1º Jornada - IRÚN a SAN SEBASTIÁN

1ª Jornada - Irún a San Sebastián - 28 quilômetros: “Uma etapa difícil!”


No marco "zero" - partindo em direção à Santiago! 

           Levantei-me às 5 h e, vagarosamente, comecei a me preparar para a aventura.

Enquanto isso, minha mente rezava os salmos matinais.

           A jornada seria relativamente longa e, como de praxe, em todo início de um grande Caminho, ainda não estamos preparados fisicamente, de forma que fiz alongamentos, massagens na sola dos pés e, por prevenção, calcei joelheiras.

           Havia levado do Brasil um pequeno cabo extensor, com uma resistência na ponta, cuja função era aquecer rapidamente a água.

 De forma que ingeri algumas frutas, um tablete de chocolate e, por último, um copo bem quente de “capuccino”, posto que eu havia levado do Brasil, alguns envelopes desse poderoso energético.

           Assim, às 6 h 20 min, eu deixei o local de pernoite, atravessei a praça fronteiriça e me dirigi à “Puente Santiago”, onde está localizado o marco zero do Caminho do Norte.

           Naquele local, fiz minhas orações e pedi proteção ao Santo Apóstolo.

           Em seguida, me posicionei para uma foto feita gentilmente por um senhor que por ali passava.

           Na sequência, dei o primeiro passo e, determinado e sob intenso frio, por ruas profusamente iluminadas, segui em direção ao centro da cidade de Irún.

           Após vencer uma grande rotatória, acessei a “calle Passeo Colón” e prossegui em frente.

 Mais adiante, passei defronte a estação ferroviária e logo depois fleti à direita e segui por uma larga avenida em direção à cidade de Fuenterrabia-Hondarribia e à baía de Txingudi.

           Quinhentos metros à frente, visualizei no chão a primeira seta amarela, intimando-me a deixar a via principal e seguir à esquerda, bem no momento que, à minha direita, na direção do mar, lentamente o dia clareava.

            Mais adiante, ultrapassei, com muito cuidado, a rodovia N-638, e prossegui em direção a um braço entancado de rio.

  Na sequência, sempre por asfalto, principiei a subir, deixando à minha esquerda a ermida de Sangiagotxo, enquanto sentia repercutir em minha alma as primeiras lembranças do Santo Apóstolo (a ponte de onde parti, a igrejinha que acabara de ultrapassar, etc..)

            Mais acima a senda prosseguiu em terra e no alto do morro, às 8 h, a exemplo dos viajeiros medievais, cheguei ao Santuário de Guadalupe, uma construção datada de 1.585, centro de culto muito ligado à tradição marinheira.

  Conta uma lenda que dois jovens viram uma luz misteriosa sobre um arbusto e, ao acercarem-se do local, encontraram uma imagem da Virgem Maria.



 A primeira igreja foi ali erigida no final do século XV, porém sofreu saques e incêndios, culminando pela construção daquela que ali eu contemplava.

           O templo se encontrava fechado, e apenas alguns funcionários de uma construtora movimentavam terra, utilizando maquinaria pesada, com vista ao asfaltamento de uma via de acesso àquele local.

           Assim, fiz breve pausa para hidratação, depois dei rápida volta ao redor do templo pelo lado externo e logo prossegui adiante, em leve e ininterrupto ascenso, já em direção ao monte Jaizkibel, aquele que detém a maior altitude em toda a costa Guiputxi.


 Porém, depois de uns 200 m, havia no caminho uma bifurcação e, obedecendo às flechas amarelas, segui à esquerda e passei a caminhar pelo costado do morro, a meia ladeira, bordejando, longitudinalmente, a montanha.

           O sol havia nascido a pouco e brilhava com intensidade, porém o clima continuava frio e úmido, propício para a caminhada.

 Durante um par de horas caminhei por uma estrada de terra batida, num local fresco e agradável, admirando à minha esquerda e abaixo, uma extensa e magnífica paisagem.

 Nesse percurso, passei entre magníficos bosques de eucaliptos, pinheiros, abetos, castanheiras, sentindo o frescor do verde da mata, sendo que em alguns locais mais fechados, ramas de carvalhos tentavam invadir o caminho, como que a abraçar os caminhantes que transitam por essa senda.

            Durante os dez quilômetros que percorri não avistei nenhum peregrino, em compensação, passei defronte inúmeras chácaras, todas dotadas de belas vivendas.



Porém, vi apenas alguns animais domésticos circulando pelas propriedades, já que a maior parte delas se encontrava vazia.

