismo onde, num gesto de apoio ao peregrino, me permitiram acessar a internet, graciosamente.


            

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa de razoável amplitude e bastante difícil, posto que foram 10 quilômetros em terra, em meio a espessos bosques de eucaliptos. Em compensação, percorri outros 20 quilômetros em asfalto, quase sempre em locais urbanizados, onde encontrei expressivo tráfego de veículos. Ademais, a altimetria varia bastante nesse percurso, com algumas ascensões importantes. De se enaltecer o trecho entre Muros de Nalón e El Pito, bem como a cidade de Cudillero, sem dúvida, os pontos altos dessa dura e desgastante jornada.

20ª Jornada - CUDILLERO a CADAVENO