8º dia – FONSAGRADA à CADAVO BALEIRA

8º dia – FONSAGRADA à CADAVO BALEIRA – 25 quilômetros

Ter fé é assinar uma folha em branco e deixar que Deus nela escreva o que quiser.” (Santo Agostinho)


A jornada daquela data afigurava-se tranquila, isto de acordo com o guia que eu portava, porquanto, além de ser de razoável extensão, não previa grandes alterações altimétricas, apenas uma sucessão infinita de acensos e decensos.

No entanto, a metereologia previa sol forte para depois das 10 horas.

A ideia, então, era sair o mais cedo possível, pois o dia prometia ser quente e meus níveis de energia caiam muitíssimo sob o calor opressivo.

Assim, seguindo minha rotina diária, levantei às 5 h e deixei o local de pernoite meia hora depois, seguindo por ruas ventosas, frígidas e integralmente desertas.

Por uma rua empedrada, eu segui até uma arborizada praça e, a partir daquele ponto, principiei a descer até alcançar um posto de gasolina, onde tem início a rodovia LU-530.

Cem metros depois, seguindo as flechas amarelas, eu abandonei a “carretera” e prossegui à direita, por um caminho asfaltado e em franco descenso.

Então adentrei numa espessa cerração, que me deixou bastante preocupado, pois passei a ter dificuldade em ver as marcações, vez que naquele horário, o dia ainda não havia nascido.

Mais abaixo, encontrei um “mojón”, informando que ainda restavam 157.844 metros até Santiago. 

E logo adentrei em Padrón, passei defronte a igreja ali existente, e depois de uns 300 metros, saí novamente na rodovia que acessara anteriormente, agora em seu quilômetro nº 56.

Na sequência, encontrei o albergue de peregrinos, instalado num edifício de 2 andares.

Que, por sinal, está situado defronte ao prédio da Proteção Civil Espanhola, coincidentemente, a responsável por sua gestão.

Ali, notei que as luzes do estabelecimento estavam acesas, havia barulho de pessoas se movimentando, porém não vi nenhuma alma viva saindo ou adentrando ao ambiente.

Assim, resolvi prosseguir adiante, contudo não encontrei as flechas sinalizadoras que me indicassem o rumo, de maneira que fiquei um bom tempo confuso, pensando o que fazer ou a quem perguntar.




Sem alternativa, resolvi retornar sobre meus passos para ver se conseguia decifrar aquele preocupante imbróglio.

E o fiz, observando atentamente a marcação de solo.

Assim, diante da igreja matriz do povoado, por onde eu havia transitado anteriormente, encontrei uma bifurcação de sinais, cristalizado por flechas amarelas pintadas no piso cimentado.

Dessa forma, se seguisse à esquerda, como eu havia feito, chegaria ao refúgio, no entanto, o roteiro do caminho prosseguia à direita, indicação que me passara despercebida, em face da escuridão reinante naquele horário matutino.



E foi o que imediatamente fiz, seguindo em frente, por uma senda arborizada e bastante úmida, ainda em meio a muita neblina.

Logo notei que estava caminhando em paralelo à rodovia e, em seguida, num “mojón” estrategicamente instalado junto à uma bifurcação, pude ler que me restavam percorrer, exatos, 157.581 metros até o final de minha peregrinação.

A paisagem circundante foi se mostrando esplendorosa à medida que o dia lentamente clareava.



Depois de um quilômetro, o roteiro e a rodovia se alternavam, sendo o caminho ainda bastante plano, pleno de bosques de pinheiros e eucaliptos.

Logo avistei Villardongo, um pequeníssimo povoado, do qual passei a uns duzentos metros, se tanto.

Naquele local, me apartei definitivamente da “carretera”, e prossegui ainda em meio a muito verde, por caminhos em terra, largos e bem demarcados.

Para minha surpresa, depois de percorrer 5 quilômetros, notei uma peregrina caminhando à minha frente e, quando ela parou para procurar algo em sua mochila, eu ultrapassei-a e constatei que sua nacionalidade era germânica.

Após cumprimentá-la com um sonoro “bon camiño”, prossegui em frente e, na sequência, passei por Piedrafitela, outra minúscula aldeia.

Em seguinda, surpreendentemente, após vencer uma pequena planície, notei mais 3 peregrinos caminhando à minha frente.

Depois de um pequeno outeiro a ser vencido, eles fizeram uma pausa num mirante que ali existe e de onde se descortina uma fantástica vista do vale que eu podia ver ao fundo e à esquerda.

Troquei algumas saudações e palavras com eles, soube que haviam pernoitado em Padrón e saído bem cedo, como forma de melhor enfrentar a jornada, porquanto, conforme notei, além de vetustos, estavam acima do peso.

Gentilmente, um deles tirou uma foto minha, conforme lhe solicitei, depois me despedi fraternalmente do animado grupo, e segui adiante, enquanto eles permaneceram a lanchar e beber coca-cola.



