5ª Etapa – GOLEGÃ à TOMAR – 31 QUILÔMETROS

5ª Etapa: GOLEGÃ à TOMAR – 31 QUILÔMETROS – “O ENCONTRO COM A MONTANHA

“A primeira parte da jornada de hoje, segue os mesmos moldes das etapas precedentes. Grandes planícies de cultivo, povoados agrícolas e horizonte plano. Porém, após Atalaia, o Caminho abandona a vizinhança do rio Tejo e seu perfil se encrespa por ladeiras boscosas, plenas de sombras. E o peregrino que caminhou 4 dias por planícies infinitas e sol a pino, agradece como água de maio essa mudança de cenário. O dia proporciona também algumas visitas monumentais. Uma delas, na Quinta da Cardiga, na saída de Golegã, uma das mais notáveis fazendas senhoriais agrícolas de Portugal, que teve suas raízes na Ordem dos Templários, e por diante da qual teriam passado, seguindo o caminho real de O Porto, viajantes e peregrinos de todo o tipo, desde a Idade Média. Outra surpresa é Tomar, uma cidade rica em história e edifícios singulares, que oferece um apropriado final de etapa para dizer adeus ao Ribatejo.” (Traduzido/transcrito do Guia El País Aguilar, edição do ano de 2007, que utilizei na viagem)

 


O percurso daquele dia seria razoavelmente longo e eu teria contato com morros, assim, resolvi sair o mais cedo possível, como forma também de fugir do sol oprimente.

Dessa forma, levantei às 5 h e às 6 h eu deixei o local de pernoite, o Hotel Luzitano, seguindo por ruas profusamente iluminadas, porém vazias e silenciosas.

Logo cheguei à praça principal da cidade, então, girei à esquerda e prossegui pela rua Afonso Henriques, por mil metros.

Na sequência, eu atravessei a Rodovia Nacional e prossegui em terra, por um caminho bem sinalizado, por mais dois quilômetros, utilizando minha potente lanterna.

Então, acessei uma rodovia vicinal asfalta, por onde prossegui à esquerda, até chegar à pequena vila de São Caetano, quando o dia principiava a clarear.

Nessa povoação existe um albergue privado, o primeiro do Caminho, instalado numa autêntica vivenda ribatejana, com pátio, cozinha e salão social, onde se paga 15 Euros por pessoa, com café da manhã incluso.



Eu atravessei a pequena aldeia, passei defronte à Quinta do Matinho, tomei outra rodovia vicinal, e logo adentrava nos limites da Quinta Cardiga, ou melhor, nas ruínas que restaram dessa secular propriedade, uma das mais famosas de Portugal.

Sua origem se deve a um castelo doado aos templários, em 1165, pelo rei Dom Afonso Henriques, que juntamente com os castelos de Zêzere e Almourol, e da Torre de Atalaia, formavam um sistema de vigilância e controle feito por essa ordem de monges-guerreiros.

A possessão que incluía ricas e férteis terras à beira do rio Tejo, foi derivando em uma quina com casas para diaristas, horta, capela, cavalariças, bodega, armazéns para estocar os produtos colhidos e oficinas.

Durante quase toda a Idade Média pertenceu a diferentes ordens religiosas, entre elas a dos monges do convento de Cristo de Tomar, herdeiros em Portugal de todos os bens deixados pelos templários.



Porém, depois passou pela mão de diversas famílias nobres, que a engrandeceram com salões, jardins versalhescos e um pórtico manuelino.

Sua importância chegou a ser tamanha, que, em 1550, o rei Dom João III autorizou o desvio do leito do rio Tejo, para favorecer a irrigação das hortas dessa propriedade.

Em 1580, o rei espanhol Felipe II se alojou nela quando veio acudir os condes de Tomar, durante o breve período de tempo em que a coroa dos dois países estiveram sobre sua cabeça.