As únicas pessoas que encontrei nesse trecho foi um rapaz jovem, que caminhava apressadamente com seu cão, possivelmente fazendo seu “cooper” matinal e que devia residir nas imediações, e outro, um senhor bastante idoso, que vinha em sentido contrário, montado num belo cavalo zaino.

           No final de um grande aclive, ultrapassei novamente a rodovia N-638 e principiei a descer. Primeiramente, por uma estradinha asfaltada.

Depois, em franco e perigoso aclive por terra, que culminou em grandes escadarias, de onde eu divisei um belo braço de mar, que adentrando em terra, serve de marco divisório entre dois pequenos povoados, por onde eu passaria a seguir.

           Mais abaixo, à beira-mar, adentrei em “Pasajes de San Juan” ou “Pasal Donibane”, uma das mais bonitas e bem conservadas vilas marinheiras da Província de Guipúzcoa, que conserva, entre suas ruas empedradas e úmidas, todo o sabor de uma tradição de séculos ligada à pesca e ao mar.



         

            Ali pude também visualizar e admirar alguns palácios renascentistas, construções barrocas, etc.

            Num embarcadouro muito bem conservado, tomei uma pequena lancha, um “transbordador” na língua local, que faz o transporte de passageiros de um lado para o outro daquele canal, que nesse local mede, aproximadamente, uns duzentos metros.

            Dez minutos depois, adentrava em “Pasajens de San Pedro”, já do outro lado da “ria” e, após subir umas escadarias, avistei, do lado direito, um magnífico altar votivo, com um grande cruzeiro construído em agradecimento a vitória dos espanhóis na batalha de Roncesvalles contra as tropas de Carlo Magno.

            Observando as flechas amarelas, segui à direita, beirando o mar, até o final da pequena vila.

 Nesse local, próximo a um grande rochedo, iniciou-se o grande desafio dessa etapa, um autêntico “rompepiernas” em espanhol.

            Principiei a subir umas escadarias que não tinham fim.

  Seus degraus estão cimentados, porém variam em altura, causando grande desconforto para quem, como eu, ainda não estava forte o suficiente para vencer tamanha rampa.

            Fui galgando lentamente, respiração opressa, dores nos joelhos, cãibra nas panturrilhas.

  Enfim, foi um tormento, e acredito que superei mais de 200 patamares empedrados, até desaguar num breve platô.

            Para compensar, a visão que dali pude desfrutar era realmente de encher os olhos, pois a beleza do mar cantábrico ao fundo, com sua imensidão azul, encanta qualquer um.


            Na sequência, continuei em ascensão até passar defronte ao cemitério da pequena vila.

            Mais acima, girei à direita e continuei subindo, agora por uma pista cimentada, ainda em forte ascenso.

            Finalmente, no final da “carretera”, desemboquei na frente do “Farol de la Plata”, cuja visita não estava em meu programa para aquele dia, embora o local merecesse uma boa pausa para descanso e fotos.

  Ali, tive a impressão que todas as gaivotas “patiamarillas” e os albatrozes da costa guipuzcoana estavam reunidos, a me aguardar, tamanha era a concentração dessas aves voando sobre minha cabeça.

            Prosseguindo, numa rotatória, segui as flechas, à esquerda, e acessei uma senda pedregosa, que avançou pela cornija cantábrica por uns dois quilômetros, em meio a muita vegetação, próximo do mar a uns duzentos metros.

            Na realidade, essa trilha conduziu-me até o “Collado de Mendiola” e no início do percurso estava suave e fresco, ao menos até a primeira fonte de água que encontrei à minha direita, logo depois de percorrer uns 300 metros, onde encontrei um imenso caudal líquido.

            Contudo, no global, foi uma travessia duríssima, por uma trilha alucinante, sobre a falda de um monte e encima de um elevado pleno de vegetação, tendo o oceano azul, belíssimo, todo o tempo a minha direita.

            Quase no fim do caminho, o “tramo” se faz mais complicado, já que precisei vencer um caminho feito em meio a grandes e desgastadas pedras nas quais avancei com bastante cuidado, afim de evitar uma queda ou uma torção, pois os derradeiros passos foram em íngreme ascensão.

            No final de um pequeno aclive, acessei uma rodovia vicinal em cimento e por ela segui, em meio a muitas árvores, embora já me sentisse bastante desgastado e ainda me restasse um bom trecho até o final do percurso.



            Para complicar, o sol estava forte, minha água se acabara e eu me encontrava desidratado e sedento.

