16ª Etapa – BARCELOS à PONTE DE LIMA – 34 QUILÔMETROS

16ª Etapa – BARCELOS à PONTE DE LIMA – 34 QUILÔMETROS – “UMA PAISAGEM VERDE E ABRUPTA

“Caminhamos pela província do Minho, a mais setentrional de Portugal, que faz fronteira com a Galícia. A paisagem volta a ser verde, ainda que mais abrupta. Os núcleos rurais, tal qual ocorre na Galícia, são pequenos e dispersos. O resultado é uma etapa larga, com dois pequenos morros a superar, o alto da Portela, na saída de Barcelos, e o alto da Albergaria, porta de entrada ao vale do rio Lima, por um entorno rural muito estimulante, o que evita durante boa parte da jornada as rodovias de intenso tráfego. Se atravessam inúmeras aldeias, porém quase todas sem serviços e possibilidade de alojamento. De todas as formas, ainda que houvesse essa alternativa, vale a pena forçar a marcha para pernoitar em Ponta de Lima, uma cidade medieval e monumental, pequena e agradável, onde as árvores, o rio, a ponte romano-medieval e o ritmo sossegado da vida, incitam o peregrino a conhecê-la melhor.” (Traduzido/transcrito do Guia El País Aguilar, edição do ano de 2007, que utilizei na viagem)

 

A jornada se apresentava longa e com razoável grau de dificuldade, ainda mais se tratando de um domingo.

Dessa forma, eu e o Dedé combinamos de partir às 5 h 45 min, para aproveitar bem aquele dia, já que iríamos conhecer a famosa e monumental cidade de Ponte de Lima.

Juntos, dissemos adeus ao galo de Barcelos e, no horário aprazado, animados e bem dispostos, nós deixamos o local de pernoite, seguindo por ruas ventosas e vazias.

Nesse primeiro trecho, integralmente urbano, avistamos apenas alguns garis, que realizavam a limpeza da praça onde desenrolara as festividades no dia anterior.

Primeiramente, nós acessamos a Avenida da Liberdade, e por ela seguimos um bom tempo, até sairmos numa rotatória, onde giramos à direita e, depois de 3 quilômetros caminhados, ainda sobre asfalto, aportamos em Vila Boa.



O dia estava clareando, quando passamos diante da capela do Espírito Santo (século XVI), ultrapassamos a via férrea, acessamos uma agradável estrada de terra, localizada em meio a muitas árvores, e seguimos adiante.



O trajeto seguiu em leve, contudo, em perene ascenso e, nesse pique, passamos pelas pequenas aldeias de Lijo e Gândara.



Já, depois disso, vimos ao longe à esquerda, a igreja de São Pedro Fins de Tamel.

Prosseguimos em ascensão, agora por asfalto, e encontramos muitas pessoas em trajes sociais transitando a pé e em sentido contrário, com certeza, indo assistir à missa dominical na igreja de São Pedro.

Ainda em aclive, passamos diante da igreja de Nossa Senhora da Portela, localizada numa ampla praça.

Logo acima, saímos na rodovia EM-204, já à altura do cemitério, e, ao atingir o ponto culminante da jornada, acabamos por chegar a Portela de Tamel, uma pequena povoação, onde passamos diante do albergue de peregrinos da Recoleta, cuja inauguração data de 18/04/2010.



Um senhor idoso e levemente obeso iniciava sua jornada naquele instante, assim pudemos conversar com ele, ainda que de passagem, mas o suficiente para saber que sua nacionalidade era belga.

Então, principiamos a descender, ainda pela rodovia nacional, e logo passamos diante da Fonte de Portela.

Mais quatrocentos metros caminhados, ainda descendo, adentramos à “carretera” de Quintães, para sair, dois quilômetros à frente, defronte à moderna igreja de Aborim.

O caminho prosseguiu integralmente campestre, entremeando trechos em asfalto, com outros em terra, porém, em alguns locais, encontramos o caminho extremamente encharcado, obrigando-nos a autênticos malabarismos para não molhar os pés.

Finalmente, 14 quilômetros vencidos, transpusemos o rio Neiva pela famosa ponte de Táboas, uma emblemática construção citada em relatos desde o século XII.



Possivelmente, seu embasamento é romano, porém, análise feita recentemente, dão conta de que a ponte é mais antiga, sabendo-se que por ela, passaram peregrinos desde os tempos medievais.

Confalonieri parou para lanchar à sua entrada, e estranhou que se chamasse “de tábuas, já que fora construída com pedras, dizia”.

