27ª Jornada - VILALBA a BAAMONTE

27ª Jornada – Vilalba a Baamonte - 21 quilômetros: “Uma jornada de transição!” 


               Novamente, teria pela frente uma etapa de pequena extensão, sem grandes declividades, porém, como de praxe, o asfalto seria uma constante, um tormento para os pés peregrinos.

   No entanto, ela serviria como uma jornada de preparação, posto que no dia seguinte, eu enfrentaria o maior percurso de toda a minha aventura.

            Era um sábado, dia em que as cidades pequenas, como as que eu encontraria até meu destino final, salvo exceções, o comércio cerra suas portas logo após o almoço, de forma que resolvi sair o mais cedo possível, apesar do frio reinante.

            Assim, levantei às 5 h 40 min, calmamente me preparei para enfrentar as adversidades que, porventura, viesse a encontrar pela frente e, sob um vento gélido e intenso, deixei o local de pernoite quando um relógio instalado na praça fronteiriça marcava 5 h 45 min.

            Assim, sob a iluminação urbana, contornei a torre de “los Andradas”, passei ao lado da igreja de Santa Maria, depois acessei uma rua em descenso que logo se transformou na rodovia LV-118, a mesma que conduz os transeuntes até a cidade de Viveiros.

            Porém, logo adiante, as flechas me remeteram para uma estrada de terra à esquerda, em meio a muito verde e em franco descenso, pela qual segui, sempre em meio a muitas chácaras onde, curiosamente, ouvi por várias vezes, o galo cantar, algo que para mim era inédito no Caminho.




            Com o dia já bastante claro, ultrapassei o rio Magdalena, girei à esquerda, e logo adiante transpus o rio Trimaz, pela “puente Rodriguez”, uma construção da época medieval, uma evidência ainda viva de parte do antigo “Camiño Real”, que por ela passava.

            O roteiro foi entremeando estradas rurais de terra batida com pequenas rodovias vicinais, um trajeto bastante agradável, pois o clima persistia úmido e, dessa forma ultrapassei três pequenas aldeias, até que, após 6 quilômetros percorridos, me reencontrei com a N-634, já na cidade de San Joan de Alba.

            O pequeno povoado se distribui em ambos os lados da “carretera”, possui uma interessante igreja em estilo rural religioso lucense, de forma bastante singela, e ao seu lado observei a existência de um cemitério neogótico, igual aos que havia avistado no dia anterior.

            Caminhei uns cem metros pela rodovia e logo acessei outra estrada à direita, que me remeteu novamente a estradas rurais, plenas de muito verde, com muitas flores e pássaros cantando, sendo que nesse trecho atravessei dois pequenos povoados, Pedrouzos e Goiriz.

            Depois de 10 quilômetros percorridos, passei por Insúa, outra minúscula povoação situada à beira da rodovia N-634 e ali, ao avistar um bar aberto, fiz uma pausa para ingerir um espesso café, bem como comprar água e uma barra de chocolate.

            Na sequência, por um túnel, atravessei a Autovia Nacional, fiz uma grande curva e novamente atravessei para o outro lado, agora por uma ponte metálica, seguindo, depois, por uma rodovia vicinal que, logo à frente, me levou a transpor o rio Labrada, através da “puente Saa”, outra belíssima construção da época medieval.

            O roteiro, muito bem sinalizado, me levou a caminhar em meio a grandes pastagens, onde visualizei manadas de gado pastando e, mais adiante, ultrapassei as localidades de Peñas e Pigara, minúsculas vilas, constituídas de casas edificadas a grande distância uma das outras.



            Os “tramos” persistiram alternando em terra e asfalto, sempre envolto numa paisagem campestre.

   Nessa toada, pela derradeira vez, ultrapassei a Autovia Nacional através de outro extenso túnel, seguindo em direção à Ferreira, um pequeno “Pueblo”, onde não vi nada que merecesse algum registro.

            Prossegui adiante mais uns 2 quilômetros, até me defrontar novamente com minha velha conhecida, a N-634, seguindo, então, pelo acostamento, nesse trecho específico, com inexpressivo tráfego de veículos.

            Mais adiante passei defronte às imensas instalações do Posto de Gasolina da marca Campsa, porém, todo o complexo se encontrava fechado, e acredito que, pelo abandono do local e a altura do mato que avistei ao redor, já não funcionava há bastante tempo.



