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04ª dia – CERCEDILLA a SEGÓVIA – 35 quilômetros


4ª dia – CERCEDILLA a SEGÓVIA – 35 quilômetros

O CAMINHO em vez de ser muito difícil e exigente para todos os que se atrevem a entrar em seu ventre, é um poço de sabedoria, onde a cada passo, todos nós podemos descobrir o nosso lugar no mundo.



Na tarde anterior eu observara atentamente a Serra de Guadarrama, com seus picos nevados, que transporia naquela data, e as pessoas que consultei me tranquilizaram dizendo que dificilmente eu encontraria neve na passagem pelo “Puerto de la Fuenfría”, situado a quase 1.800 m de altitude.

Assim, levantei muito cedo, pois sabia das imensas dificuldades a serem superadas nessa etapa; depois, confiante e muito bem agasalhado, deixei o local de pernoite às 6 h, seguindo por uma rodovial vicinal de escasso tráfego.

Fazia muito frio, temperatura na casa dos 4 °C, e o dia demoraria para raiar, o que me forçou a seguir com a lanterna acesa.

Vencidos 5 quilômetros em bom ritmo, eu cheguei a uma grande barreira que impede a passagem de veículos automotores; a partir desse local, só seguem pedestres e ciclistas.

Quinhentos metros acima teve início a famosa “calzada romana” que, dizem, foi construída no século I, nos tempos do Imperador Vespasiano, para unir Titulcia, povoado situado ao sul de Madri, próximo de Aranjuez, com Segóvia e Valladolid.

Infelizmente, as pedras que formam seu pavimento estão desprendidas em praticamente todo o trajeto, e dificultaram, sobremaneira, meu deslocamento.

Mais oitocentos metros caminhados e o roteiro se empinou, consideravelmente, seguindo agora ao lado do arroio La Fuenfría.

Duzentos metros depois, pela ponte medieval de Enmedio, eu ultrapassei esse curso d'água e logo passei a encontrar grandes blocos de neve, deixando a senda por onde eu caminhava, tremendamente escorregadia.

Logo fiz uma curva fechada para a esquerda e enfrentei a reta final: um exigente aclive, que me levou diretamente ao Puerto de la Fuenfría, situado a 1.796 m de altura, depois de haver percorrido 8 quilômetros.

Esse local se encontra flanqueado pelas montanhas “Montón de Trigo” (2.156 m) e a “Sierra de los Siete Picos” (2.138 m).

Essa passagem foi utilizada durante séculos por legiões romanas, comerciantes, pastores conduzindo rebanhos de gado e, até 60 anos atrás, pelos milhares de trabalhadores galegos, que vinham, anualmente, trabalhar na colheita do trigo em Castilla.

Eu me encontrava no ponto mais alto de todos os caminhos jacobeus existentes na Península Ibérica, numa altitude bem superior, por exemplo, ao Puerto de Somport, Ibañeta, a Cruz de Ferro e o Cebreiro.

Uma placa ali colocada recordava José Antônio Cimadevila, o grande responsável pela recuperação do Caminho de Madri, no final do século XX.

Porém, para minha grande surpresa, para não dizer, desespero, encontrei o caminho, a partir daquele ponto, escondido debaixo de uma grossa camada de neve, que apresentava, em alguns locais, o início do degelo.

A temperatura no local era enregelante, assim, urgia eu prosseguir em frente porque, até onde eu sabia, somente eu estava no caminho naquele dia, qual seja, se algo me ocorresse, eu estaria em maus lençóis, porque meu telefone celular ficara mudo.

Dessa forma, fiz algumas fotos, depois segui adiante, tomando o máximo cuidado ao colocar os pés sobre as lisas placas de gelo.

Foi um descenso épico, pleno de escorregões e sustos, mas, sob as bençãos divinas, consegui superar os obstáculos que iam aparecendo e, 3 quilômetros abaixo, fiz uma pausa para descanso e hidratação junto à “Fuente de la Reina”, também conhecida como “Fuente Matagallegos, famosa pelo frescor de suas águas.

Depois, prossegui em frente, sempre em forte descenso, em meio a intermináveis bosques de pinheiros.

Quase no plano, finalmente, emergi da mata e, muito ao longe, já podia avistar Segóvia, minha meta para aquele dia.

A parte final do trajeto mesclou trilhas irregulares com grandes retões, que me levaram depois de muito caminhar, a adentrar em zona urbana.