Sobre essa incongruência, análises criteriosas sugerem que ela teria sido edificada na alta Idade Média, primordialmente, com troncos de madeira para, depois, migrar para alvenaria.

Aproveitando o belíssimo entorno, fizemos uma pausa restauradora para descanso, hidratação, ingestão de frutas e alongamentos.



Na sequência, adentramos por caminhos campestres e bucólicos, onde avistamos extensos vinhedos e campos silvestres, cheios de flores, até porque estávamos em plena primavera.

Nesse trecho, transpusemos a rodovia N-308 e, logo passamos diante da capela de São Bento de Balugães.

E logo ultrapassamos, de uma só vez, 2 casais de peregrinos, ambos de nacionalidade francesa.

Mais adiante, transpusemos a rodovia N-204 e, já do outro lado, prosseguimos por uma estrada vicinal asfaltada, situada entre grandes propriedades rurais, que nos levou a passar por minúsculas aldeias, como Fonte de Cal, Outeiro, Vilhadiz, Rocha, Grajal e Reborido.



Em seguida, passamos diante da igreja matriz de Vitorino dos Piães, atravessamos uma rotatória junto ao bar-restaurante Viana, e principiamos a subir em direção ao Alto de Albergaria que, com seus 177 m, seria o segundo ponto de maior altimetria da jornada.

Duas peregrinas alemãs que caminhavam a nossa frente, foram também ultrapassadas quando pararam para lanchar, próximo de uma fonte.

Depois de leve declive pelo lado oposto do morro, acabamos por sair, novamente. na rodovia N-204, e por ela caminhamos aproximadamente 1 quilômetro.

Nesse trecho fomos ultrapassados por cinco ciclistas portugueses, que nos cumprimentaram efusivamente, desejando Bom Caminho!



Logo acima, adentramos num caminho de terra à esquerda, e uma placa ali colocada, nos avisava que restavam 10.400 metros até a chegada.

Meus pés já davam mostras de cansaço e sentia um principio de dor na face plantar, possivelmente causado pelo excesso de caminhada sobre o asfalto que encontramos até aquele patamar.

Nesse ponto, o Demétrius parou para atender seu telefone celular, enquanto fazia sinal para eu seguir em frente, avisando que depois me alcançaria.



Fazia um dia maravilhoso e a etapa tornou-se tão bela, que me esqueci de tudo e passei a desfrutar da minha jornada solitária porque, afinal, estava pleno saúde e paz.

Assim, prossegui adiante por uma senda extremamente agradável, depois por caminhos em terra que cruzaram bosques imensos de esbeltos eucaliptos, onde pude respirar o ar puro que dali se emanava, um presente divino para meus pulmões.

Apesar do cansaço acumulado pela longa jornada, me sentia feliz e com a alma leve, e logo em seguida, passei a caminhar por uma estrada velha, que correspondia ao caminho antigo empedrado.

O dia se mantinha perfeito, ainda bastante frio, mas com poucas nuvens no céu, sinalizando que teríamos bastante calor depois das 12 horas.

Logo abaixo eu passei por Leiras, bem ao lado da antiga e decantada Quinta da Albergaria, que atualmente se dedica ao turismo rural.



Foram se sucedendo pequenos povoados, praticamente, um grudado no outro, como Portela, Facha, onde vi um precioso cruzeiro com um Cristo, Campo Novo, Anta, Bouça, Paço e Barros.

Ali fiz uma necessária pausa para descanso, pois meus membros inferiores pareciam querer travar, e um Senhor que vinha no sentido contrário, me disse que ainda restavam 3 quilômetros para a chegada.

Contou que residia próximo dali, e me perguntou seguidamente se eu necessitava de algo: água, comida ou alguma outra ajuda, talvez me tomando por algum andarilho, pois eu me encontrava suado, vermelho e com as botas enlameadas.



Porém, suas palavras de preocupação me emocionaram muito.

De fato, esses pequenos gestos vindo de um desconhecido, provocam-nos tantos sentimentos, que não sabemos muito como expressá-los.

Afinal, numa época em que a palavra generosidade não consta de nenhum dicionário, aquilo era um desvelo inexplicável, mormente para um estrangeiro, de forma que minha alegria se transformou em lágrimas de emoção.

Enquanto me despedia daquela alma bondosa, eis que o Dedé me alcançou, extremamente bem disposto, de forma que prosseguimos adiante e logo avistamos e fotografamos outro marco centenário o famoso “Cruceiro de Pedrosa”, do século XVII.

