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8ª etapa – PERTUSA a HUESCA - 35 quilômetros


8ª etapa – PERTUSA a HUESCA - 35 quilômetros

Ciclo da vida: tentar, cair, levantar, recomeçar. Nunca desistir!




Seria outra etapa longa e cansativa, isto eu sabia pelas informações colhidas no guia que eu portava.

Para piorar, o clima na Espanha batia recordes negativos e, apesar da primavera estar bem adiantada, parecida que o inverno havia retornado.

Nas montanhas com mais de 1.000 metros de altitude havia nevado abundantemente, mormente, nos Pireneus.

E, por ironia do destino, eu estava caminhando na direção dessa cordilheira que divide a França da Península Ibérica.

O Tony manifestara no dia anterior, o desejo de percorrer essa etapa ao meu lado, porém eu me levantei às 4 horas, fiz café, alongamentos, liguei a TV, mas ele não deu sinal de vida.

Então, pouco antes de partir, eu o acordei, me despedi e ficamos de manter contato via telefone quando ele aportasse à Huesca, o que acabou não ocorrendo.


Partindo para mais um dia de aventura no Caminho... São 6 h da manhã!

Às 6 horas, quando deixei o local de pernoite, meu aparelho celular informava que a temperatura exterior estava em 2°C, algo preocupante, embora eu estive muito bem agasalhado.

Como forma de me aquecer, segui apressado e logo descendia, por um grande lance de escadas, em direção à rodovia.

Sobre ela, atravessei o rio Alcanadre por uma ponte, prossegui sob piso duro mas, logo à frente, as flechas me encaminharam para a direita, em direção a um empinado morro.

Segui com muito cuidado, pois havia pedras soltas que poderiam me desequilibrar.

Com a lanterna acesa nas mãos, fui ascendendo lentamente, porém, quando atingi o topo da elevação eu já transpirava para valer, o que acabou por me aquecer.

Lá em cima voltei à rodovia e por ela segui mais 4 quilômetros.

Por sorte, não encontrei tráfego de espécie alguma em toda a sua extensão.

Enquanto o dia clareava, pude me integrar à natureza circundante e adentrar em profundo estado de introspecção.

Uma hora mais tarde, observando as flechas amarelas, tomei um atalho à direita e segui por um quilômetro dentro de um bosque.

Quando emergi do outro lado, teve início uma forte garoa.

Por sorte, minha mochila já estava protegida por uma capa e minha jaqueta era impermeável, assim, segui em frente.


Prédio que abriga a Prefeitura de Antillón. Chovia quando ali passei.

Nesse compasso, venci empinada ladeira em terra e logo cheguei a Antillón, pequena povoação, que conta com 161 habitantes e também foi edificada no topo de uma elevação.

Trata-se de um bonito povoado, com ares medievais, que deve sua origem a um assentamento fortificado muçulmano.

Seu centro antigo, de traçado irregular, é formado por ruas estreitas e empinadas, localizadas dentro de uma antiga muralha.

Delas, no entanto, só restam algumas torres e a porta principal.

No “casco viejo” também se encontra a igreja paroquial, uma edificação do século XVI.


Visão, desde o topo do morro. Embaçada, por conta da chuva.

Segundo meu guia, ali há um bar e uma “tienda”, mas face ao horário extemporâneo, tudo estava fechado e silencioso.

O caminho não passa pelo interior da vila, de forma que fiz algumas fotos, à distância, depois descendi à esquerda.

Prossegui em asfalto por uns 300 metros, depois, adentrei, à esquerda, numa larga estrada de terra.


Trecho sequente sem chuva. Caminhando entre pessegueiros.

Na primeira parte do trajeto, passei em meio a imensas culturas de pessegueiros e oliveiras.

Em determinado local, um “zorro” cruzou a estrada e, assustado pela minha presença, correu para um terreno desmatado por uns 50 m, depois parou e ficou a me encarar.

Passamos alguns momentos nos admirando mutuamente, porém quando fiz menção de sacar minha máquina fotográfica, ele correu em direção a uma vala e o perdi de vista.

Por sinal, no Brasil esses animais são conhecidos e nominados de raposa.


Aqui retornaram os trigais. Tudo ermo e silencioso.

Mais tarde, passei a caminhar entre extensos trigais, a cultura mais comum em Aragón.

A garoa cessara, mas o céu prosseguia plúmbeo, da cor de ardósia.


A sinalização prossegue impecável!

Nesse tramo também não avistei vivalma, eu estava integralmente sozinho no amplo ambiente que dali se descortinava.

O caminho, todo plano e bem sedimentado, me proporcionou momentos de grande alegria e introspecção.


Trecho belíssimo, plano e arejado.

Sem maiores dificuldades, por um roteiro muito bem sinalizado, fui vencendo as distâncias sem grande esforço.