Confalonieri ali parou para se alimentar e a descreveu em seu diário como “um palácio real, com boas salas, câmaras, galerias e pátios, onde descansou o rei Felipe II, quando regressou de Tomar, e nele reside continuamente um frade do dito convento”.

Atualmente, pelo que pude saber, nela reside apenas um velho monge, e tudo ali se encontra tristemente abandonado, em que pese sua rica história e valioso patrimônio.

Pois, observei “in-loco”, que tudo se acha em estado de abandono, inclusive, algumas dependências já estão deterioradas, por falta de manutenção.



Já deixando a enorme propriedade, avistei o rio Tejo pela última vez, posto que daquele local em diante, eu seguiria francamente em direção norte.

Prossegui em forte descenso, por uma larga e retilínea estrada que me levou até a cidade de Vila Nova da Barquinha, após 9 quilômetros caminhados.

O povoado, de razoável dimensão, estava ainda por acordar, pois era uma segunda-feira.

Assim, cruzei a urbe por uma rua lateral, já em ligeiro ascenso.

Mais adiante, eu atravessei a via férrea e, observando as flechas amarelas, girei à esquerda, e logo acessei a rodovia N-3, por onde segui por quase uma hora, ainda em trecho urbano.

Caminhei um bom tempo sem avistar setas, porém, mais adiante, numa subida elas reapareceram e pude seguir mais tranquilo.

Na sequência, passei Atalaia, outra pequena aldeia, então principiei a ascender, ainda pela rodovia nacional.



Para minha surpresa, diante de uma igreja erigida a mando de Dom Pedro de Menezes, uma construção de 1528, avistei uma mulher caminhando com mochila, onde sobressaia uma grande concha santiaguina.

Animado, apressei meus passos e logo alcancei a peregrina que, por sinal, seguia em ritmo bastante lento.

Tratava-se da Martina, uma senhora alemã idosa, que também estava caminhando sozinha, e me confirmou que naquele dia iria pernoitar, como eu, em Tomar.

Trocamos ainda mais algumas palavras e informações, depois, como ela estava ainda iniciando o seu dia, pois pernoitara em Vila Nova, disse-lhe adeus, desejei-lhe “Bom Caminho”, e segui em frente.

Depois de 500 metros caminhados, percebi que as flechas estavam pintadas do lado oposto da rodovia por onde eu caminhava, de maneira que resolvi atravessar a “carretera” para melhor visualizar a sinalização.



Ocorre que eu tinha ampla vista do trânsito à minha direita, contudo à esquerda, havia uma pequena elevação, que não me permitia ver mais de 100 metros de distância.

Ainda assim, confiante, observei por um bom tempo o tráfego e, numa brecha, resolvi mudar de lado, decisão que quase provocou uma tragédia.

De fato, eu já estava na outra faixa, quando um veículo em alta velocidade, assomou do local de onde eu não detinha visão e buzinou com intensidade e fortemente, sem dar mostras de reduzir seu curso.

Assustado, dei dois grandes pulos e consegui alcançar a calçada, ainda assim o retrovisor do automóvel roçou levemente a mochila, me fazendo perder o equilíbrio e cair de joelhos.

O carro prosseguiu velozmente sem se deter, e eu precisei fazer um "stop" para me acalmar, pois se minha reação não tivesse sido envidada a tempo, ele teria atingido a mochila em cheio, me desequilibrando.

Certamente, então, uma tragédia se desenharia, pois eu teria ido ao solo e poderia ter sido atropelado.

Creio que Santiago e meu Anjo da Guarda estavam de plantão, pois a cena foi tão rápida e inesperada, que fiquei entorpecido pelo acontecimento, passando, desde então, a me sentir tenso e intimidado, toda a vez que precisava cruzar alguma rodovia.

Fiz uma pausa para me recompor.



Tomei água, e depois, refeito do imenso susto sofrido, prossegui adiante, e logo as flechas me remeteram à direita, em direção a um espesso e frondoso bosque de eucaliptos.