Na sequência, transpusemos o rio Trovela pela ponte medieval de Nossa Senhora das Neves, que tem um arco apenas, depois passamos diante de sua capela homônima, para desembocar num bosque que orla a fachada do rio Lima.



O caminho adentra à vila, fundada pela rainha Dona Teresa em 1125, e passa junto à Capela de Nossa Senhora da Guia, de 1630, decorada com azulejos de tapete e retábulos.

Depois dessa passagem prosseguimos pela Avenida dos Plátanos.

Passamos ainda diante da igreja e convento de Santo Antônio dos Capuchos e, defronte ao hotel Império do Minho.



E por este caminho fresco e arborizado, aportamos em Ponte de Lima, catalogada como a vila mais antiga de Portugal, nossa meta para aquele dia, quando meu relógio marcava 13 h 30 min.

Famintos e exaustos, nos dirigimos à Pensão Residencial São João, localizada num local central e de excelente qualidade, onde pagamos 20 Euros, por uma habitação individual.

Para almoçar, escolhemos um dos muitos restaurantes que existem em seu “casco viejo”, onde fomos muito bem atendidos, apesar de ser um domingo e a graciosa vila se encontrar cheia de turistas.

 

A cidade deve seu nome e povoação a uma ponte de pedra sobre o rio Lima, construída à época do imperador Augusto, na rota Bracara (Braga) a Asturica-Augusta (Astorga).

Passagem chave durante séculos nas comunicações da região do Minho e local de trânsito obrigatório para os peregrinos que iam a Santiago de Compostela pelo Caminho Português.

Porém, nem toda fabulosa obra de engenharia civil que agora podemos observar, com 380 metros de extensão, é daquela época.

A passagem original romana só corresponde aos cinco primeiros arcos da margem direita, aquela localizada mais longe do centro urbano, hoje sobre um braço seco do rio, por onde, possivelmente, correriam as águas há 2.000 anos.

O restante, num total de 24 arcos, 16 dos quais são ogivais, e com curiosos desenhos em forma de barca, são da época medieval, provavelmente do século XIV, construídos durante o reinado de D. Pedro I, sendo que a povoação originalmente estava fortificada com uma torre em cada extremo.



Ponte de Lima é uma pequena e agradável cidade monumental, muito apropriada para ser desfrutada a pé e para deleitar-se nos entardeceres em sua praia fluvial, tendo a ponte como tela de fundo.

No verão há um bom ambiente festivo, com mercados medievais e inúmeros festivais de música e arte.

Da muralha quadrangular original, sobraram duas torres, localizadas nas esquinas, a de São Paulo e a da Cadeia (antigo cárcere).



Daquilo que foi a cidade medieval, destaca-se sua Igreja Matriz, em estilo gótico e manierista, a mais antiga de todas, edificada no século XV, por ordem do rei D. João I.

No geral, se encantadores são os rincões urbanos de Ponte de Lima, mais ainda são as alamedas e passeios pedestres que percorrem ambas as margens do rio, um prazer sensorial para descansar o corpo e, sobretudo, os pés, depois de um dia de dura caminhada.

 

Depois de um providencial descanso, saímos dar uma volta pela cidade, porém, como era domingo, a maior parte do comércio se encontrava fechada, bem como grande parte dos turistas que encontramos na chegada já havia partido.



Ainda assim, foi possível caminhar pelas belas ruas da urbe, bem como atravessar a ponte medieval, para conhecer o outro lado do rio, local por onde transitaríamos na jornada seguinte.

Aproveitando a ocasião, fomos até o albergue de peregrinos para carimbar nossa credencial, e pudemos conhecer suas estupendas instalações, que pode abrigar até 50 pessoas.



Por sorte, na volta ao local de pernoite, encontramos uma padaria aberta, onde pudemos nos prover de mantimentos e água para o lanche noturno e o trajeto do dia imediato.

E logo nos recolhemos, pois começou a cair uma garoa fria e sob um forte vendaval, deixando o centro urbano vazio e silencioso.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Sem dúvida, uma etapa longa e bastante dura em termos de piso, pois apesar de vários trechos em terra, a maior parte do percurso foi percorrido sobre asfalto. Em compensação, em meio a intenso verde, com a natureza radiante e em pleno esplendor. Sem dúvida, Ponte de Lima é um local único e maravilhoso, que merece uma visita mais demorada. No geral, uma jornada de muita superação, com dois morros a serem sobrelevados, mas com preciosas vistas em todo o trajeto que, por sinal, está muito bem sinalizado.

17ª Etapa – PONTE DE LIMA à VALENÇA DO MINHO – 36 QUILÔMETROS