Segui as flechas amarelas pelo interior da urbe e, algum tempo depois, cheguei ao Aqueduto de Segóvia. 

Algumas fotos do percurso desse dia: 


Início da "Calzada Romana".


Caminhando sobre o que restou da "calzada" nesse trecho.


Caminho pedregoso, um tormento para os pés.


Ponte medieval de "Eumédio".


Caminhando sobre neve...


Trecho final do ascenso, bastante inclinado.


No topo do morro, com muita neve no entorno.


O caminho está sob a neve.. sufoco!!



Caminho nevado, liso e muito frio no local.


Caminho gelado!!


Mais abaixo, a neve já havia derretido.


"Fuente de La Reina", onde fiz uma pausa para hidratação.


Depois de vencer imenso bosque de pinheiros, retorno a céu aberto.


Trecho final, caminho plano e sem sombras.


Os retões prosseguem; por sorte não havia sol.


Chegada ao Aqueduto, localizado no coração da cidade.

Segóvia está situada na confluência dos rios Eresma e Clamores, ao pé da serra de Guadarrama.

Seu centro histórico e o aqueduto foram declarados Patrimônio da Humanidade, pela Unesco, em 1985.

O aqueduto de Segóvia, com 818 m de extensão, é considerado a obra de engenharia civil romana mais importante da Espanha e é um dos monumentos mais significativos e melhor conservados que os romanos deixaram na península ibérica.


A Catedral de Segóvia.

O povoamento humano em torno da região onde hoje se situa esta cidade, remonta a quase 60 mil anos, e foi realizado pelos neandertais, os primeiros a ocupar esse território.

Os romanos estiveram no local a partir do ano 79a a. C, porém, essa zona foi abandonada quando ocorreu a invasão islâmica.


O altar-mór da Catedral de Segóvia.

Após a reconquista de León por Alfonso VI, em 1088, teve início sua repovoação, por cristãos, provenientes do norte da península ibérica.

Em princípios do século XVIII tentou-se revitalizar sua indústria têxtil, com escasso êxito.


Novamente, o Aqueduto de Segóvia. construção mágica.

Em 1764 foi inaugurado o Real Colégio de Artilharia, a primeira Academia Militar da Espanha, que está sediada na cidade até hoje.

Em 1808, ela foi saqueada pelas tropas francesas, comandadas por Napoleão.

Durante o Século XIX e a primeira metade do século XX, a cidade viveu uma grande recuperação demográfica, fruto de uma relativa revitalização econômica.

Dentre seus monumentos mais importantes se sobressai o Alcázar, construído no século XII, como fortificação, porém, posteriormente, serviu como palácio real, uma prisão estatal, um centro de artilharia e, finalmente, como uma academia militar. 


A "Plaza Mayor".

Atualmente ele é um museu e possui uma exibição de arquivos militares.

O aqueduto de Segóvia foi construído em princípios do século II e conduzia água do manancial de la Fuenfria, situando numa serra distante 17 quilômetros da cidade.

Tem 818 m de extensão e é composto de 167 arcos, suportados por pilares, sendo que o maior deles mede 28 m de altura.

População atual: 53 mil habitantes.


Festejando a jornada do dia....

Em Segóvia fiquei hospedado no Hostal Don Jaime, de excelente qualidade e muito bem localizado. Recomendo!

Para almoçar, utilizei os serviços de um dos inúmeros restaurantes situados próximos ao Aqueduto de Segóvia, onde despendi apenas 9 Euros, por um apetitoso “menú del dia”.


IMPRESSÃO PESSOAL – A jornada foi bela, mas duríssima, pois nela precisei atravessar a serra de Guadarrama, pelo “Puerto de Fuenfría”, onde existe uma calçada romana. Com seus 1.796 m de altitude, ele não é somente o ponto mais alto do Caminho de Madri, mas também de todos os Caminhos de Santiago do interior da Península. Depois, uma extensa declividade me conduziu, finalmente, até a bela cidade de Segóvia, um desfrute para os sentidos.

No global, uma etapa inesquecível pela beleza e dificuldades que encontrei para suplantá-la, um verdadeiro desafio físico e mental, não só pela altimetria, mas, também, pela longa extensão do trajeto. Nela, eu superei um desnível positivo de 610 m para, em seguida, descender 800 m até Segóvia. Diria, com certeza, que foi uma das mais duras e arriscadas jornadas que já enfrentei em todos os caminhos que percorri.