Subindo novamente, mais acima eu passei pela vila de Matouto, onde teve inicio outro suave ascenso que, lentamente, me levou ao pico de um morro, a 1.050 metros de altitude, onde também existe um grande conjunto de torres de captação de energia eólica.

Ali tem início uma pequena planície, onde pude identificar as ruínas de um refúgio-hospital que fora edificado a mando de Pedro I, “El Cruel”, rei de Castilla, no ano de 1.357, para atender os peregrinos que por ali passavam e eram martirizados pelo frio e nevascas, durante o inverno.

Constava de duas igrejas, uma das quais foi recuperada, sendo utilizada atualmente, como escola, onde jovens aprendem a realizar trabalhos manuais.

Próximo de um muro de pedra, observei a existência de um dólmen, na verdade, um monumento megalítico composto de pedras verticais e horizontais, que recorda o túmulo funerário de antepassados, que ali faleceram.

Fiz, então, uma pausa para hidratação, descanso e fotos.

Depois prossegui em frente, agora por uma senda florestal situada dentro de um frondoso e extenso bosque de pinheiros, sempre em intenso e ininterrupto descenso.

Dois quilômetros abaixo, surpreendentemente, eu alcancei mais dois peregrinos, estes de origem francesa, pois já os havia encontrado e conversado rapidamente com eles, no povoado de La Mesa, três dias antes.

Polidamente, cumprimentei-os, depois prossegui adiante, pois eles seguiam num ritmo bastante lento, caminhando ambos, com um bastão em cada mão.



Porém, se eu havia encontrado o refúgio às 6 h, em Padrón, a que horas eles deveriam ter partido do albergue para estarem tão avançados assim em relação a mim, essa era uma pergunta que fui remoendo, enquanto prosseguia meu périplo.

Quatro quilômetros percorridos desde o cimo da montanha, sempre em meio a muito verde, eu acabei por sair novamente na rodovia, agora já na cidade de Paradavella.

Ali encontrei um bar, onde pude ingerir um espesso café de origem colombiana.

O proprietário, um argentino, ficou surpreso com minha nacionalidade e confessou ser extremamente difícil encontrar brasileiros percorrendo aquele roteiro, eu mesmo era o primeiro que ele via nos últimos 180 dias, calculava.

Bem aquecido, retornei ao caminho, agora por uma senda descendente e arborizada, que me levou ao fundo do vale, já à esquerda da rodovia, e logo passei pela pequena aldeia de Degolada.

Ainda em descenso, transitei pela minúscula vila de Couto e, aí, novamente, iniciou-se outro torturante ascenso, possivelmente, uma das mais empinadas escaladas que precisei vencer em toda a minha vida de caminhante.

Na realidade, eu estava no fundo de uma verde e extensa depressão de terreno, localizada entre dois espigões adjacentes, e precisei enfrentar uma penosa ascensão por uma escarpa, utilizando uma estradinha de terra, que se contorcia entre rochedos.

Foram apenas 300 metros, porém, a cada três passos era necessário parar 30 segundos para respirar e descansar.



Até que no final dessa violenta encosta, eu acabei saindo novamente na “carretera” LU-530, já na zona urbana da cidade de A Lastra, cujas construções estão distribuídas ao longo da rodovia.

Um expediente muito utilizado pelos peregrinos que eu desconhecia, seria fazer esse trecho diretamente pelo asfalto, que, embora seja em ascenso cresceste, seu alcantilamento é bem mais suave.

No final de um descenso, após transpor as últimas casas do povoado, eu segui à esquerda, por uma estrada plana, mas que rapidamente foi se encrespando, em meio a um bosque de pinheiros.



Ali, novamente, precisei vencer outra fortíssimo ascenso, que me levou a caminhar pelo topo de uma elevação, na altitude de 936 metros, agora no pico denominado de “alto da Fontaneira”.


Eu estava bastante cansado, o sol brilhava forte, assim fiz nova pausa para descanso e hidratação, pois a jornada estava se mostrando bem diferente, em termos de rudeza, daquilo que eu previra.

Na sequência, acabei por retornar à rodovia e, ainda por ela, passei pela cidade de Fontaneira, onde existe uma graciosa igrejinha dedicada a Santiago, mas que, infelizmente, estava fechada naquele horário.

Observei naquela localidade a existência de dois bares abertos, no entanto, apesar da fome e sede, eu tinha pressa em chegar, pois o sol já crestava sem dó, de forma que segui em frente, e logo as flechas me direcionaram para a esquerda, em direção a uma trilha que passa ao lado do cemitério da cidade.

Mais à frente, retornei novamente ao asfalto e prossegui nele por um bom tempo, quando, após uma dura ladeira, que subi arfante, o caminho definitivamente adentrou em terra, à direita, levando-me a transitar por uma área seca e desnuda de vegetação.