Nele, todo o cuidado era pouco, pois estavam extraindo madeira, contudo a sinalização, embora estivesse em alguns locais, colocada na casca das árvores, mostrou-se eficiente e não corri o risco de me perder.

As sendas alternavam entre empinadas e pedregosas, mas fui avançando com cuidado e, às 10 h, 17 quilômetros vencidos, passei pela simpática vila de Grou.

Eu atravessei a aldeia por sua única rua, e logo principiei a descer novamente.

Porém, após transpor uma pequena ponte, enfrentei outro duríssimo ascenso, de aproximadamente 1.000 m de extensão, que me levou, em seu final, a transitar por Asseiceira, outro pequeno povoado erigido à beira da rodovia N-110.

Prossegui em declive, e logo passei por Guerreira, outra minúscula aldeia, ao longo da qual existe o cruzamento de três importantes rodovias.

Eu transpus o rio Ribeira de Bezelga, atravessei parte de um polígono industrial e logo as flechas me levaram a caminhar à beira da via férrea, por um caminho em terra, num trajeto verdejante e silencioso.



Dois quilômetros depois, eu saí novamente numa rodovia vicinal, e prossegui em perene ascenso por mais quatro quilômetros, sempre por asfalto.

Nesse trecho eu passei pelas aldeias de Carvalhos de Figueirido, Casal Marmelo, Casal Rosa e Casal das Bernardas, todos eles compostos de casas dispersas, situadas em meio a grandes árvores e extensos jardins.



E depois de vencer o alto do Piolhinho, por um túnel, eu passei sob a ferrovia, girei à esquerda, e logo adentrava em Tomar, quando meu relógio marcava 13 horas.

Eu seguia pela avenida de acesso ao centro urbano, quando vi dois senhores idosos e bem vestidos conversando animadamente numa esquina, e parei para pedir-lhes informação sobre meu local de pernoite.

Passei-lhe cópia do meu Guia, onde estava escrito o endereço da Pensão e eles parlamentaram um bom tempo, até que o mais idoso, olhando bem nos meus olhos, indagou-me se eu entendia inglês.

Respondi-lhe afirmativamente, e ele, num “macarrônico” linguajar, passou a explicar o que eu teria de fazer, qual ruas percorrer, para chegar ao meu destino.

Porém, sua pronúncia carregada de sotaque luso era tão engraçada, que caí na risada e lhe disse que poderia me dizer tudo em bom português, posto que eu era brasileiro.

Foi a vez dos dois velhotes sorrirem, depois me disseram que era muito difícil encontrar peregrinos “brazucas” naquele roteiro, isto posto, me passaram a informação solicitada, com minúcias de detalhes.

 

Tomar faz parte da seleta relação das cidades monumentais de Portugal, e está situada à beira do rio Nabão, um importante tributário do rio Tejo, na esquina onde a região do Ribatejo se funde com a da Alta Extremadura.

Trata-se de uma vila histórica, vinculada a Ordem de Cristo, a irmandade dos monges guerreiros que em Portugal tomou como espelho a Ordem dos Templários, uma vez que esta foi dissolvida em 1314, pelo papa Clemente V.

Foram eles que levantaram no alto da colina o convento de Cristo, em 1160, passando este à Ordem de Cristo em 1319, pela dissolução dos Templários.

Trata-se de um conjunto de edifícios com sete claustros em torno da um corredor semicircular entre o corpo da igreja e o altar-mor, charola central de planta octogonal e ares bizantinos, que recorda o templo do Santo Sepulcro de Jerusalém.



É certo que entre essas paredes foram urdidas boa parte da história de Portugal.

Nesse local residiu Enrique, “El Navegante”, o rei que deu um império colonial a Portugal.

Também foi aqui que as cortes portuguesas aclamaram como novo monarca Felipe II, da Espanha, em 1581.