            Depois de mais dois quilômetros sobre piso duro, finalmente, as flechas me remeteram à esquerda, para uma senda matosa e por ela venci os derradeiros dois quilômetros até sair em zona urbana, já dentro de Baamonde, minha meta para aquele dia.

            Na sequência, caminhei por larga avenida até o centro da modesta urbe e logo passei defronte ao albergue de peregrinos, de onde, curiosamente, avistei um relógio digital instalado no frontispício de uma farmácia marcando a temperatura de 9 ºC e pasmem, porque era ainda 11 h da manhã.

            No bar Guerrero, localizado ao lado do refúgio, eu obtive informações, tomei um copo de vinho e, em seguida, ainda caminhei por 1.500 metros até aportar ao Hostal La Ruta Esmeralda, local onde fiquei hospedado.

            Baamonde é um distrito do município de Begonte, que possui 357 habitantes, e conserva todo o sabor e o requinte das típicas vilas galegas.

            Ela está distante, 103 quilômetros de Compostela e se localiza em cruzamento estratégico das rodovias N-634 e N-VI.

            O destaque ali é a igreja de Santiago, uma bela construção em estilo romântico, datada dos séculos XII e XIII, possui uma só nave e uma abside quadrangular-ogival, sendo que junto a ela foi edificado no século XVIII um cruzeiro triplo, formando um calvário.

            Depois de um saboroso almoço e uma necessária soneca, fui até um supermercado próximo adquirir mantimentos para a etapa sequente.

   No entanto, no retorno, fui surpreendido por um forte temporal, que me deixou totalmente molhado, pois estava caminhando à beira da rodovia e não encontrei local adequado para me esconder.

            Mais tarde, roupa trocada, eu fui até o albergue local, para carimbar minha credencial, e me surpreendi agradavelmente, pelo conforto que o local oferece, pois ali são disponibilizadas 92 camas para pernoite, bem como sua estrutura geral é de um hotel 3 estrelas, um luxo para o caminhante fatigado.



            No refúgio encontrei um peregrino francês de nome Maurício, com quem havia feito amizade em Gontán, quando então ele comentou a respeito de sua preocupação com a etapa que enfrentaríamos no dia seguinte.

   Posto que a considerava extremamente larga, já que estava acompanhado da esposa e ela não dispunha de resistência para uma jornada tão extensa.

            Tudo isto, porque tinha a confirmação de que o albergue de Miraz se encontrava em obras, sem previsão de reabertura, o que obrigaria a todos a alcançarem a cidade de Sobrado dos Monxes, pois não havia outra opção para pernoite durante o longo trajeto.

            Traçamos vários planos e no fim fechamos um acordo: sua esposa e mais outro casal de franceses, já um tanto idosos, iriam de táxi, levariam nossas mochilas e nos aguardariam em Miraz, onde nos reuniríamos para dar prosseguimento à etapa.

            Isto posto, nos deslocamos até a praça central do povoado e conversamos com a simpática taxista Laura, por sinal, de nacionalidade portuguesa, que nos afiançou que faria a “corrida” sem maiores problemas, no horário marcado e pelo preço de 15 Euros.

            Tudo resolvido, eu retornei ao hostal, ingeri o lanche noturno e logo me recolhi, pois embora a chuva tivesse cessado e sem previsão de retornar no dia subsequente, fazia um frio de doer.

            Porém, como forma de minorizar meu esforço durante a jornada imediata, fiz uma completa revisão no interior de minha mochila, jogando fora tudo o que eu não utilizaria mais, bem como resolvi que levaria como lanche, apenas chocolate e frutas desidratadas.

            Assim, poderia caminhar mais leve e, certamente, teria condições de vencer mais esse desafio que se me apresentava, embora naquela noite a inquietude fosse minha constante companheira.

            Finalmente, faxina realizada e ainda um tanto preocupado com o que me aguardava ao alvorecer, eu adormeci.

 

Albergue de peregrinos em Baamonte

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada curta e sem nenhum acidente geográfico importante, sempre em meio a muito verde, e grandes campos dedicados à criação do gado. Porém, mais da metade do percurso foi cumprido em asfalto, o que empana, ainda que de leve, a facilidade e a beleza que é oferecida ao caminhante nessa etapa.


 28ª Jornada - BAAMONTE a SOBRADO DOS MONXES