E logo principiei a descer, em alguns locais, de forma violenta e perigosa, pela quantidade de pedras soltas e espalhadas pela estreita senda, que baixa em grotescos ziguezagues.




Albergue de peregrinos de Cadavo Baleira

Finalmente, quando estava quase em cima de Cadavo Baleira, avistei suas primeiras casas e adentrei em zona urbana, transitando, quase imediatamente, diante do albergue de peregrinos, que está situado próximo do Centro de Saúde, junto ao “mojón” do quilômetro nº 135.729.

Eu prossegui ainda por uns 500 metros em descenso, e me hospedei no hotel Moneda, onde pude desfrutar de excelentes e limpíssimas instalações.

Para almoçar, utilizei o restaurante instalado no primeiro piso do edifício, onde fui muito bem servido, pois pela primeira vez no Caminho, pude degustar um macarrão à bolognesa, e matar a saudade de minha pátria.

De maneira que, ao deixar o estabelecimento, meu estômago e coração se achavam felizes e saciados.

Antes de aportar a essa cidade, onde residem aproximadamente 1.700 pessoas, eu passei bordejando acima, por um lugar conhecido como “Campo de A Matanza”, onde a tradição conta que o exército de Alfonso II, no ano 1.100, venceu uma histórica batalha contra os muçulmanos.

Por sinal, há um escudo incrustado na fachada do antigo prédio “del Ayuntamento”, que mostra um soldado cristão matando mouros.

Cadavo Baleira está situada nos pés das serras orientais da Galícia, em um relevo acidentado e montanhoso, formando um largo vale, onde nascem os rios Neira e Eo, de crucial importância para a Península Ibérica.

E embora a primeira referência histórica desse povoado seja do ano 813, ele não possui nenhum encanto especial, pois parece um pueblo de criação recente, porque tanto a igreja matriz, como os outros prédios importantes da cidade, parecem recém-construídos.

Como curiosidade, observei que a grande maioria das casas edificadas nessa povoação foram decoradas externamente com pedras, compondo um visual bastante interessante e bonito.

Num parque municipal, onde havia mesas e churrasqueiras, identifiquei um estranho e diferenciado monumento que, quando me acerquei para ler um painel, mostrou que se tratava de uma cópia de um capitel da igreja da Sagrada Família de Barcelona.

Ela teria sido realizada por um escultor local, a quem concederam permissão para tal proeza, e a surpreendente obra se configurou algo estupendo para meus olhos, que não esperava encontrar algo tão extraordinário exposto numa minúscula e desconhecida aldeia.

À tardezinha, após um bom descanso, fui até o albergue municipal carimbar minha credencial e pude constatar que todas as suas 22 camas já estavam ocupadas.

Aliás, enquanto ali estive, chegaram mais 8 peregrinos, metade deles de bicicleta, e a hospitaleira, de nome Carmen, algo ríspido, disse que não havia mais lugar para acolhê-los e mandou-os procurar pernoite na pensão Elígio, próximo dali.

Mais tarde, enquanto tomava uma cerveja em frente ao meu hostal, passou por ali o Celsio, peregrino espanhol que havia encontrado no dia anterior.

Ele estava indo ao supermercado situado defronte àquele local.

Parou para conversar e perguntou minhas impressões sobre o roteiro vivenciado naquela data, em termos físicos, pois confessou que se sentia extremamente exaurido.

Disse-lhe, com toda a sinceridade, que eu também me encontrava bastante estafado, embora, antes de ouvir seu testemunho, pensasse que fosse algo de natureza particular.

Vez que o guia avaliava aquela etapa como fácil/normal, o que na verdade não me pareceu, de forma alguma a expressão correta para nominar esse percurso.

Isto o deixou mais conformado, posto que embora ele estivesse um pouco acima do peso, entendia que ainda tinha bastante energia e experiência em peregrinações, assim, tinha certeza que chegaria, sem dúvida, até Santiago pelas próprias pernas.

No que, prontamente, concordei.

Depois de um bom papo ele se despediu e foi às compras, enquanto eu subi para meu quarto, ingeri um frugal lanche e logo fui dormir.



Já pensando no dia seguinte, quando pretendia chegar cedo à Lugo, capital da Província homônima, uma cidade histórica e plena de monumentos a serem visitados. 


IMPRESSÃO PESSOALUma jornada de razoável extensão, que apresenta alguns obstáculos naturais difíceis de serem sobrelevados como, por exemplo, as ruínas de Montouto, a escalada da aldeia de Couto até a cidade de A Lastra, o alto da Fontaneira, além do acidentado aporte à Cadavo Baleira. No geral, uma etapa cansativa, mas toda ela, salvo raras exceções, feita em terra e por locais extremamente arborizados.


9º dia – CADAVO BALEIRA à LUGO