Eu me sentia muito bem fisicamente e isto fazia a diferença.


Do lado esquerdo, plantação de ervilhas, a perder de vista. Do lado direito, trigais.

Em determinado local, passei a caminhar ao lado de uma plantação de ervilhas, de extensão descomunal, a perder de vista.


As amapolas sempre presentes, para alegrar meu dia.

As distâncias foram sendo vencidas quase sem eu perceber, tamanha a felicidade de caminhar pelo campo, podendo aspirar o ar puro que dele se desprendia.


Visão infinita do horizonte...

Mais 8 quilômetros percorridos, passei ao lado de 9 grandes barracões, todos destinados à criação de porcos.

Um quilômetro à frente, adentrei um Pueyo de Fañanás, pequena aldeia agrícola, de 87 habitantes.


Adentrando em 
Pueyo de Fañanás.

Segundo li em meu guia, esta povoação é muito amável com os peregrinos, e pertence ao município de Alcalá del Obispo.

Nela há um bar social, de horários imprevisíveis, bem como um bonito e bem equipado albergue de peregrinos.

Há também uma “tienda”, mas não vi ninguém se movimentando pelo local, na verdade, como de praxe, encontrei tudo deserto.


A igreja matriz de 
Pueyo de Fañanás, ao fundo.

Numa pequena praça, pude fotografar uma estilizada fonte feita de pedras, localizada diante da igreja matriz, dedicada a São Pedro de Verón.

E nada mais vi de interessante, digno de registro.

Cinquenta metros adiante, deixei a silenciosa aldeia e prossegui caminhando em asfalto, por uma rodovia vicinal.

Mais dois quilômetros percorridos, passei pelo interior da vila de Fañanás, que também pertence ao município de Alcalá del Obispo.

Este povoado é um pouco maior que o anterior, posto que nele vivem 128 pessoas.


A igreja matriz de F
añanás.

Sua origem provém de uma fortificação (Castelo de Fañanás) do século XI, do qual restam alguns vestígios junto à igreja matriz de São João Batista, de grandes dimensões para um povoado tão diminuto.

Sabe-se, no entanto, que foi aproveitada uma parte da estrutura do castelo para a sua construção.

Transitei calmamente pela vila, cumprimentei duas senhoras que se dirigiam a uma padaria, depois fiz uma pausa numa pequena pracinha, onde havia uma fonte.

Até ali eu já havia caminhado 18 quilômetros e não sentia fadiga.

Aproveitei a ocasião para me hidratar e ingerir uma banana.

Depois, segui em frente.


De volta ao campo. Paisagem belíssima!

E logo estava de volta aos campos, transitando junto à natureza.

O clima prosseguia frio e o céu carrancudo, prometia mais chuva para o período vespertino.

Foi outro trecho que venci com enorme prazer pela solidão e silêncio vivenciado no espetacular entorno que me cingia.


A paisagem prossegue estupenda.

Mais abaixo, as flechas me encaminharam para uma plana rodovia vicinal asfaltada e depois de mais dois quilômetros passei pela vila de Ola, onde residem 50 pessoas.

Outro povoado minúsculo, onde também não avistei pessoas ou animais.

Apenas o latido de um cão, ao longe, quebrava o silêncio do ambiente.


A pequena vila de Ola.

Passei próximo de um velho cruzeiro, reamarrei as botas, coloquei os fones no ouvido, liguei meu radinho de pilhas e segui em frente.

O trecho sequente também se mostrou belíssimo, pleno de intenso verde.


Silêncio e ar puro. Tudo o que o peregrino necessita.

Retões intermináveis, localizados entre trigais, deram o tom nesse intermeio.

Em determinado local, fui ultrapassado por um grupo de 12 ciclistas e todos me cumprimentaram respeitosamente.


Clima nublado, percurso arejado.

O céu mantinha-se nublado e não havia sol.


Como de praxe, caminho plano e sem sombras.

Uma brisa frígida, soprando na minha retaguarda, me estimulava a caminhar.


Clima fresco, percurso sem dificuldades.

Quase sem perceber, fui ascendendo por uma leve colina, nominada Paridera de Montori, onde avistei, do lado esquerdo, uma torre de vigilância contra incêndios.

No topo da elevação, eu detinha preciosas visões de todo o horizonte podendo, inclusive, avistar ao longe, a cidade de Huesca, minha meta para aquele dia.

Então, teve início perigosíssimo descenso, por trilhas localizadas nas vertentes da montanha.

Elas continham pedras soltas em seu leito, e o mais leve deslize podia redundar numa queda espetacular.


Descida da serra: tensa e perigosa.

Eu descendi com extremo cuidado e atenção, porque qualquer tipo de acidente naquele local poderia colocar em risco a minha peregrinação.

Desde a minha partida do Monastério de Montserrat, esse era o obstáculo mais inseguro que eu enfrentava.