Mais abaixo, nas ruas medievais que rodeiam a Praça da República e a Igreja de São João Batista, a vida segue seu curso, sob uma atmosfera do século XII, com um envoltório do século XXI, quase tão pausada e tranquila quanto àquela que rodeava os Cavaleiros de Cristo quando estavam acima do morro, em sua fortaleza.

turismo constitui hoje a principal atividade monetária dessa urbe, já que o Convento de Cristo, principal Monumento da cidade, foi considerado Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1983.

Porém, ela é também um centro industrial, com fábricas de papel, derivados de madeira e outras, comercial, e agrícola, porquanto suas terras são férteis e produzem frutas, azeite e vinho.

 

Para me hospedar, utilizei os serviços da Pensão Luz, localizada no centro do “casco viejo", onde dispendi 20 Euros, por um excelente quarto individual.

Para almoçar eu utilizei os serviços do Restaurante Piripiri, onde fui muito bem servido.

Mais tarde, após uma necessária soneca, fui até o Posto de Turismo colher informações, bem como posteriormente me dirigi à Estação Rodoviária, para confirmar horários de ônibus.

No trajeto, surpreso, encontrei a peregrina alemã Martina que seguia na mesma direção.

Prosseguimos juntos, já que ela tinha em mãos um mapa do casco urbano.

Depois, cada qual retornou para o seu hotel.

 

No dia seguinte, conforme já planejara adredemente, tomei um ônibus e fui visitar o Santuário de Fátima, distante 35 quilômetros de Tomar.



Eu já estivera naquele local sacro em 1996, porém foi emocionante retornar ao lugar de aparição da Virgem Maria.

Aproveitei e fiz um longo “tour” pela imensa esplanada que emoldura o local, assisti à missa na Capelinha das Aparições, visitei a Basílica da Santíssima Trindade, bem como a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, edificada no local onde os Pastorinhos brincavam a fazer uma pequena parede de pedras, quando viram o clarão que os fez pensar ser uma trovoada, em 13 de Maio de 1917.



E pude admirar novamente a Azinheira Grande, que era a maior árvore dessa espécie na Cova da Iria à época e, por isso, também, faz parte da história das aparições, porquanto junto dela os pastores ficavam em oração, antes de Nossa Senhora aparecer.



Enfim, matei saudades desse ambiente sagrado e pude renovar meus votos marianos.



Feliz, restaurado em minha fé e profundamente comovido, às 13 h, eu tomei um ônibus e retornei a cidade de Tomar.

Após almoçar e descansar um pouco, saí com a intenção de conhecer o Convento de Cristo e o Castelo de Tomar, porém os horários para visitação são sempre matutinos, de forma que deixei o passeio para outra ocasião.

Aproveitei, então, para verificar o local por onde eu deixaria a cidade na jornada seguinte.



No retorno, pude descansar e admirar o parque que existe ao lado do maravilhoso rio Nabão, que era bastante frequentado naquele horário, por crianças e familiares, pois o dia estava muito quente e ensolarado.

Depois, me dirigi a um supermercado, onde adquiri víveres para o lanche noturno, bem como para a etapa seguinte.

E fui dormir cedo, pois enfrentaria outra longa jornada na manhã próxima.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de razoável extensão, e bastante cansativa, posto que os derradeiros 8 quilômetros foram trilhados sobre asfalto, por um roteiro levemente ascendente, num horário em que o sol já abrasava. Ademais, o susto perpetrado pelo carro que quase me atropelou, serviu também para refrear um pouco, meu ímpeto ao atravessar as rodovias. Provocou, ainda, uma intensa reflexão em meu interior, pois se minha velocidade de reação ao perigo tivesse se atrasado em um segundo, apenas, certamente minha peregrinação teria se encerrado naquela data. Acresça-se, ainda, que necessitei vencer 2 ladeiras de forte aclividade, nesse trajeto.


6ª Etapa – TOMAR à ALVAIÁZERE – 32 QUILÕMETROS