            Avistei uma casa, e parei à direita, para pedir o precioso líquido e, por coincidência, ao tocar a campainha, descobri que ali estava instalada uma incrementada padaria artesanal.

 Um funcionário deixou suas tarefas para me atender.

 Então, indaguei-o se podia encher minha garrafa na torneira existente no gramado em frente.


  Porém, ele amavelmente, pegou o vasilhame, entrou no interior da habitação e o devolveu com água mineral gelada.

            Realmente, em face da sede que sentia, antevi no gesto do rapaz a mão de Santiago, pois era o primeiro “anjo” que, graciosamente, surgiu “do nada”, e se colocava em meu caminho.

            Depois de saciar minha secura, prossegui adiante e logo adentrei em um grande estacionamento de veículos situado no topo do monte Ulia.

  Após ultrapassar essa extensa área, eu passei diante do albergue juvenil Úlia Mendi, onde visualizei vários jovens em confraternização e inúmeras crianças se divertindo num enorme parque de brinquedos ali instalado.

            Já descendo pelo lado oposto, num local de paisagem privilegiada, pude ver abaixo, à beira mar, minha meta para aquele dia.

            Prossegui em frente, agora já em franco e desabalado descenso, e logo adentrava em zona urbana, por uma ampla calçada de pedras, tendo à minha direita a Praia de La Zurriola.

            Na sequência, debaixo de um sol ardente, segui essa avenida até o “casco viejo” da cidade, onde me hospedei na pensão La Perla.

            San Sebastián-Donostia fica na província de Guipuzcoa, País Basco, a aproximadamente 800 quilômetros de Santiago de Compostela.

            Donostia surge etimologicamente da evolução da palavra Donebastian (de Done=Santo, e Sebastián), isto no idioma “euresko”.

            As primeiras notícias escritas de Donostia-San Sebastián data de 1.014 e fazem referência a um monastério, situado no bairro que ainda hoje se denomina San Sebastián El Antiguo.

            Esse convento originou o núcleo de desenvolvimento social e econômico, servindo de pólo de atração de comerciantes e armadores, criando-se o porto para comercialização de lãs navarras e aragonesas.

  Para sua proteção, em 1.180 foram construídas muralhas, que serviram para atrair ainda mais moradores ao burgo.


            Ao longo da sua história, a cidade foi destruída várias vezes por incêndios, sendo reconstruída em pedra no século XV, período em que coincidiu com a mudança do eixo comercial para Bilbao em razão da ascensão de San Sebastián como força militar.

  Ali se estabeleceram as esquadras que enfrentariam as forças francesas, holandesas e britânicas até o século XIX e, neste período, ela foi palco de inúmeras batalhas, inclusive napoleônicas.

            Desde o final do século XIX, passando pelo período do franquismo até nossos dias, San Sebastian desenvolveu-se em seu potencial turístico graças as suas notáveis belezas naturais.

            Hoje com aproximadamente 200.000 habitantes, desempenha importante papel relacionado ao comércio, cultura e turismo, tendo também expressão industrial.

            Mais tarde, e após demorado e gratificante banho, saí para almoçar e utilizei os serviços de um dos vários restaurantes que se encontram instalados em seu centro comercial.

            Depois, lavei minhas roupas e curti uma necessária e restauradora soneca.

            Mais à tarde, saí passear pela cidade e pude, então, visitar a Basílica de Santa Maria de Coro, cuja construção data de 1.750, sendo considerada a mais antiga do local, porque foi edificada sobre uma igreja que ali existia

  Aproveitei, ainda, para “sellar” minha credencial de peregrino na Oficina de Turismo, bem como conhecer o local por onde eu prosseguiria no dia subsequente.

  E, no meu retorno, próximo ao local de pernoite, ainda tive tempo de fazer uma breve visita ao Museu San Telmo e ao “Aquarium”, ambos edificados ao pé do monte Urgull.

  À noite, optei por um lanche rápido no quarto e logo me recolhi, pois, a jornada inicial, fora, sem dúvida, um percurso bastante acidentado e cansativo.



AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma jornada de razoável envergadura, mormente para o primeiro dia de viagem, quando os membros inferiores do peregrino ainda não estão aptos ao contínuo “sobe e desce” inerente a essa etapa. Considerar, ainda, o terrível aclive a ser vencido, através de escadas, após a saída de “Pasagens de San Pedro”. No geral, um percurso bastante arborizado, que conta com inesquecíveis paisagens e preciosas vistas do Mar Cantábrico.


2ª Jornada - SAN SEBASTIÁN a ZARAUTZ