Depois de tensa e cuidadosa descensão, acabei por sair numa planície e por ela prossegui ainda por uns dois quilômetros, por estradas bem definidas, de piso socado.


De volta ao planalto.

O trecho derradeiro foi trilhado dentro de um espetacular bosque de árvores silvestres, localizado ao lado de um rumoroso e encorpado riacho.

Foram mais 2 quilômetros de agradável solidão, por locais ermos, onde o ar puríssimo que se evolava da floresta deixou meus pulmões em festa.


Trilha localizada próxima de um rumoroso ribeirão.

Quase no final da jornada, transitei pela vila de Tierz, onde residem 403 pessoas.

Na verdade, a proximidade de Huesca transformou essa povoação em uma localidade residencial de pessoas que trabalham na capital.


A igreja de Nossa Senhora de Assunção.

O destaque ali é a igreja de Nossa Senhora de Assunção, que recebe romarias de toda a região.

Logo eu estava transitando em zona urbana, por belíssimas avenidas localizadas entre bairros residenciais.

E, sem maiores problemas, porque a sinalização se mostrou excelente também nesse derradeiro trecho, acabei por chegar ao centro velho da urbe.

Ali fiquei hospedado no Hostal São Marcos, localizado junto à igreja de São Lourenço, onde paguei 30 Euros por um razoável quarto individual.

Para almoçar, utilizei os serviços do restaurante La Vicaria, onde desembolsei 11 Euros para ingerir o “menú del dia”.

Na volta, face ao cansaço acumulado na longa jornada, deitei para um merecido descanso.


A Igreja barroca de São Lorenço.

Huesca se estabeleceu, historicamente, em uma colina facilmente defensável, 488 metros acima do nível do mar, ao lado de um pequeno rio, o Isuela.

A evidência mais antiga de ocupação humana na aldeia, recém-descobertos, correspondem aos do período neolítico, 6.000 anos atrás.

Na época romana foi uma cidade importante, chamada Bolskan e Osca, daí o gentio oscense, com o qual são conhecidos os seus habitantes.

Posteriormente, por quatro séculos, foi uma pequena cidade muçulmana, de nome Waksqa, até sua reconquista pelos cristãos, em 1095.


A Oficina de Turismo de Huesca.

Capital da província homônima, é a maior cidade do Caminho Catalão, entre Montserrat e San Juan de la Peña, e a segunda cidade em número de habitantes da Comunidade de Aragón (Zaragoza é a cidade mais povoada).

Geograficamente, se encontra no limite entre os vales do Ebro e os Pirineus.

Sua construção mais importante é a catedral de Santa Maria, dos séculos XIII-XVI, de estilo basicamente gótico, e edificada sobre uma mesquita maior.


Huesca, cidade belíssima!

Seus monumentos mais importantes são o Muralha Árabe, do século IX, que ainda conserva uma torre; igreja românica e claustro de San Pedro el Viejo; os túmulos dos reis de Aragão e monumento nacional desde 1885; o Palácio Real, onde a tradição coloca a lenda do Sino de Huesca; as igrejas medievais de Santa Maria de Salas, San Miguel e Santa Maria in Foris; a Catedral gótica; a Câmara Municipal dos séculos XV-XVII; as igrejas barrocas de San Lorenzo e Santo Domingo; o edifício octogonal da Universidade; a igreja de San Vicente-century (XVIII); o Casino, de estilo modernista; e o Parque Municipal Miguel Servet.

População atual: 49 mil habitantes.


A Catedral de Huesca.

Como de praxe, à tarde dei um longo giro pela belíssima cidade, onde encontrei ruas limpas, calçadas muito bem conservadas, monumentos, museus em profusão e um povo extremamente hospitaleiro.


A Catedral de Huesca, de outro ângulo.

Pude apenas fotografar a Catedral de Santa Maria pelo lado externo, porque a mesma se encontrava fechada.

Verifiquei ainda, cuidadosamente, o local por onde deixaria a cidade na manhã seguinte, pois pretendia sair muito cedo.

Para finalizar, passei num supermercado e logo me recolhi, pois caía uma fina garoa e a temperatura havia baixado bastante.


Seguindo os sinais jacobeus pelas ruas de Huesca.

CONCLUSÃO PESSOAL: Uma jornada de razoável extensão, percorrida quase sempre sobre terra, por locais ermos e silenciosos. O dia permaneceu nublado a maior parte do tempo e eu me senti muito bem nesse trajeto que cumpri integralmente solitário. A única dificuldade foi o descenso a partir da serra de Paridera de Montori, onde um tombo era iminente a todo instante. No global, uma etapa longa, mas de gratíssima recordação. E a cidade de Huesca me impressionou, sobremaneira, por sua limpeza, hospitalidade e extrema beleza arquitetônica.